Crítica | Black Mirror – 4X01: USS Callister

 spoilers do episódio. Leiam, aqui, as críticas de todos os demais episódios da quarta temporada de Black Mirror.

Com o primeiro capítulo da quarta temporada de uma de suas séries mais populares, a Netflix opta por investir em um formato mais cinemático, cheio de efeitos especiais, menos sóbrio do que outros capítulos já vistos. Assim como Playtest da terceira temporada, a natureza dos videogames é abordada de maneira cínica, com os desenvolvedores de títulos de realidade aumentada criando verdadeiros pesadelos para os personagens apresentados. Acima de tudo, porém, temos consequentes quebras de expectativas, não tão espetaculares quanto outras já vistas, mas certamente importantes para tornar tudo o que vemos em USS Callister interessante. Não é por menos que visualizamos, primeiramente, uma paródia de Star Trek, com cenários e figurinos remetendo fantasticamente à série de TV dos anos 60. Contudo, logo o espectador é absorvido por uma narrativa que tem muito mais para dizer, como um bom episódio de Black Mirror, brincando com a tecnologia hipotética e cutucando as feridas de uma sociedade doente.

A começar pela trama, o Capitão Daly (Jesse Plemons) não é o comandante da USS Callister, como aparenta ser durante a missão da tripulação anunciada em tela em nossos primeiros minutos frente ao episódio. Muito pelo contrário, ele é um dos principais criadores do jogo Infinity, enorme sucesso da realidade aumentada que está prestes a ganhar uma atualização. Além disso, o verdadeiro Robert Daly, não tão heroico e corajoso quanto sua contraparte virtual, guarda para si mesmo uma versão offline do jogo, na qual ele leva clones digitais de colegas de trabalho para dentro do game e os manipula a seu bem entender. Todas essas informações, levadas para o público durante o decorrer do episódio, não são apresentadas da forma mais devastadora possível. O senso de plot twist não é tão recreativo quanto poderia, mas funciona ao passo que provêm uma história envolvente, na qual nos importamos com toda aquela tripulação escrava, presa eternamente dentro de um universo sem escapatória – a não ser a “morte”.

O mais instigante de USS Callister é buscar saber como aqueles personagens irão “sair” deste universo aprisionante. A solução imaginada pelo roteiro de Charlie Brooker e William Bridges funciona perfeitamente, paralelizada com a exploração da temática de videogame. Ambos encontram uma resposta esperançosa e que faz todo o sentido dentro do caráter especulativo da narrativa. Um caminho muito parecido com o encontrado no roteiro de San Junipero. No mais, as desventuras narrativas que levam os personagens de pontos As para pontos Bs brincam com ideais imaginativas, mas faltou uma direção mais certeira para não deixar a jornada de Nanette Cole (Cristin Milloti) dentro do apartamento de Daly soar forçada. As lacunas do espaço e tempo são, ironicamente, destruídas, com pouca criatividade dos roteiristas em não deixar a continuidade dos eventos transparecer seus furos. Nesse meio tempo, surge um comentário sobre invasão de arquivos pessoais, o qual não vai a lugar algum. Além disso, a direção de Toby Haynes não torna a sequência tensa como deveria ser, sem traduzir uma sensação de clímax muito funcional.

Fora isso, o episódio trata de uma questão realmente angustiante, muito perturbadora, relativa à natureza da vida humana e o propósito de sua existência. No jogo, todas aquelas pessoas apenas querem o fim de seus sofrimentos, visto que não anseiam – e não conseguiriam – sair do jogo. Tudo envolvendo o filho de Walton (Jimmi Simpson) é pungente, visto o condicionamento feito sobre nós a assistir o martírio interminável de um pai. A grande atração da obra, no entanto, é mesmo Jesse Plemons, o qual interpreta dois lados de um mesmo homem: um apático, levemente sem graça, mas ainda assim simpático e outro extremamente frio, desprovido de compaixão. No intuito de nos demonstrar a existência de lados ocultos das pessoa, USS Callister permite que Jesse Plemons maneje seus atributos interpretativos para conciliá-los com as suas duas caras; uma real e outra virtual. O tom de fala, as expressões faciais, tudo é diferenciado dependendo da circunstância. Neste âmbito, o episódio fomenta uma feroz acusação aos bullies da internet, os quais, atrás de uma tela, tornam-se seres que não teriam coragem de ser longe delas.

Sendo assim, no final dessa grande aventura, enfim nos encaramos com uma mensagem recompensadora, que vai na direção oposta da maioria dos episódios de Black Mirror, se aproximando, como apontado anteriormente, de San Junipero. Um adendo, para finalizar, a boa fotografia do capítulo, que, infelizmente, não abusou das possibilidades infinitas de cenário quanto poderia. Em um universo nunca antes explorado, a tripulação que conhecemos irá desventurar em uma jornada pelas estrelas. Brooker e Bridges deixam o final em aberto, sem indicar se Daly efetivamente morreu e qual será o futuro da USS Callister. Isto fica nas expectativas do público, que acabou de experienciar um ótimo episódio da série.

Black Mirror – 4X01: USS Callister (EUA, 29 de dezembro de 2017)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: Toby Haines
Roteiro: Charlie Brooker, William Bridges
Elenco: Jesse Plemons, Cristin Milloti, Jimmi Simpson, Michaela Coel, Billy Magnussen, Osy Ikhile, Paul G. Raymond, Hammed Animashaun, Tom Mulheron, Aaron Paul, Kirsten Dunst
Duração: 76 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.