Crítica | Black Mirror – 4X02: Arkangel

 spoilers do episódio. Leiam, aqui, as críticas de todos os demais episódios da quarta temporada de Black Mirror.

Arkangel leva os espectadores para dentro de um mundo levemente alterado, se comparado com o nosso. Em substância, apenas a criação de um aplicativo que permite pais terem controle do que seus filhos estão comendo, sentindo, precisando e assistindo, 24 horas por dia. Dessa forma, Black Mirror cria seu debate sobre a linha tênue entre cuidado e obsessão. A questão é que o episódio nada tem verdadeiramente a falar que já não foi falado anteriormente e melhor. O discurso nunca existiu ou se perdeu na tradução para o audiovisual. Apesar disso, a direção de Jodie Foster permite que Arkangel seja um pouco mais interessante do que poderia ser em seu estado mais cru, com uma fotografia acinzentada bem cabível a obra, fornecendo um clima de desamparo e solidão, apesar da vigilância contínua.

Hoje mãe solteira, Marie (Rosemarie Dewitt) deu luz a uma garota e, após perdê-la de vista ainda quando criança, recorreu de imediato aos serviços da Arkangel, os quais permitiram que, além das outras funcionalidades, sua filha fosse resguardada de imagens mais delicadas que pudessem alterar níveis de cortisol. O erro do episódio é desistir de desenvolver qualquer aspecto das consequências do aplicativo sobre a criança. O pai de Marie, interpretado por Nicholas Campbell, serve apenas um propósito narrativo bem básico, e mesmo assim, Charlie Brooker não tem a mão firme para ir até o final com a sua atitude no início do episódio, a qual poderia levar à morte do personagem. Estranhamente, o personagem ainda morre quando vem uma passagem temporal e seu luto não é sentido, além de alguns segundos de visita ao cemitério. Inteiramente sozinha agora, Marie acompanha o crescimento da sua filha, abrindo mão do aplicativo, após o primeiro – e único – surto da filha.

Há o que se lembrar aqui com o que foi feito em The Entire Story of You, embora, nesse caso, a história não engata tão bem quanto poderia. A começar, as problemáticas que acometem a filha, agora com 15 anos, de Marie (Brenda Harding) são tão genéricas quanto se poderiam pensar que seriam. Apesar disso, é legal que o roteirista não leve Trick (Owen League) para caminhos de antipatia extrema com o espectador. É bastante perceptível e associável as atitudes do garoto ainda menino com as atitudes dele adolescente, embora, mesmo assim, ele não seja nenhum sociopata quanto Marie revela-se ser na conclusão do capítulo. Neste último ponto, Arkangel falha completamente em não trazer um desenvolvimento de personagem que permita que o fim do episódio seja algo além de sádico. Tudo foi pincelado brevemente em uma única cena na qual a garota começa a se cortar. Depois, ela já consegue falar com o cachorro do vizinho decentemente, e aparenta ser uma menina como qualquer outra, cheio de vontades e desejos. Pode até ser que o aplicativo pudesse causar transtornos como o que acontece com ela a ponto de quase matar a mãe, mas isso é muito mal feito.

De fato o controle da mãe sobre a filha é extremamente abusivo. Mas, ainda pelo fato de que estamos tratando de uma criança primeiramente, apenas o conceito do filtro é duramente inadequado. O resto vai abrindo margem para inadequações no decorrer do crescimento da pessoa. O debate, porém, do que se é aceitável nessa relação de mãe e filha, com a garota maior, nunca vai para lugar algum e a narrativa é fortemente blasé. Brooker nos força goela abaixo que algo está acontecendo com a garota, mas é tudo óbvio demais, como a relação que se faz do comportamento sexual da garota bem inspirado em pornografia com o fato do acesso abrupto dela àquele mundo. Ao menos a atuação de Rosemarie DeWitt é intensa, e sua personagem convence como uma mãe preocupada e engajada. O roteiro ajuda-a com a linha de história sobre gravidez, a qual mostra que, embora vigiando erroneamente a filha, Marie se importa com ela intensamente. É surpreendente, contudo, que até o último minuto eu esperasse que algo mais relevante saísse de Arkangel, mas tudo não passou de uma ideia sensacional, que acabou ganhando traços comuns e se viu assim encabeçada em um mar medíocre.

Black Mirror – 4X02: Arkangel (EUA, 29 de dezembro de 2017)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: Jodie Foster
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Rosemarie DeWitt, Brenna Harding, Nicholas Campbell, Owen League, Angela Vint, Jason Weinberg, Aniya Hodge, Sabryn Rock, Jenny Raven, Paul Braunstein, Sarah Abbott, Nicky Torchia, Mckayla Twiggs, Abby Quinn, Michelle Giroux
Duração: 52 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.