Crítica | Black Sails – 4X05: XXXIII

estrelas 5,0

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Há spoilers.

Traições que levam a reviravoltas. Esse é o mote de XXXIII, o episódio que marca a metade da última temporada de Black Sails, série que nunca recebeu destaque, mas que é uma das melhores hoje em andamento, quase como um tesouro escondido.

A decisão de momento do Capitão Flint em seu entregar para Eleanor Guthrie como parte do plano dela de pacificar Nassau sem derramamento de sangue foi algo que certamente fez muitos espectadores balançarem a cabeça incrédulos. Como um homem tão inteligente e que pensa estrategicamente como Flint se deixaria levar por algo tão obviamente falho como algo assim? Mas, como mencionei na crítica anterior, ele e Eleanor, cada um de sua própria maneira, são pessoas com o objetivo comum de proteger aquele lugar e eles sempre se entenderam, apesar de suas diferenças. Naquela túnel, com uma porta de ferro dividindo os piratas do Império Britânico e sem sequer trocar uma palavra com Long John Silver, Flint fez sua aposta, jogando todas as fichas no cenário proposto por Eleanor.

E Eleanor estava sendo sincera, ainda que inocente. Seu jogo maior estava na certeza de que o governador Woodes Rogers, confiaria cegamente nela e esperaria em Port Royal. E, ainda que Rogers realmente confie em sua esposa, nós já havíamos visto que sua raiva dos piratas é algo maior ainda e que ele não retrocederia tão facilmente. A primeira traição do episódio acontece no momento em que ele traça um plano para unir-se momentaneamente com a frota espanhola em Havana para eliminar completa e literalmente os piratas da existência. Aquele final com os navios aproximando-se de Nassau é o prenúncio de um trágico fim para Flint, Silver e companhia.

Vale, aqui, porém, abrir um parêntese para abordar o uso da computação gráfica na série. Sempre usado de forma comedida, mais como uma forma de amplificar o detalhado trabalho de maquetes em tamanho real, aqui vemos seu uso para recriar Havana em sua glória do passado como uma pintura matte de fundo, muito utilizado no cinema nas décadas de 70 a 90, mas que perderam sua função quase que totalmente hoje em dia. O CGI quase old school empregado no episódio é uma bela forma de continuar a tradição da série em ser minimalista nesse aspecto, sem jamais depender da computação gráfica para contar sua história feita por homens, mulheres e lendas. Fecha o parêntese.

Feito esse breve desvio, é importar abordar, agora, a segunda traição do episódio, uma que era realmente inevitável e que mostra a influência da lenda de Long John Silver sobre os piratas, lenda essa criada por Billy Bones, ele mesmo tornando-se no processo, um líder em franca oposição a Flint. Essa oposição chega ao ápice aqui, com o plano de Billy de usar o tesouro para atrair Eleanor e Flint para fora do forte e acabar com eles. Em mais uma daquelas sensacionais conversas que sempre marcaram a série, Silver se vê e revela muito claramente a Billy o que Long John Silver significa: um instrumento para Billy consolidar seu poder. Com isso, Silver tem que tomar uma decisão, decisão essa que o divide em dois. Que amigo trair? Essa resposta nos é dada pelo fiel Israel Hands que sabe que o Rei dos Piratas pode fazer tudo, menos mostrar que está em dúvida, pelo menos não diante da turba que precisa aprender a controlar.

A sequência em que Billy descobre que foi traído é muito bem construída. Aos poucos, por intermédio da revelação a conta-gotas por seu amigo e quem ficou encarregado de matá-lo, aprendemos que Silver usou de todo o poder do Rei Pirata inventado pelo próprio Billy para colocar todos contra ele. Descobrimos que houve mais uma passagem de tempo ali e a decisão do roteiro de Jonathan E. Steinberg e Dan Shotz em não mostrar o processo de convencimento foi muito feliz, mantendo vivo o suspense e evitando que mais uma vez a lábia de Silver ficasse em evidência, já que isso é algo sobejamente claro ao espectador a essa altura do campeonato.

Não satisfeito em lidar com as duas grandes traições, o roteiro ainda nos dá uma rasteira, subvertendo as expectativas de que o tesouro chegara à ilha. Na verdade, a nau vista ao horizonte era a de Jack Rackham finalmente voltando para ajudar na rebelião e encontrando um Flint algemado na praia. O diálogo firme entre os dois, com Rackham revelando do que Woodes Rogers é capaz, é entrecortado por imagens no forte, com Max descobrindo a frota espanhola chegando, em uma brilhante convergência narrativa. E o mais angustiante é que, nesse processo todo, não sabemos ainda o que aconteceu a Anne Bonny. Está viva? Morta? Moribunda?

Um elemento técnico de particular importância no episódio foi a fotografia. Aqui, o trabalho das tomadas interiores foi carregada de fortes contrastes com o evidente condão de expressar dualidade. As composições, porém, lembraram muito a de pinturas renascentistas desde a tomada inicial de Silver saindo do túnel, passando por seu momento de dúvida em seu “escritório” e o tenso diálogo entre Rogers e o governador de Cuba. Os tons escuros ganharam quase que solidez com a fotografia de alto contraste, deixando o lado “claro” quase que esperando ser escurecido completamente em uma espécie de batalha psicológica. As decisões na série têm sido cada vez mais finalistas e, aqui, não foi diferente, pois os lados tomados e os laços feitos certamente definirão os últimos cinco capítulos desse imbatível épico dos Sete Mares.

Em um importantíssimo episódio, Black Sails rearruma suas peças para provavelmente uma última investida unindo os Impérios Britânico e Espanhol, piratas e ex-escravos em auto-destruição mútua. Será um fim de encher os olhos (inclusive de lágrimas…).

Black Sails – 4X05: XXXIII (EUA, 26 de fevereiro de 2017)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Alik Sakharov
Roteiro: Jonathan E. Steinberg, Dan Shotz
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Toby Schmitz, Clara Paget, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Rupert Penry-Jones, Meganne Young, Nick Boraine, Tadhg Murphy, Angelique Pretorius, Anna-Louise Plowman, Andrian Mazive, Moshidi Motshegwa, Jason Cope, Jenna Saras, Ray Stevenson, Luke Roberts, Zethu Dlomo, David Wilmot, Chris Larkin
Duração: 58 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.