Crítica | Black Mirror – 2ª Temporada

estrelas 5,0

A primeira temporada de Black Mirror nos trouxe uma antologia de perturbadores contos explorando o lado negro da tecnologia, suas consequências na humanidade e realizando pertinentes críticas sociais que, imediatamente, trazem fortes reflexões para o espectador. Em uma discussão recente com nosso editor Ritter Fan sobre nossos Top 5 de séries, somente não incluiríamos o seriado britânico em virtude de sua estrutura narrativa de antologia, apresentando novos personagens e histórias a cada episódio. Dito isso, podem imaginar minha surpresa quando assisti a segunda temporada e a considerei tão sensacional quanto a inicial, apenas reiterando o que eu e Ritter concluímos.

Com, também, apenas três episódios, esse segundo ano já abre com o perturbador Be Right Back. Aqui, Martha (Hayley Atwell, a eterna Peggy Carter) e Ash (Domhnall Gleeson, o General Hux de O Despertar da Força) são um típico casal jovem com uma relação bastante divertida cujo único empecilho é o celular do marido, que parece sugar toda sua atenção por diversos momentos. Nossa percepção inicial é a de que veremos um declínio desse casamento em virtude dessa fixação em estar conectado, algo que vemos de maneira mais crescente nos dias atuais. Experimentem ir a um restaurante de noite e olhar à sua volta e contem quantas pessoas (mesmo aquelas em encontros) estão mexendo no celular. Tendo trabalhado como garçom, posso dizer que a quantidade será assustadora na maior parte dos casos. O coeso roteiro de Charlie Brooker, contudo, sabiamente utiliza o uso do portátil de Ash para nos introduzir à questão da pele sintética no enredo, ponto que vem à tona posteriormente no capítulo.

O que efetivamente separa Martha de seu marido é a morte dele. Desolada, ela é apresentada a um programa por meio do qual ela pode conversar com seu querido falecido, uma versão virtual de Ash, que mimetiza sua maneira de falar através de uma análise de suas redes sociais, fotos e vídeos. Tudo começa com emails, progride para voz, até chegar em um clone sintético do rapaz. Impossível não traçar um paralelo com Ela (Her) ao assistir Be Right Back, a relação construída entre Martha e seu correspondente virtual avança de maneira muito similar ao que veríamos, no mesmo ano, no filme de Spike Jonze. Trata-se de um relacionamento evidentemente tóxico, que muito bem reflete as centenas de namoros virtuais que temos na vida real, mas a questão abordada no capítulo não se limita a isso. O verdadeiro enfoque está na dependência emocional, problema crescente em nossa sociedade. Ao ser introduzida a esse programa, Martha corta qualquer esperança de superar a morte do marido, colocando nessa figura, ou ainda na memória, suas chances de sobreviver. Quantos de nós não fazemos de namoradas, esposas ou até amigas nossos pilares? A crítica é evidente, implora pela independência emocional de todos nós, ao passo que somente assim podemos alcançar um certo grau de felicidade, da mesma forma que a protagonista aqui.

White Bear, o segundo episódio, por sua vez, tem sua real crítica revelada somente ao término da projeção. A trama gira em torno de Victoria (Lenora Crichlow), que acorda sem qualquer memória em uma casa que, ao que tudo indica, é a sua própria. Ao sair às ruas para pedir ajuda, contudo, todos que encontra estão em uma espécie de transe diante das telas de seus celulares filmando-a incessantemente e sem dialogar de qualquer forma e se afastando caso ela chegue muito perto. Não demora muito a surgir uma exceção, pessoas mascaradas que tentam, por alguma razão, matá-la, criando uma tensão constante no espectador que encontra-se tão perdido quanto a protagonista, buscando entender o que ocorre. Somente uma jovem, Jem (Tuppence Middleton, a Riley de Sense8), parece querer ajudá-la de alguma forma. Temos aqui uma mistura de filme de terror com distopias aos moldes de A Estrada. A protagonista está perdida nesse mundo e deve lutar ao máximo para sobreviver.

De imediato captamos o mesmo ponto que acreditávamos ser o central de Be Right Back: a fixação pela tela do celular. De fato, essa é uma das questões abordadas aqui mais a fundo que no episódio anterior, mas, conforme progredimos na história percebemos, através do twist final, que a narrativa busca problematizar nosso constante estado de júri. Evidentemente, julgar os outros sempre foi um costume do homem, mas as redes sociais amplificaram essa questão consideravelmente, todos ganham uma voz mais alta e podem se expressar com facilidade. Ao mesmo tempo, o capítulo aborda mais uma vez a cultura do espetáculo, algo tão presente em nosso dia-a-dia. 

Por fim, chegamos ao capítulo que considero ser o meu preferido da série até agora: o genial The Waldo Moment, que coloca a política no centro do palco. Jamie Salter (Daniel Rigby) é o homem por trás de um popular personagem de animação, Waldo, um urso azul grosseiro cujas falas e ações são controladas ao vivo por Salter. No meio das eleições inglesas, os empresários por trás de tal figura o colocam para criticar o candidato conservador Liam Monroe (Tobias Menzies). Naturalmente, o público adora e mais e mais o desenho passa a se envolver na política, até se tornar, ele próprio, um candidato. Qualquer brasileiro com o mínimo de conhecimento da história recente de nosso país irá imediatamente se lembrar do famoso macaco Tião, que se tornou um candidato não oficial nas eleições de 1988 para a prefeitura do Rio de Janeiro. Waldo, porém, representa muito mais que um voto de protesto nulo, ele dá voz aos candidatos verdadeiramente honestos, que não fazem da política sua carreira e estão ali para realizar algo de construtivo para o povo. Black Mirror, porém, não trabalha somente com a superfície e consegue construir a personalidade do homem por trás dessa popular figura. Salter é um personagem profundo e esconde sua depressão por trás da figura debochada que é o urso azul, representando muito bem todos aqueles que vestem máscaras em nossa sociedade a fim de não demonstrar o sofrimento que os assola por meses, anos e até décadas a fio. Naturalmente, o trabalho de Daniel Rigby merece destaque aqui, trazendo um retrato sólido de um homem com problemas emocionais. O mais assustador é como The Waldo Moment soa verossímil, tanto nas relações interpessoais quanto na retratação do momento eleitoral. Seu desfecho é ainda um alerta sobre a importância do voto consciente e como uma ação impensada no momento eleitoral pode gerar catastróficas consequências (mais uma vez, o Brasil é um bom exemplo, além da própria Inglaterra bem recentemente).

Estou incerto se posso dizer que a segunda temporada de Black Mirror consegue ser ainda melhor que a primeira, mas, definitivamente, ao menos, encontra-se no mesmo nível de qualidade. Com três episódios inesquecíveis, que reviram nosso estômago por dentro, a série britânica consegue mais uma vez sugar nossa atenção por completo, como os personagens que critica. Temos aqui três abordagens criativas de nossa sociedade, críticas muito bem construídas, que irão, certamente, deixar muitas questões na mente dos espectadores. Chega a ser triste não podermos incluir a série em nosso Top 5. Ou será que podemos?

Black Mirror – 2ª Temporada (Reino Unido, 2013)
Showrunner:
Charlie Brooker
Direção: Owen Harris, Carl Tibbetts, Bryn Higgins
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Hayley Atwell, Domhnall Gleeson, Claire Keelan, Lenora Crichlow, Michael Smiley, Tuppence Middleton, Daniel Rigby, Chloe Pirrie, Jason Flemyng, Tobias Menzies.
Duração: 3 episódios de aproximadamente 45 min. cada.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.