Crítica | Black Mirror – 4X03: Crocodile

 spoilers do episódio. Leiam, aqui, as críticas de todos os demais episódios da quarta temporada de Black Mirror.

O mais sombrio episódio de Black Mirror nessa quarta temporada até agora (Metalhead e Black Museum ainda não foram vistos pelo crítico que vos escreve), Crocodile quase conseguiu ser um episódio ruim, pela ausência de interesse que o espectador pode ter assistindo-o, na sua primeira parte. Aos poucos, enquanto cresce o clima de tensão e conflito, o público certamente se verá engajado pelo capítulo, para o bem ou para o mal, visto que estamos diante de uma narrativa que não teme o macabro em sua conclusão e que, por tal, pode resultar em duas perspectivas opostas na forma como essa história será encarada. Acima de tudo, no entanto, o aspecto tecnológico é deixado completamente de lado e usado apenas como acessório narrativo funcional para criar-se um conto de descrença, a qual aumenta gradativamente na medida que as coisas vão dando errado. Como outros capítulos de Black Mirror, como The National Anthem, esse não é um episódio que explora a tecnologia de maneira extensa, muito pelo contrário, nem pretende fazer isso. É um capítulo sobre responsabilidade e a bola de neve que podemos causar com as nossas atitudes.

Dado o interesse que temos por criações de universo mais imaginativas, é deveras decepcionante estarmos de frente a uma ideia já usada anteriormente. De certa forma, aliás, parece estarmos presenciando um retrocesso do acesso de memórias, algo já explorado em The Entire Story of You e até no próprio Arkangel. Soa, portanto, como um recorte não tão crível para o espectador, que já estava acostumado com a utilização do mesmo artificio, mas de forma mais ampla. Na premissa de Crocodile, o que acontece é que as memórias são usadas como recurso no tribunal, divulgadas para tornarem-se provas concretas. No caso estabelecido aqui, o acidente automobilístico que fratura o braço de um homem dá margem para a busca de Shazia (Kiran Sonia Sowar) pela confirmação de que um carro de delivery de pizza, sem motorista, estava em alta velocidade. No meio disso, problemáticas irão vir a tona e tudo será despedaçado pelo puro acaso.

Envolvida em um acidente de carro que matou um ciclista anos atrás, Mia (Andrea Riseborough) retorna ao terror do passado, na ameaça de que sua vida perfeita será estragada com a insistência de Rob (Andrew Gower) em assumir o assassinato acidental. Matando Rob, Mia se verá dentro de um casulo cada vez menor, ao passo que as investigações de Shazia cada vez mais se aproximarem do caminho traçado pela mulher. Não é por menos que as consequências tornarão-se mais e mais prejudiciais à vida de Mia, garantindo, dessa forma, que o mundo que ela conheceu nunca mais seja o mesmo, em paralelo com a sua tentativa falha de que tudo permaneça igual. A começar, é necessário salientar-se a maneira poderosa como Andrea Riseborough carrega sua história de tragédias, desconstruindo todo o símbolo de empatia que temos por ela em sua introdução.

No mais, Charlie Brooker não permite que nada seja exposto sem necessidade, com o foco no hamster e até no carro de pizza, prenunciando de forma agradável usos narrativos. A tecnologia, porém, não ganha tanta credibilidade quando estamos de frente com um hamster, o qual tem pouco discernimento dos eventos que acontecem, como principal testemunha ocular, incriminando, portanto, Mia. É um twist interessante, e de fato é um alívio sabermos que Mia irá se dar mal (peguei-me torcendo muito quando foi revelado que a mulher não iria se safar dessa), mas após tanto se apontar sobre a criação de um clima que remeta ao acontecimento passado, além de uma inconsistência natural de relatos, devido a fragilidade da memória humana, se pararmos para pensar por um tempo, as soluções são bem estranhas.

Mesmo assim, esse thriller cresce com a condução da direção de John Hillcoat, o qual permite que o enredo fique interessantemente engajante para o público, depois que Mia ataca Shazia. Dali para frente, tudo apenas cresce, com a trilha sonora ficando cada vez mais aterrorizante, fazendo o espectador situar-se dentro desse ambiente de desconforto. Um adendo também para a cinematografia de Lol Crawley que capta o frio desnorteador da belíssima paisagem da Islândia, local de filmagem de boa parte do episódio, de forma perturbadora. Sendo assim, em um resumo da ópera, Crocodile pode demorar para engatar e ser bem divisivo em relação as suas decisões, mas as atuações são fortes e a sensação definitiva é de que, de alguma forma, fomos impactados por essa história trágica. Não necessariamente uma mensagem ou um debate bem construído, apenas um impacto cru, mas ressonante.

Black Mirror – 4X03: Crocodile (EUA, 29 de dezembro de 2017)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: John Hillcoat
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Andrea Riseborough, Andrew Gower, Kiran Sonia Sowar, Anthony Welsh, Claire Rushbrook, Joshua James, Adelle Leonce, Brian Pettifer, Jamie Michie, Armin Karima, Stefán Örn Eggertsson, James Eeles, Dilja Imana, Ólafía Hrönn Jónsdóttir, Sigurður Sigurjónsson
Duração: 59 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.