Crítica | Black Mirror: White Christmas

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estrelas 5,0

Obs: contem spoilers do episódio comentado. Confira as demais críticas de Black Mirror aqui.

Qualquer um que acompanhe algumas séries inglesas já sabe do costume britânico de se realizar um especial de natal a ser lançado no dia 25 de dezembro, sabe também que, embora a festividade seja mencionada aqui e lá, ou até que o episódio se passe nessa data, não há uma ausência de notáveis complicações na vida dos protagonistas de cada um desses seriados, que vão desde invasões alienígenas (como é o caso de Doctor Who) até novos casos para investigação (Sherlock, estou olhando para você). White Christmas não é exceção, não espere, portanto, encontrar aqui pessoas dançando de mãos dadas cantando jingle-bells.

O especial tem início em uma cabana no meio da neve, habitada apenas por Matt (Don Draper, vulgo Jon Hamm, com sua presença em cena sempre notável) e Potter (Rafe Spall). A solidão, porém, não significou uma aproximação dos dois e, por mais que estivessem juntos há um tempo considerável, agora que ambos começam a se abrir, mais especificamente Potter, incitado por uma história de Matt sobre seu passado. A estrutura narrativa aqui estabelecida é muito interessante, divide a trama em três distintos atos que funcionam quase como capítulos separados de Black Mirror, embora todos eles se conectem no terceiro ato.

O primeiro, contando a história de Matt, nos fala sobre seus talentos e profissões, mais uma vez, como é a marca do seriado, trazendo o “lado negro” da tecnologia e já inserindo uma pista bastante sutil para o desfecho, estabelecendo uma coesão de fazer brilhar os olhos de qualquer roteirista. Temos aqui um questionamento bastante angustiante sobre a inteligência artificial – até que ponto um ser criado por nós, que pensa e sente, não tem direito à liberdade? Afinal, o que define o ser humano, sua mente ou suas características físicas? White Christmas traz tais indagações à tona junto de um forte sentimento de aversão do espectador, nos faz pensar e não nos oferece uma resposta, deixando a pergunta no ar para nós tirarmos as próprias conclusões.

O segundo ato, por sua vez, lida com um diferente fator e explora as relações modernas extrapoladas para um nível que não soa tão distante assim de nossa realidade – o bloquear das diversas redes sociais que tanto nos distanciam das pessoas e muitas vezes tal função é utilizada de maneira leviana, sem levar em conta o próximo, como é o caso do episódio em questão. O que nos leva a pensar: é correto simplesmente nos afastarmos  de alguém somente por causa de uma briga? Por que não resolver as diferenças através do diálogo ao invés de excluirmos totalmente essa possibilidade? Evidentemente que algumas ofensas pedem ações drásticas, assim como outros problemas como stalkers e etc, mas amizades ou até relacionamentos perdidos através do “bloqueio” são aspectos assustadores de nossa dia-a-dia, que impactam cada um de maneira bem subjetiva, podendo gerar uma tristeza profunda, raiva, depressão, dentre outras inúmeras consequências.

Se o episódio já não se demonstrava sensacional até aqui, o terceiro ato é o que “explode nossa cabeça”, amarrando tudo de forma criativa e perturbadora. O destino de ambos os personagens é revelado e até hoje não consigo me decidir qual teve a vida mais destruída. Curiosamente ambos são culpados de homicídios culposos, o que nos leva a refletir o impacto da vida digital tanto nas investigações criminais quanto nas punições em si. Mais uma vez a tecnologia demonstra uma face assustadora e domina a vida desses personagens (como, passo a passo, controla as nossas), deixando-os reféns dessa nova realidade da raça humana, que, em um olhar mais abrangente, nos desumaniza.

White Christmas é a prova definitiva de que Black Mirror é uma das melhores séries da atualidade, o Twilight Zone que nós merecemos (e queremos) e nos traz um especial de natal que definitivamente não busca ser mais “light” em virtude do clima festivo. Como de costume, nos faz pensar, preenchendo-nos de angústia através de suas críticas à tecnologia e a sociedade que estamos nos tornando. Agora, terminada esta crítica, por favor, falem com a pessoa que mais amam (não por redes sociais) para que nos distanciemos, ao menos um pouco, dessa realidade alternativa perturbadora.

Black Mirror: White Christmas (Reino Unido, 2014)
Showrunner:
Charlie Brooker
Direção: Carl Tibbetts
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Jon Hamm, Rafe Spall, Oona Chaplin, Natalia Tena, Janet Montgomery, Liz May Brice.
Duração: 73 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.