Crítica | Black Sails – 4X04: XXXII

estrelas 5,0

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Há spoilers.

Antes de adentrar nos detalhes do episódio em si, deixe-me constatar algo que é raríssimo de se ver dessa maneira em séries de TV: o detalhado e crível desenvolvimento dos personagens. No 32º capítulo da série, temos a oportunidade de, por diversas vezes, testemunhar o quanto cada um deles amadureceu em arcos críveis e bem estruturados em uma prova do plano de longo prazo dos showrunners Jonathan E. Steinberg e Robert Levine.

E todos os exemplos desses crescimentos se dão, aqui, por intermédio de diálogos de duplas de personagens. Primeiro, há a melhor conversa do episódio entre Long John Silver e Billy Bones. O momento acontece logo depois que Billy volta para a “central de comando” e revela que Max, procurada por Eleanor Guthrie, está em seu poder. Silver e Bones estão fisicamente irreconhecíveis – barbados, sujos, com semblantes definitivamente pesarosos – e os dois travam uma conversa decisiva que faz referências às temporadas anteriores e a tudo que eles passaram juntos. Aquele Billy inocente que foi jogado caiu no mar e sobreviveu por um milagre não existe mais. Em seu lugar, há um homem rancoroso, inteligente, um líder de um pequeno exército que odeia o Capitão Flint, mas sabe que precisa dele para a vitória em Nassau. Por outro lado, o John Silver de outrora, um espertalhão aproveitador nem mais ousa aparecer por debaixo do semblante de sua versão sem uma das pernas. Agora, ele é um homem apaixonado. Apaixonado por Madi, por Nassau e pela causa dos piratas. O diálogo entre os dois é o diálogo de dois estrategistas levando em consideração cada elemento – externo e interno – que estão ao seu dispor. E, claro, a desconfiança completa de Billy em relação a Flint e a lealdade relutante de Silver a Flint são os principais elementos que prometem separar essa tríplice aliança.

Mas a coisa não para por aí. O mesmo pode ser dito do diálogo entre Silver e Max, com a surpreendente implicação de que Thomas está vivo, entre Silver e Flint, com o primeiro usando essa meia-informação como forma de tirar algum tipo de reação mais radical do segundo, os breves e cúmplices sussurros entre Jack Rackham e Anne Bonny, a conversa no estilo “eu te disse” entre Eleanor e Max e, finalmente, a oferta de Eleanor a Flint que praticamente resume toda a complicada relação entre Inglaterra e piratas e entre os dois desde o primeiro episódio da série. Poucas séries de gênero empregam tempo nessa abordagem mais carregada de diálogos e em menos quantidade ainda são aquelas que conseguem inserí-los de forma verdadeiramente orgânica na narrativa. O trabalho de Steinberg e Levine merece, portanto, todos os elogios.

Mas é com a última conversa que listei que efetivamente começarei a análise do episódio, depois desse começo mais, digamos, laudatório. Está muito claro – sempre esteve, para dizer a verdade – que tanto Flint quanto Eleanor estão dispostos a fazer de tudo pelo bem de Nassau. Antes juntos, agora separados, seus objetivos são praticamente idênticos, variando aqui e ali dependendo das circunstâncias. Havia uma relação simbiótica entre os dois que foi destruída depois da prisão de Eleanor e sua entrega ao ideal do governador Rogers (que, lembrando, era o mesmo de Thomas e Flint), mas que permanecia nas entrelinhas. Com os dois em lados opostos da grade no calabouço do forte, isso ficou evidente sem que nenhum dos dois sequer precisasse abrir a boca. Eles se entendem e, mais do que isso, sabem que a solução pacífica é a melhor solução e ambos realmente almejam isso. Nem mesmo Long John Silver, diante da reação que vemos dele, consegue compreender a cruzada de Flint e Eleanor nesse nível.

E, com isso, é interessante ver o movimento circular que a série faz, refazendo o caminho que pavimentou desde o primeiro episódio da primeira temporada. A reintrodução do conceito de união para salvar Nassau é bem-vinda, ainda que, como Billy bem coloca para Silver, isso provavelmente é mais uma “tempestade” para aonde caminha Flint em sua sana auto-destrutiva. Será interessantíssimo ver como isso será abordado e como essa mínima esperança de Thomas estar vivo será tratada. Teremos um reencontro de Flint com ele ou seria um final feliz demais, considerando as nuvens negras que estão no horizonte? Será que isso realmente funcionaria, já que a informação ainda é vaga e distante, até mesmo razoavelmente jogada na conversa de Silver com Max?

Em termos de final feliz – se houver algum – fica a torcida por Jack Rackham e Anne Bonny. Ambos personagens baseados na vida real (Rackham era mais conhecido como Calico Jack), a relação entre eles é uma das mais interessantes e até folclóricas de toda a série, ganhando uma bela construção por meio de atuações memoráveis de Toby Schmitz e Clara Paget que, assim como Luke Arnold e Zach McGowan, começaram de forma rasa e ganharam camadas e mais camadas de profundidade. Como a série mistura ficção com realidade de forma a criar seu próprio “pirataverso”, não seria completamente absurdo imaginar os dois, com identidades novas, vivendo nos Estados Unidos juntos e felizes em algum canto. Ou será que é só ilusão minha e Anne morreu nesse episódio?

Aliás, que sequência brutal foi aquela na corveta com aquele gigante martelando a cabeça dos piratas? Pode não ter sido algo tão estarrecedor como a tortura do Barba Negra no episódio anterior, mas certamente foi uma das sequências de ação mais bem coreografadas e fotografadas de toda a série. As lutas foram de extrema violência em que os golpes são realmente sentidos tanto por que os recebe, quanto por quem os dá. Além disso, o confinamento do cenário fez com que o diretor Marc Jobst usasse de artifícios interessantíssimos, colocando a câmera literalmente no meio da luta, fazendo-a por vezes participar ativamente do combate com discretas substituições de um dos lados pela câmera em si e pelo expediente de “sujar” a lente com sangue. O resultado é claustrofóbico e exasperante, especialmente quando Anne finalmente entra na luta e, subvertendo nossas expectativas, no lugar de logo mostrar-se superior, é moída pelo soldado gigante até virar o jogo da forma mais violenta possível.

Em outras palavras, Black Sails continua com um vigor inacreditável, com um episódio conseguindo superar o anterior. Este agora foi simplesmente uma obra-prima e nem mesmo chegamos na metade da temporada!

Black Sails – 4X04: XXXII (EUA, 19 de fevereiro de 2017)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Marc Jobst
Roteiro: Peter Ocko, Michael Russell Gunn
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Toby Schmitz, Clara Paget, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Rupert Penry-Jones, Meganne Young, Nick Boraine, Tadhg Murphy, Angelique Pretorius, Anna-Louise Plowman, Andrian Mazive, Moshidi Motshegwa, Jason Cope, Jenna Saras, Ray Stevenson, Luke Roberts, Zethu Dlomo, David Wilmot, Chris Larkin
Duração: 55 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.