Crítica | Black Sails – 4X01: XXIX

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estrelas 4

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Há spoilers.

A quarta e última temporada de Black Sails, série de piratas que mistura fatos reais em uma narrativa que funciona como prelúdio do clássico literário A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, começa com um episódio surpreendentemente curto (apenas 50 minutos, enquanto é comum a série ter episódios de uma hora) e com o maior salto temporal entre temporadas ou, pelo menos, o mais recheado de acontecimentos que apenas ouvimos falar, mas não vemos. Muito sinceramente, pareceu-me uma forma de encurtar e encerrar prematuramente a série que, apesar de excelente, jamais fez o sucesso que merecia ter feito. Mas antes acabar no auge do que ser diluída em intermináveis temporadas, não é mesmo?

Nesta passagem de tempo a partir da acachapante vitória de Flint contra os ingleses na ilha dos ex-escravos que encerrou a terceira temporada, muita coisa aconteceu: Billy solidificou sua liderança sobre os piratas revoltosos contra o controle britânico com ações de espionagem e ataques noturnos em Nassau e arredores organizadas em nome do mítico Long John Silver; o governador Woodes Rogers separou-se de sua esposa e casou-se com Eleanor Guthrie que, agora, para todos os efeitos externos, é mulher recatada e do lar; Rogers, no processo de separação, sofreu represália da ex-esposa, que usou sua influência para apertá-lo financeiramente por intermédio de seus credores; Silver e Madi consolidaram sua relação; a Coroa Britânica ordenou a retirada do contingente militar da ilha, no que foi desobedecida por um soldado vingativo (em relação à derrota para Flint) e seus seguidores, o que diminuiu o exército disponível à Rogers na ilha, ainda que os que ficaram tenham ódio no coração contra os piratas. É tanta coisa neste intervalo que o episódio em si perde um pouco de seu ritmo ao ter que explicar o novo status quo, ainda que o faça a conta gotas e não de uma vez só.

No entanto, para compensar, os primeiros minutos do episódio são tomados por uma das mais impressionantes cenas de batalha já colocadas nas telinhas. Exagero? Olha, sei que muitos dirão que há diversas outras séries que já colocaram gigantescos exércitos em frente às câmeras, com lutas homéricas e intermináveis repletas de efeitos especiais. E confesso que é verdade e, claro, Game of Thrones vem à mente imediatamente, isso só para falar de uma série bem recente. No entanto, mantenho minha afirmação na medida em que, aqui, o que vemos é o uso irretocável de navios em escala 1:1 sendo moídos em conflito armado, com tomadas viscerais de massacre humano por intermédio de uma lente que alia beleza à morte. Lukas Ettlin, que dirigiu o episódio, merece comenda pelas duas tomadas que enquadram o episódio: a inicial em um literal plongée com Silver afundando e a final em que vemos a mesma sequência só quem em contra-plongée, com o mar cristalino sendo manchado por sangue, mastros e velas. Assim como o final do episódio XXVIII, tratam-se de momentos que merecem aplausos efusivos.

E é curioso notar que toda essa pompa e circunstância é utilizada para a primeira grande derrota de Flint. Ao mesmo tempo, porém, é quase que um alívio ver o raivoso e temido capitão sofrer esse baque gigantesco, algo que só depois que acontece o espectador para para pensar e se lembra que ainda não havia ocorrido de verdade. Sim, ele já sofrera baixas e quase morrera de fome e sede quando seu navio ficou à deriva depois que ele enfrentou a tempestade (literal e psicológica) na temporada anterior, mas, aqui, é a primeira vez que vemos uma fragorosa derrocada que tem o potencial de alterar a dinâmica de comando, finalmente colocando Silver – e sua lenda, cortesia de Billy – acima de Flint diante de seus homens.

Vale notar que é justamente este o conflito principal que se instala – algo mencionado por Flint logo no começo, que diz recear a fragilidade da aliança formada -, mesmo com a ausência de Silver por tempo significativo, algo que talvez até continue por um tempo, apesar de sua volta bem ao fechamento do episódio. A liderança estratégica de Flint é importante, sabemos, mas ele precisará mais uma vez reconquistar algum grau de confiança perante seus homens, algo que provavelmente foi completamente corroído pela derrota diante de um governador Rogers que se mostra um brilhante estrategista, capaz de rivalizar com o lendário capitão, ainda que ele tenha potencialmente errado na forma como tratou Max.

Aliás, outro lendário capitão – o Barba Negra – fica de fora dessa derrota. Conseguindo evitar que seu navio fosse encalhado, ele foge para atrair a perseguição de fragatas britânicas que não têm chance contra sua fúria. Mas Teach não compartilha dos ideais de Flint. Nunca compartilhou, na verdade, e sua presença na aliança se deveu apenas ao amor paternal que sentia e ainda sente pelo heroico e agora falecido capitão Charles Vane. Muito provavelmente caberá ao esperto Jack Rackham, que nutre um sentimento de dívida à memória de Vane (não compartilhado por Anne Bonny), convencer Teach a mais uma vez unir-se à Flint.

Mesmo considerando o enorme salto temporal entre as temporadas, o capítulo de abertura da quarta temporada até que consegue colocar tudo nos eixos quando os créditos finais começam a rolar. As sequências expositivas necessárias para se estabelecer o novo status quo acabam diluídas entre a dúvida sobre a morte de Silver, a fuga de Teach e o conflito entre Flint e Billy, além da incrível batalha de abertura. E, assim, o episódio marca positivamente o que promete ser o espetacular começo do fim de Black Sails.

Black Sails – 4X01: XXIX (EUA, 29 de janeiro de 2017)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Lukas Ettlin
Roteiro: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Toby Schmitz, Clara Paget, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Rupert Penry-Jones, Meganne Young, Nick Boraine, Tadhg Murphy, Angelique Pretorius, Anna-Louise Plowman, Andrian Mazive, Moshidi Motshegwa, Jason Cope, Jenna Saras, Ray Stevenson, Luke Roberts, Zethu Dlomo
Duração: 50 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.