Crítica | Black Mirror – 4X06: Black Museum

 spoilers do episódio. Leiam, aqui, as críticas de todos os demais episódios da quarta temporada de Black Mirror.

Black Museum, sexto e último episódio da quarta temporada da série Black Mirror, não é isento de mensagem. Temos, na história de vingança de Nish (Letitia Wright), uma poderosa denúncia social, um comentário sobre a diferença de tratamento dado às classes sociais mais baixas. É uma história que dificilmente não será apreciada pelo público, pelo teor de relevância que exprime em seus últimos minutos e pela retomada de algo que a temporada não teve tanto, uma marca registrada da série: a imprevisibilidade costumeira. Embora não seja tão bem construída como outras, a revelação final é impactante e funciona suficientemente a ponto do público tirar um saldo positivo do capítulo. A questão é que, na essência de tudo isso, Black Museum é muito mais falho em sua estrutura do que se esperaria.

O mais importante de tudo é como esse episódio tem o mesmo esqueleto narrativo de White Christmas (este, aliás, parece ser a principal inspiração para essa temporada, visto que três episódios desta lidam com os cookies). Muito semelhante. Três histórias são contadas, e no final um desfecho explosivo surge para nos atordoar. A questão que vem à tona, dada as comparações que Charlie Brooker nos obriga a fazer, é que os contos não se entrelaçam da maneira bombástica como a feita no especial da série. De fato é interessante, mas não tão válido, termos contato com essas três histórias, pois elas constroem a identidade tecnológica do episódio de maneira palpável. Mas, por outro lado, elas não acrescentam substancialmente na construção dos dois protagonistas da obra, além de não possuir o mesmo charme da reviravolta de Christmas; esta última justifica a quebra da narrativa para o advento de tramas secundárias de forma bastante coerente, e amarra-as no fim muito bem.

Já neste episódio, Rolo Haynes (Douglas Hodge), dono do museu que comporta artefatos criminais autênticos, entrega o passado daqueles itens em exposição de forma, ironicamente, extremamente expositiva. Com a reviravolta final, apenas a existência de Clayton Leigh (Babs Olusanmokun), última abordagem feita dentre as três, revela-se como intrinsecamente vital para a narrativa. Aliás, só eu que achei essa tecnologia de colocar a pessoa que está para morrer na cabeça da outra bem horripilante? Creio que ainda não exista o sistema de San Junipero, ou ele está em fases iniciais, mas logo de cara pensei: isso não é uma boa ideia. No final, a mesma coisa se repete com mãe e filha; mas eu não consegui comprar a existência de um dispositivo desse e isso é algo problemático quando estamos falando de uma ficção científica. Já a temática de transposição de dores e prazeres, abordada através da performance assombrosamente doentia do ator Daniel Lapaine, interpretando o Dr. Peter Dawson, é bem mais interessante. Grande acerto do episódio em termos imaginativos, mas, novamente e ainda mais evidente que todas as outras, essa primeira história está extremamente deslocada em comparação com as demais. Só para justificar o equipamento que causa dor ao holograma de Clayton? Alguns minutos poderiam ter sido facilmente enxugados.

No mais, Black Museum sustenta muito do interesse do espectador nas auto-referências que faz ao próprio programa. Em um dos momentos, por exemplo, é revelado que os acontecimentos de Fifteen Million Merits não passavam de histórias em quadrinhos. Já em outro certamente nos pegamos juntando, cronologicamente, as peças dispersas naquele cenário de crime. St. Juniper, hospital central do episódio, seria provavelmente uma inspiração para o nome San Junipero? Apesar da intrigante história contada e da retomada daquelas reviravoltas impensáveis que aprendemos a ansiar a cada episódio, além de uma cutucada certeira na ferida de séculos de injustiças, o encerramento da quarta temporada de Black Mirror é um estofado que já vimos antes. Mas é incrível como a série ainda tem, mesmo sem muita criatividade, a capacidade de nos surpreender. A surpresa podia ter sido melhor construída? Podia. Mas acredito que o conteúdo que se extrai daqui, apesar de consideravelmente mal formulado, vai agradar os fãs da série.

  • Pensamento final: Sim, eu não acredito que a terceira maior nota que dei para esta temporada foi para Crocodile. E olha que eu nem gostei tanto daquele episódio, apesar de ter achado ele bom. Isso nos traz ao clássico: a quantidade de estrelas é o que menos importa. O que importa de fato é o texto.
  • Outro pensamento final: Essa ideia de universo compartilhado para Black Mirror é péssima. Agora todos os espectadores ficarão tentando amarrar qualquer episódio da série em uma linha temporal, e isso tira muito do potencial criativo do próprio Charlie Brooker para futuras aventuras. Era melhor ficar com os easter eggs despretensiosos, e não assumir essa postura decisiva.

Black Mirror – 4X06: Black Museum (EUA, 29 de dezembro de 2017)
Showrunner: Charlie Brooker
Direção: Colm McCarthy
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Letitia Wright, Douglas Hodge, Daniel Lapaine, Aldis Hodge, Alexandra Roach, Babs Olusanmokun, Emily Vere Nicoll, Yasha Jackson, Amanda Warren
Duração: 69 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.