Crítica | Black Mirror – 1ª Temporada

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estrelas 5,0

Black Mirror é uma daquelas séries que parecem ser somente encontradas na televisão britânica – sim, é evidentemente e declaradamente inspirada em The Twilight Zone, clássico da TV americana (que se você não conhece, por favor trate de utilizar seu smartphone para alguma coisa útil), mas isso não tira o ar tipicamente inglês do seriado, que você rapidamente captará se já tiver assistido o fantástico Utopiatambém da emissora Channel 4. O que temos aqui é nada menos que uma pungente crítica à sociedade moderna e uma extrapolação de para onde nossos atuais hábitos podem nos levar – um drama que chega a ser cômico de tão trágico e, vez ou outra, surreal, seguindo uma estrutura de “e se”, que nos traz pequenos contos a cada capítulo.

O cômico que me referi no parágrafo anterior, contudo, não quer dizer que o espectador terá grandes risadas ao longo dos três episódios desta primeira temporada – o máximo serão pequenos risos, rodeados por uma angústia e diversos socos no estômago, que farão qualquer um se sentir como se estivesse no velório de um parente próximo. Adotando uma estrutura de apenas três capítulos, com duração média de quarenta e cinco minutos cada, Black Mirror nos faz efetivamente pensar sobre os impactos da tecnologia, não só em nossas vidas pessoais, como na coletividade – na forma como a raça humana passou a se portar diante da cultura do imediatismo e do espetáculo.

Dito isso, temos no primeiro episódio, The National Anthem, uma história ligada ao uso massivo das redes sociais – especialmente Twitter Youtube – na qual o primeiro ministro inglês (interpretado por Rory Kinnear) é colocado em um tenebroso dilema: para salvar a vida da adorada princesa Susannah (Lydia Wilson), ele deve ter relações sexuais com um porco enquanto é televisionado, ao vivo, em rede global. Rory Kinnear, antes mesmo de demonstrar seu talento em Penny Dreadfulconsegue representar perfeitamente a angústia de um homem que, aos poucos, é deixado sem opção, sem esperança a não ser se humilhar perante toda a humanidade. Há uma nítida perversão, um terrorismo psicológico, no arco em questão, explicitado pela ausência de um objetivo claro no sequestro do membro da família real – o visado é apenas o espetáculo, um político sendo forçado a regredir a seu estado mais primal. E aqui entra a genialidade do primeiro episódio, que se estende para a série como um todo: ao simpatizarmos pelo ministro, passamos a refletir na forma como nos entretemos através da miséria alheia. Assistimos as multidões, alguns enojados, outros ansiosos pelo que irá acontecer e não conseguimos nos distanciar deles. O absurdo não é tão distante de nossa própria realidade, a vida efetivamente imita a arte e The National Anthem evoca essa noção, nos deixando praticamente em transe ao término da projeção.

Fifteen Million Merits, por sua vez, trazendo um novo enredo, em um universo completamente diferente, com um elenco totalmente inédito à série, coloca em cheque outro aspecto de nossa querida vida moderna. O alvo agora são os quinze minutos de fama, os infinitos reality shows que pipocam em grande escala a cada ano que se passa. Aqui abro um pequeno e assustador adendo antes de entrar no segundo capítulo.

Há poucos anos atrás, em uma matéria da faculdade de nome televisão e vídeo, fomos incitados a criar programas fictícios para que os apresentássemos posteriormente à turma. Eu diria que 90% dos grupos – fiquei nos 10% que sobraram, felizmente -, sem exageros, optaram por reality shows, não sei se por preguiça ou simples falta de criatividade, mas isso bem reflete o que enxergamos na televisão como um todo (naturalmente incluo a TV aberta aqui). Que melhor maneira de descrever a cultura do imediatismo, da fama acima de tudo e do, já mencionado anteriormente, espetáculo? Uma turma de faculdade, com jovens repletos de esperanças, de ideias novas, decidiu perder seis meses de suas vidas bolando reality shows. E ainda reclamam do Big Brother Brasil.

O segundo capítulo de Black Mirror vem, então, feito à medida para essas pessoas. Pessoas que obrigam os outros a acreditarem que somente serão bem sucedidas se ganharem o American Idol, pessoas que assistem The Voice e sonham em fazer parte daquele circo e, é claro, para aqueles que efetivamente participam de tais programas e, quando perdem, só faltam cortar os pulsos. Não estou dizendo que você está errado em assistir ou participar de tal tipo de entretenimento, o erro está na importância que a sociedade dá a esse tipo de série, o que, evidentemente, apenas traz mais do mesmo tipo de programação às nossas TVs. Para ilustrar essa absurda cultura, acompanhamos Bing (Daniel Kaluuya) um jovem que vive enclausurado em um ambiente hermético no qual sua vida consiste em: acordar, pedalar em uma bicicleta estática para gerar energia, comer, assistir comerciais de programas ou aos programas em si e dormir. Não há diálogo, não há vida, apenas sobrevivência em uma cultura puramente virtual na qual as pessoas podem sonhar, sem jamais atingir seus sonhos. No meio disso, Bing acaba se apaixonando por Abi (Jessica Brown Findlay) e tem a brilhante ideia de inscrevê-la para um reality show aos moldes de Britain’s Got Talent, a única suposta maneira de sua paixão se livrar daquele imperdoável ciclo vicioso. Ao fim de Fifteen Million Merits duvido que não se sintam enojados de programas como esses, que evocam uma celebridade ao custo do sonho de dezenas de outras. O curioso é como a emoção se demonstra reprimida nesses hamsters em suas pequenas rodas e como o sistema os trata como meras engrenagens, de forma fria, cruel e objetivista, colocando, enfim, uma meta clara na vida de cada ser humano, ou melhor, duas: gerar energia ou participar de um reality show.

Por fim, The Entire History of You, lida com nossa cultura de maneira mais ampla, atacando especificamente nossa necessidade cada vez maior de registrar cada momento vivido, seja através de fotos, vídeos ou posts no Facebook e Twitter. Aqui encontramos uma sociedade na qual todos contam com implantes que recordam, através dos olhos, a vida de cada indivíduo, sendo possível acessar tais memórias e até exibi-las em outras telas a qualquer momento, em outras palavras: compartilhando com outros. O esquecimento se torna mera recordação, ao passo que se torna possível vivenciar novamente qualquer trecho de nossas vidas. Mas, como já dissera nosso querido Décimo Segundo Doutor, o esquecimento é o superpoder da raça humana, ele nos faz esquecer a dor do parto para que tenhamos novas crianças ou a dor de um término de relacionamento para que não deixemos de nos apaixonar. No caso de Liam (Toby Kebbell), seu implante o permite analisar cada momento com precisão cirúrgica, desde uma entrevista de emprego até um possível flerte de sua esposa com outro homem. É justamente essa possibilidade que o torna obcecado e destrói completamente a dúvida da ignorância, tirando sua bênção e transformando a realidade em um conjunto de memórias jamais esquecidas. Mais perturbador que toda essa noção é o fato de que não sabemos se sentimos raiva do protagonista ou se enxergamos o mesmo que ele, sabendo que não deveríamos (assim como ele) ter acesso a essas informações e, portanto, sentindo aversão a essa tecnologia. O que nos chama atenção ainda é a consistência desse universo, que sabe trabalhar seus personagens de modo que cada aspecto de suas vidas é moldado pelo infame implante, como é nossa necessidade real de registrar os eventos de nossas vidas. Aqui não posso deixar de abrir um parêntese e mencionar que neste episódio encontramos uma das mais perturbadoras cenas de sexo já mostradas no audiovisual, o que, por si só, nos fará dar suspiros de alívio pela nossa habilidade de esquecer.

Mais que suas tramas, porém, Black Mirror consegue engajar seu espectador através da sua criativa e, ao mesmo tempo convincente, abordagem da tecnologia. Desde telas holográficas até máquinas de vender comida, os objetos que vemos em tela não soam como elementos estranhos – os personagens perfeitamente interagem com eles e a direção faz o ótimo trabalho de não deixá-los em quadro por muito tempo – sabemos que estão ali, que os personagens os utilizam, mas não temos tempo para estudá-los ou até entender como funcionam. Sabemos o que fazem e como são manuseados, mas não precisamos muito além disso – como um bom filme de terror, o elemento estranho não permanece à vista por um longo período, ocasionando em uma imersão imediata do espectador. Tal característica é evidente no seriado – ao mesmo tempo que estranhamos diversos aspectos desses universos que assistimos, conseguimos nos colocar dentro deles. A crítica à nossa sociedade vem, portanto, de forma mais marcante, ao passo que nos identificamos com os diferentes arcos exibidos.

Terminamos, então, essa primeira temporada de Black Mirror com um gigantesco peso em nossas costas, uma amargura notável em nossas bocas e um embrulho inegável em nossos estômagos. The Twilight Zone nos trouxe mais um brilhante filho, uma impactante obra de ficção científica que permanece em nossas mentes sem que precisemos de um implante para lembrar de cada uma de suas cenas. Em apenas três episódios vimos que, de fato, há algo de muito errado em nossa sociedade.

Black Mirror – 1ª Temporada (Reino Unido, 2011)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: Otto Bathurst, Euros Lyn, Brian Welsh
Roteiro: Charlie Brooker, Konnie Huq, Jesse Armstrong
Elenco: Rory Kinnear, Lindsay Duncan, Donald Sumpter, Daniel Kaluuya, Jessica Brown Findlay, Rupert Everett, Toby Kebbell, Jodie Whittaker, Tom Cullen.
Produtora: Channel 4.
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Netflix.
Duração: 3 episódios de aproximadamente 45 min cada.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.