Crítica | Black Sails – 4X07: XXXV

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estrelas 4

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Há spoilers.

O sétimo episódio da última temporada de Black Sails foi um episódio de calmaria que faz o intervalo entre o massacre que veio antes e a batalha final por Nassau que virá em breve. E, no meio de muita informação, um singelo momento destacou-se para mim mais do que os outros e pedirei vênia aos meus leitores para começar com ele.

Lembram-se quando Jack Rackham está sentado na ante-sala do avô de Eleanor Guthrie, nervoso para apresentar o plano de Max a ele, basicamente a última esperança de virar a maré a favor da causa pirata? Pois bem. Não demora e uma bela jovem, certamente filha de algum aristocrata da congelante Filadélfia, aproxima-se dele, curiosa, indagando se é pirata. Há fascinação nos olhos dela quando a resposta é hesitantemente positiva. Mas, quando ela pergunta se Jack (o famoso Calico Jack, da vida real) conhece Edward Teach (o Barba Negra da vida real), a fascinação passa para o calejado pirata. A pergunta seguinte – se ele conhece Jack Rackham – quebra de vez o gelo e há brilho nos olhos daquele homem. Ele é famoso! Ele é uma lenda! Ele é objeto de uma estranha admiração por uma jovem que nunca viu!

É um belo momento, sem dúvida, algo que, arriscaria dizer, não deve ser completamente divorciado do que poderia ter realmente acontecido nesse passado fascinante. Se, hoje, na era da Internet, alguns poucos conseguem virar lendas enquanto ainda vivos, imaginem no século XVIII? Mas, melhor ainda, é quando toda essa pompa e esse, digamos assim, peito estufado de orgulho de Jack é desinflado completamente quando a jovem pergunta sobre Charles Vane, não aceitando sua explicação “chata” sobre o homem que fora seu melhor amigo, preferindo socorrer-se do que lera em jornais sobre a maldade, violência e até canibalismo dele. Aqui, é a realidade contrapondo-se à percepção da realidade e ao que nós mesmos, em nosso dia-a-dia, escolhemos aceitar sobre alguma coisa que nós é apresentada. Pensem comigo e vejam como o que o roteiro de Robert Levine e Brad Caleb Kane é incrivelmente atual. Quantas vezes nós paramos para olhar os dois lados de uma mesma questão? Quantas vezes deixamos nossa parcialidade de lado para realmente ouvir o lado de lá atentamente, com a intenção de absorver os comentários, os ensinamentos, digeri-los e aí sim manifestar uma opinião? Isso é raro e é mais raro ainda hoje em dia em uma época em que opiniões sobre os mais diversos assuntos são regurgitadas a cada minuto sem qualquer filtro e nós cada vez mais perdemos nossa capacidade de discernimento no processo.

Sei que estou extrapolando a partir de um singelo e aparentemente desimportante momento em um episódio de série de piratas, mas é que essa fugaz sequência é uma daquelas que realmente me faz ter certeza de que Black Sails é muito mais  do que a batalha por Nassau, vinganças pessoais ou um prelúdio para A Ilha do Tesouro. A cada novo episódio, solidifica-se a certeza de um trabalho fora de série (sem trocadilho).

Mas que tal efetivamente mergulharmos no episódio?

Como mencionei, ele representa o intervalo entre dois enormes conflitos. O tabuleiro é limpo mais uma vez e as peças recolocadas em suas posições finais. A Espanha é carta fora do baralho. Billy Bones traiu o Capitão Flint e Long John Silver. Madi está viva e sendo usada como moeda de troca e como uma cunha para separar os dois piratas principais. Rackham consegue a tão esperada ajuda da família de Eleanor Guthrie, mais precisamente da outra mulher forte de lá, sua avó. Mas a ajuda vem com um preço e ele é alto: Jack tem que matar Flint, que é percebido como alguém que dificultará a prometida relação comercial entre os Guthrie e Nassau.

Todas as peças são lógicas e funcionam bem nessa última investida da série. Os interesses de todos, agora, deixaram de estar completamente alinhados. Eles tangenciam em muitos pontos do lado dos pretensos libertadores de Nassau, mas o conflito entre eles é evidente, algo que Israel Hands – mostrando-se um hábil manipulador – não se furta de dizer a Silver. O mesmo pode ser dito sobre a aliança entre Billy Bones e o governador Rogers. Não há confiança ali, apenas conveniência e o lado sombrio de Billy (herança de Flint?) sobrepôs-se agora, mas ele, no fundo, ainda é um pirata.

Mas vamos falar logo do elefante na loja de cristais: Madi está viva. Sim, eu fui enganado ao achar, nos comentários ao episódio anterior, que ela havia mesmo morrido. Fui ingênuo. Na verdade, ingênuo não. Fui confiante que Black Sails, por ser o que é, fugiria da clássica regra do “sem corpo, sem morte”. E, se colocarem uma arma em minha cabeça, direi que definitivamente não gostei desse artifício. Havia achado que aquela morte banal da personagem tinha sido corajosa e rara de se ver. Uma morte comum para uma personagem tão importante é, afinal de contas, tão difícil de achar quanto político honesto e confesso que havia feito as pazes com isso e admirado o caminho que foi seguido. No entanto, o “sem corpo, sem morte” prevaleceu mais uma vez e meu consolo repousa no uso que o roteiro faz de Madi, como um instrumento para criar cizânia entre Flint e Silver, homens que têm a mais plena consciência que, juntos, conseguem fazer qualquer coisa.

Voltando por um momento a Jack Rackham, foi quase surreal ver “frio” novamente na série, algo que só havia aparecido antes nos flashbacks de Flint em Londres, na segunda temporada. Toda a recriação da Filadélfia foi fascinante e detalhada, com um exemplar trabalho de desenho de produção com computação gráfica cirúrgica fazendo as vezes de pinturas matte para ampliar cenários e dar senso de escala, especialmente se considerarmos que tudo foi feito na Cidade do Cabo, na África do Sul, em pleno verão. A fotografia acinzentada, quase que em preto e branco, tirou a vida do segmento de forma inteligente evocando o frio sem precisar de artifícios como neve caindo. E é particularmente interessante como as cores voltam gradativamente na medida em que “vovó Guthrie” passa a ouvir Jack e Max, com os planos mais abertos sendo substituídos por furtivos planos mais fechados. Uma missão impossível é cumprida, somente para que outra comece. O que será disso, dificilmente adivinharemos, mas o fim da série avizinha-se e nós sabemos qual foi o destino dos piratas caribenhos no mundo, não é mesmo?

Repararam também como, mais uma vez, tivemos um episódio carregado de diálogos expositivos como foi o caso de XXXII? Mas notaram como, novamente, esses diversos textos não pesaram tanto? O trabalho de roteiro da série é espetacular e os showrunners sabem exatamente quando carregar de um lado para poder desenvolver de outro. A pausa para recuperar o fôlego que significou o episódio precisava de explicações, precisava de tempo para melancolia e luto (a sequência com Woodes Rogers foi belíssima e ao mesmo tempo assustadora) e precisava de planos de ação dos dois lados. Ao transitar de um núcleo a outro de maneira parcimoniosa e equânime, o roteiro não cansa em momento algum, com Lukas Ettlin, na direção, podendo nos brindar com uma grande variedade de cenários – praticamente todos os da série mais Filadélfia (inesquecíveis as várias estocadas de Jack sobre os impostos ao chegar no porto “civilizado”) – e um pouco de cada um dos principais do elenco, sempre com abordagens próprias e marcantes.

Os piratas românticos de outrora podem não passar de lendas hoje em dia, mas Black Sails sabe manter o pé fincado em sua realidade que mescla com destreza fatos reais e ficção. A batalha final está próxima e ela promete. E mal posso esperar.

Ps.: Sentiram uma fisgada na barriga ao acabar o episódio? Pois é, eu também… É o primeiro sintoma da crise de abstinência que sentiremos com o fim dessa magnífica empreitada televisiva da Starz. Só restam mais três episódios…

Black Sails – 4X07: XXXV (EUA, 12 de março de 2017)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Lukas Ettlin
Roteiro: Robert Levine, Brad Caleb Kane
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Toby Schmitz, Clara Paget, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Rupert Penry-Jones, Meganne Young, Nick Boraine, Tadhg Murphy, Angelique Pretorius, Anna-Louise Plowman, Andrian Mazive, Moshidi Motshegwa, Jason Cope, Jenna Saras, Ray Stevenson, Luke Roberts, Zethu Dlomo, David Wilmot, Chris Larkin
Duração: 56 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.