Crítica | Black Sails – 1ª Temporada

estrelas 4,5

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Vikings e piratas comumente exercem grande fascínio no imaginário popular. Os primeiros, que permaneceram muito tempo fora do meio audiovisual, ganharam uma celebrada série de TV em 2013 que deu vida a uma história baseada em fatos reais. Os piratas, depois da péssima (com exceção do primeiro filme), mas bem sucedida franquia cinematográfica Piratas do Caribe, a partir de 2003, ganharam vida na TV duplamente em 2014, primeiro com Black Sails e, alguns poucos meses depois, com Crossbones. Enquanto a segunda naufragou antes que a temporada inaugural chegasse ao fim, a primeira perseverou e, ainda que não seja uma série tão discutida por aí, realmente mereceu sua manutenção no ar.

Black Sails, em primeiro lugar, resgata o pirata clássico (não, não estou falando daquele pirata com tapa olho, perna de pau e papagaio no ombro – ainda que seja importante lembrar desses estereótipos, conforme abordarei mais para a frente), fugindo completamente do “pirata bêbado versus o sobrenatural” que Johnny Depp tirou de sua cartola de um truque só. Muito ao contrário até, a série tem uma pegada realista e visceral que lembra Deadwood, da HBO, injustamente cancelada antes do encerramento.

Mas, diferente do citado faroeste ou mesmo de Vikings, Black Sails não busca abordar ou romantizar fatos pretéritos sobre a pirataria pelos Sete Mares. Sua base é, por incrível que pareça, literária e de nada menos do que do clássico do século XIX A Ilha do Tesouro, do escocês Robert Louis Stevenson. Abordando a obsessão “ahabiana” do Capitão Flint em pilhar o tesouro do galeão espanhol Urca de Lima, a série funciona como um prelúdio da obra infanto-juvenil de Stevenson, passada 20 anos (ou mais) antes da narrativa que tornou famosos o Capitão (já morto) e “Long John” Silver, o tal perfeito estereótipo do pirata de nossa imaginação que mencionei mais acima. Pelo menos em tese, o ouro do navio espanhol seria o mítico tesouro marcado com um “X” no mapa achado pelo jovem Jim Hawkins no livro.

No entanto, quem já leu a obra literária que inspirou a série deve ficar alerta para o fato de que ela só serviu mesmo de longínqua inspiração, já que a temática de Black Sails é adulta, séria e extremamente violenta, tentando ao máximo aproximar-se ao que talvez fosse realmente o dia-a-dia de piratas na ilha de New Providence, nas Bahamas, no começo do século XVIII. Não há nenhuma tentativa de criar uma aura romântica aos piratas ou ao seu estilo de vida. O que vemos é a vida dele sob o ponto de vista deles, com traições, mortes, estupros, mas também lealdade e algum romance e um olhar interessante de futuro por parte de alguns.

Essa dureza e crueza da vida dos piratas fica mais evidente com a fotografia estilizada da série, que usa cores “estouradas” para dar aridez à ilha paradisíaca banhada por mar de cor azul cristalina. Essa mesma aridez é transposta para os detalhes do comércio existente e a relação – ou ausência dela – com a Coroa Britânica, com roteiros que se esmeram em enxertar aspectos historicamente corretos em uma narrativa fictícia. Portanto, quem procura leveza e algumas horas de mera diversão descompromissada não as encontrará em Black Sails e talvez seja por isso que a série consiga sair do lugar-comum e apresentar algo que, apesar de potencialmente estar fora da zona de conforto que o espectador espera quando houve a palavra “piratas”, é fascinante de sua própria maneira ao mesmo tempo que exige engajamento para compreender-se os meandros dessa vida quase alienígena.

Em um primeiro momento, o elenco parecerá caricato ao espectador, já que a marcante figura do Capitão Flint, vivido por  Toby Stephens, apesar de não obedecer ao estereótipo do pirata, é a figura clássica do capitão durão que vence qualquer desafio e está sempre dois passos a frente de seus inimigos. O trabalho de Stephens é ingrato, na verdade, pois os roteiros não tornam fácil a tarefa de gostar dele. Sabemos que ele é o melhor pirata da ilha, mas seus objetivos escusos e egoístas, seu pouco caso por seu fiel imediato Hal Gates (Mark Ryan) e sua vida pessoal misteriosa com a aristocrata Miranda Hamilton (Louise Barnes), além de suas ações em geral o transformam em um anti-herói na verdade, alguém que não deixará de matar quem quer que seja para chegar aonde quer. Por outro lado, se o espectador perseverar, perceberá grande qualidade nos trabalhos do ator e também no de Mark Ryan, que formam o coração desta primeira temporada.  O momento em que o ar superior de Flint e a submissão de Gates passar a funcionar para quem assiste, marcará o momento que a série como um todo passará a funcionar.

Esse mundo quase que exclusivo de homens, que conta também com – esse sim – caricato capitão pirata rival de Flint, Charles Vane (Zach McGowan) e seu esperto imediato Jack Rackham (Toby Schmitz), além, claro, de John Silver (Luke Arnold sem mostrar a que veio, no papel mais unidimensional da temporada), entre vários outros, é suavizado pelas presenças marcantes de Eleanor Guthrie (Hannah New) e de Max (Jessica Parker Kennedy). As duas, inicialmente amantes, têm participação fundamental na estrutura da temporada, com Eleanor funcionando como a filha de um dos mais ricos mercadores locais e a controladora e negociadora das mercadorias roubadas pelos piratas. Sua força e ambição rivalizam com a de Flint e os dois, juntos, formam a dupla protagonista da série. Max, por outro lado, é a prostituta que sofre na mão dos brutos locais, apesar de sua índole pacífica e seu charme encantador. Sem revelar muitos segredos, basta dizer que, apesar de ela chegar ao inferno, sua volta é triunfal e merecedora, criando uma espécie de contraponto a Eleanor.

Ainda que muito da temporada se passe em terra firme, vale salientar que o design de produção é cuidadoso ao extremo e os cenários, os figurinos e a maquiagem ganham enorme relevância e detalhismo, cumprindo a tarefa de convencer o espectador de cada pequeno aspecto visual. Cada pirata tem sua própria personalidade refletida em suas roupas e cada casa de cada local diferente – seja no centro da vila ou no interior da ilha – tem ares autênticos. Quando a ação vai para o mar, a fusão de efeitos práticos com CGI é fluida e eficiente, com grande foco na estratégia utilizada, sem que os textos expositivos sejam particularmente maçantes. É particularmente surpreendente a quantidade de extras em cena e a coreografia do combate em alto-mar, que fogem do idealizado e tentam mostrar a dificuldade e o perigo das mais diversas situações.

Black Sails, ao menos em sua primeira temporada, é uma surpresa completamente inesperada. Usando uma base literária fundida com aspectos históricos e retirando a idealização do pirata oriundo do imaginário popular em uma produção que não economiza nos detalhes, o resultado é uma primeira temporada de se tirar o chapéu.

Black Sails – 1ª Temporada (EUA, 2014)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Neil Marshall, Sam Miller, Marc Munden, T.J. Scott
Roteiro: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine, Brad Caleb Kane, Doris Egan, Heather Bellson, Michael Angeli
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Zach McGowan, Toby Schmitz, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Mark Ryan
Duração: 456 min. (8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.