Crítica | Black Mirror – 4X05: Metalhead

Não há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de todos os demais episódios da quarta temporada de Black Mirror.

O quinto episódio da quarta temporada de Black Mirror, Metalhead, nos apresenta um ambiente efetivamente destruído pela tecnologia. Contudo, os vilões da vez não são mortos-vivos famintos por carne humana, mesmo que em muitos aspectos esse episódio lembre filmes de zumbis, como A Noite dos Mortos-Vivos. Primeiramente, esqueça qualquer outro tipo de criatura que já estamos familiarizados diante de tal temática. Estamos falando de Black Mirror, o que dá margem para que sejamos apresentados a outro tipo de problemática: cachorros-robôs assassinos, destinados a matar todo ser humano que aparecer na frente deles. Sem qualquer criação de perspectiva sobre o objetivo dessas máquinas de matar, de onde elas surgiram ou como o mundo ficou devastado, nossa atenção estará na premissa de um trio humano que está em busca de algo indefinido que se encontra dentro de um armazém abandonado.

Em um primeiro plano, o maior problema de todos é que Metalhead certamente não é uma produção má feita. O episódio é um thriller de alto nível, que empolga em suas cenas bem conduzidas pelo diretor David Slade. A perseguição incessante do cachorro-robô à mulher rende bons momentos de tensão, elevados ao ápice pelo forte sentimento de aprisionamento conferido pela imagem em preto e branco. Sem uma gama extensa de cores para atribuir à paisagem – excepcionalmente aproveitada pela fotografia do episódio, os caminhos conferidos de saída para a personagem são aparentemente reduzidos de maneira drástica, o que é impulsionado até pela trilha sonora. Dessa forma, Metalhead nos prende na cadeira, não pelo senso narrativo de que algo efetivamente esteja acontecendo, mas pela sua própria natureza audiovisual, além da ótima performance de Maxine Peake, interpretando Bella, a qual tem ao seu lado poucos diálogos. O silêncio é uma constante por boa parte da duração da história, algo que funciona, mas que acaba sendo interrompido por diálogos inexpressivos.

Isso se dá, pois, embora o episódio tenha esse caráter minimalista, Charlie Brooker tenta atribuir uma profundidade falsa à história. Com a criação subtendida de pretextos passados para a personagem de Peake, muitos destes provenientes dos momentos que a mulher tenta se comunicar com um alguém via rádio, Brooker finge que o background dela seja de alguma forma relevante para nós. Mas não é. Ou o roteirista assume uma posição verdadeira no que pretende fazer, ou não o faça. Metalhead não avança na elaboração de nenhum contexto para toda aquela situação pós-apocalíptica, e a única questão verdadeiramente abordada é até onde uma pessoa iria para dar o mínimo de conforto a um alguém destinado a morrer. Não que seja necessário se explicar o porquê daqueles cachorros quererem matar humanos. Dependendo da intenção proposta, isso não é. E a intenção aqui não é tratar desse cenário distópico, isso é apenas pano de fundo. Mas a reviravolta final, de que tudo que aquele trio estava procurando era meros ursos de pelúcia, funcionaria muito mais se tivéssemos algum vínculo emocional com a situação, ou ao menos sentíssemos verdadeiramente a importância que Bella atribuiu àquela missão.

Dada todas essas considerações, é uma pena que Metalhead não tenha decidido em nenhum momento o tipo de episódio que gostaria de ser. Não é uma experiência isenta de qualquer apreciação. Muito pelo contrário, há coisas boas a serem tiradas desse capítulo, indubitavelmente o mais diferente de Black Mirror até agora. O que se tira no final de sua consideravelmente curta duração, infelizmente, é um gosto amargo de que tudo visto foi em vão, de desperdício, algo que nunca é um bom sinal. Esse episódio pode até funcionar tecnicamente, mas dificilmente irá engajar o espectador da forma que deveria e provavelmente, para muitos, será considerado uma das piores, senão a pior, empreitada do seriado até o momento atual. Tentando ser diferente, Metalhead acaba sendo mesmo desinteressante.

Black Mirror – 4X05: Metalhead (EUA, 29 de dezembro de 2017)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: David Slade
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Maxine Peake, Jake Davies, Clint Dyer
Duração: 41 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.