Crítica | Black Mirror – 4X04: Hang the DJ

Não há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de todos os demais episódios da quarta temporada de Black Mirror.

O amor já foi abordado em Black Mirror outras vezes. Dentre todas, a maior aproximação que pode-se fazer com este episódio da quarta temporada é com o capítulo San Junipero, da terceira, devido o teor otimista que se é apresentado, além de toda a conjuntura do desenvolvimento de um relacionamento. Por isso, o maior acerto de Hang the DJ, antes mesmo de comentarmos sobre o seu teor crítico ou sua criatividade narrativa, está na capacidade de Charlie Brooker em criar outro casal extremamente crível, com muita química. Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) simplesmente funcionam e os seus respectivos atores não poderiam ter sido melhor escolhidos, com ambos apresentando-nos jovens apaixonados, mas cheios de dúvidas. Equiparar-se com Kelly e Yorkie, do episódio comentado anteriormente, é um feito para lá de notável. O cerne de Hang the DJ, contudo, e o que movimentará o espectador pela trama, é a angústia de como esse casal tão perfeito irá conseguir contrariar as normas de um aplicativo que, supostamente, fomenta um casal ideal.

Na trama especulativa, as pessoas têm a ajuda de um programa para encontrarem seus pares perfeitos. O processo é demorado, e no caminho para que se atinja o objetivo destinado, muitos relacionamentos serão criados e desmanchados, tudo ocorrendo naturalmente. Como na vida, a efemeridade é uma constante, mas aqui, ela é obrigatoriamente forçada, dada o tempo de validade predestinado, que parece independer da química e da real coesão do casal. Afinal, por qual motivo Frank deveria ser obrigado a conviver por um ano com Nicola (Gwyneth Keyworth)? As respostas para todas as suas perguntas virão por meio de uma belíssima e surpreendente fascinante história de amor – e de revolta.

A maré das nossas expectativas não são totalmente reviradas, porém, Hang the DJ vai além do imprevisível, justificando perfeitamente a sua previsibilidade. O que se espera é um discurso de como a tecnologia é incapaz de ditar o nosso futuro, sendo nós, consequentemente, verdadeiros donos do destino. Mas, na realidade, o aplicativo está o tempo todo brincando com a sua própria existência, questionando a si mesmo, no passo que também promove críticas certeiras sobre sua natureza – seu paralelo no mundo real, o Tinder, sobre relacionamentos e sobre cotidianos.

A direção do episódio, de Tim Van Patten, acerta na forma singela como retrata os momentos de amor entre o casal, além de prover, com o auxílio de uma montagem cuidadosa, um senso de que há algo errado com aquele universo, sem, contudo, entregar a bandeja logo de cara. Os detalhes são manejados com precisão para criar a dúvida no espectador e estender as possibilidades imaginativas que criamos durante a duração de 51 minutos. Por exemplo, Charlie Brooker consegue, com seu plot twist final, justificar por completo possíveis lacunas no roteiro, como o fato daquele casal não trabalhar ou fazer algo que fuja do cotidiano estabelecido pela narrativa.

Além do mais, outra coisa que Hang the DJ faz bem é nos entregar uma conclusão deliciosa, a qual conta com Panic, de The Smiths, tocando ao fundo e funcionando como cenário de despedida para uma história vigorosa e engajante. Apesar do conteúdo do episódio não ser o mais subversivo do mundo, o propósito inicial é bem alcançado e esse romance definitivamente ficará guardado na memória daqueles que se permitirem embarcar na história proposta por Brooker. Em um mundo no qual não temos um artefato como este, resta-nos sermos o mais rebeldes possíveis e arriscarmos com os nosso corações. Mesmo no fracasso passageiro ou até mesmo na longínqua decepção, os bons tempos não serão em vão e algo será tirado de tanta história. Tudo acontece por uma razão.

Black Mirror – 4X04: Hang the DJ (EUA, 29 de dezembro de 2017)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: Tim Van Patten
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Georgina Campbell, Joe Cole, George Blagden, Gwyneth Keyworth, Gina Bramhill, Jessie Cave, Luke Manning, Tim Pritchett, Alex Tamaro, Che Watson, Bruce Chong, Anna Dobrucki
Duração: 51 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.