Crítica | Black Sails – 2ª Temporada

estrelas 5,0

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Só há spoilers da temporada anterior.

A primeira temporada de Black Sails foi uma completa surpresa. Um drama sobre piratas tendo como alicerce a fusão de uma espécie de prelúdio do clássico literário infanto-juvenil A Ilha do Tesouro e fatos reais com pegada realista, crua, violenta e sombria era uma aposta arriscada da Starz, mas que funcionou quase perfeitamente em uma temporada inaugural rara de se ver por aí em termos de desenvolvimento narrativo e de personagens sem em momento algum descambar para o arquétipo dos piratas que todos temos em mente.

Mas o que mais impressiona é que a segunda temporada consegue ser ainda melhor. Na verdade, muito melhor, mesmo considerando que a primeira já merecera os mais efusivos aplausos deste crítico. É que, agora, todos os personagens mais importantes já foram apresentados e a trama já está estabelecida. Conhecemos o Capitão Flint (Toby Stephens) por sua ferocidade e inteligência, Eleano Guthrie (Hannah New) por sua mão de ferro controlando o mercado dos piratas, John Silver (Luke Arnold) por sua esperteza e por sempre ter um ás na manga e assim por diante. No entanto, a grande verdade é que apenas achávamos que os conhecíamos, já que a temporada é de um esmero ímpar em ampliar e muito as personalidades e histórias de cada um deles e ainda ter tempo para focar na trinca formada por Max (Jessica Parker Kennedy), Jack Rackham (Toby Schmitz) e Anne Bonny (Clara Paget), além do extremamente violento pirata Charles Vane (Zach McGowan) e na misteriosa Miranda Hamilton (Louise Barnes) sem que a narrativa perca fluidez e impacto. É quase que literalmente descobrir que a primeira temporada não foi muito mais do que apenas um tira-gosto, do que algo visto sob véus espessos que nos impediam a visão do todo. E que coisa sensacional é constatar isso!

Claro que o foco narrativo fica no Capitão Flint e sua relação com Miranda. Os dois protagonizam flashbacks que nos transportam de volta à Inglaterra e revelam, finalmente, como eles foram parar na ilha de New Providence. O artifício narrativo do flashback é algo mais do que batido em séries de TV e, confesso, extremamente cansativo. Mas a grande verdade é que, aqui, eles são usados parcimoniosamente na medida do necessário para lidar com o passado do então Capitão James McGraw, “plantado” pela Marinha Britânica no lar de Thomas Hamilton (Rupert Penry-Jones) para lidar com suas ideias progressistas de como lidar com a ameaça dos piratas, além de Miranda, então esposa de Thomas. Os showrunners, aqui, fazem uso mais do que exemplar do flashback. Não há exageros, não há interrupções excessivas e a história contada no passado tem direta conexão com o desenrolar da temporada, sendo efetivamente essencial para sua completa compreensão. E o melhor é que o artifício não se torna algo recorrente do tipo “tem que constar em todos os episódios mesmo que não faça sentido algum” como em Arrow, por exemplo. Uma vez cumprida sua função – e isso acontece ainda na metade da temporada, sem enrolação – eles cessam completamente.

E, nesse passado, descobrimos novas e incríveis camadas para o futuro Flint e Miranda, camadas essas que dão outra dimensão aos personagens e cuja grande revelação pode até demorar um pouco para “cair a ficha”, mas, se olharmos bem, faz todo sentido. Nada como evoluir personagens a passos largos e, ainda por cima, trazer essa evolução organicamente para dentro da narrativa contada no presente.

Afinal, é no presente que 90% da temporada se passa. Partimos do exato momento em Flint, no último segundo do último episódio da temporada anterior, descobre que o ouro do galeão espanhol Urca de Lima está espalhado na praia da ilha onde ele próprio encalhara. Sua tripulação quer sua cabeça, mas ele quer o ouro por razões que vão muito além de ambição monetária, como já ficara claro na primeira temporada e ganha novos contornos ao longo da segunda. Em New Providence, agora que Vane tem o controle do forte local, Eleanor luta para manter o controle da situação. E a relação entre Max, Rackham e Anne se intensifica na medida em que negócios começam a se misturar com prazer.

E, muito diferente do que usualmente vemos em séries de TV, o novo e radicalmente diferente status quo não é efêmero, não volta “ao normal” depois de um ou dois episódios. Muito ao contrário, ele vai aos poucos tornando-se ainda mais complexo, em um jogo político e estratégico que amplifica ainda mais a complexidade – e fragilidade – da relação entre os piratas. Quem espera ver ação na água, com navio sendo abordados, canhões sendo atirados e bandeiras negras sendo hasteadas, pode esquecer. Este não é o mote de Black Sails. O objetivo da série é mergulhar profundamente nos meandros da mecânica de poder que existiu nas Bahamas como porto seguro dos piratas. A obra é de ficção, sim, mas vários personagens e situações são verdadeiras em uma mescla fenomenal entre fatos históricos e narrativa fantasiosa que dá veracidade a tudo o que vemos na telinha.

O Capitão Vane, por exemplo, é um dos personagens que efetivamente existiu. Claro que a versão vivida por Zach McGowan é bem diferente do Vane original, mas o espírito está lá e, aliás, é impressionante como justamente este personagem, que considerei um dos mais arquetípicos “piratas” na crítica anterior, é brindado com uma excelente construção que o retira da linha tênue do estereótipo necessário e o coloca pari passu com o próprio Flint, guardadas as devidas proporções. E o mesmo vale para a trinca Rackham-Max-Anne, que ganha extenso desenvolvimento que vai muito além de suas personalidades superficiais de “pirata esperto”, “bela prostituta” e “mulher durona” que, apesar de interessantes, por si só não eram suficientes para manter o interesse do espectador. Não eram, pois, agora, com seu aprofundamento, há material suficiente para que o espectador realmente fique engajado no que eles pretendem, sem que se perca a vista do todo. Além disso, aqui, começamos a ver a transformação de John Silver no azedo e perturbado “Long” John Silver da obra de Robert Louis Stevenson.

O design de produção continua do mais alto nível, com cenários e figurinos perfeitos para cada local onde se passa a ação. Temos o povo sujo e mal ajambrado de New Providence, a aristocracia britânica fleumática e pedante em Londres e a tentativa de uma aristocracia fleumática e pedante em Charles Town (que depois viria a tornar-se Charleston, na Carolina do Sul, nos EUA), com um trabalho de CGI que complementa bem os cenários e navios práticos construídos para a série na Cidade do Cabo, na África do Sul, onde ela é filmada. O objetivo é fazer o espectador mergulhar nesse mundo de intrigas que, arrisco dizer, nunca antes foi explorado com essa riqueza de detalhes e realismo e cada elemento da produção contribui muito claramente para isso.

O final já permite que seu encerramento duas temporadas a frente seja vislumbrado. Não há muito para onde correr depois dos eventos apoteóticos do último episódio e será muito interessante ver como será o fim de New Providence e o estabelecimento da lenda do tesouro escondido do Capitão Flint. Black Sails é uma série que surpreenderá quem assistir e que deveria ter mais destaque nas premiações e nos fóruns de discussão internet afora.

Black Sails – 2ª Temporada (EUA, 24 de janeiro a 28 de março de 2015)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Steve Boyum, Clark Johnson, Stefan Schwartz, Alik Sakharov, Michael Nankin, Lukas Ettlin
Roteiro: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine, Michael Chernuchin, Brad Caleb Kane, Dan Shotz, Julie Siege, Aaron Helbing, Todd Helbing, Heather Bellson, Lisa Schultz Boyd, Mark Berzenski, Maria Melnik
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Zach McGowan, Toby Schmitz, Clara Paget, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Rupert Penry-Jones, Meganne Young, Nick Boraine, Tadhg Murphy, Angelique Pretorius
Duração: 500 min. aproximadamente (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.