Crítica | Black Sails – 4X08: XXXVI

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estrelas 5,0

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Há spoilers.

O 36º e antepenúltimo episódio de Black Sails reafirma sensacionalmente algo que já havia ficado sobejamente claro ao longo da jornada por que nos leva Jonathan E. Steinberg e Robert Levine: apesar de estarmos diante de uma série sobre piratas que, junto com os Vikings, são os arquétipos dos homens másculos, violentos e temidos, a série contém as mais fortes, completas e bem desenvolvidas personagens femininas da TV em muitos anos. É perfeitamente possível pontuar cada grande feito de cada temporada como sendo de alguma forma liderado, manipulado, orquestrado ou executado por uma mulher, cada qual de sua forma característica e inesquecível.

Claro que o nome que logo vem à cabeça quando se fala em uma mulher em Black Sails é o de Eleanor Guthrie, que foi brindada com um arco praticamente perfeito de ascensão e queda, mas a série vai muito além dela e isso já há algum tempo. Anne Bonny, calada, soturna e ameaçadora no início, mostra-se como uma mulher fiel a seus princípios e dividida entre o amor que sente por Jack Rackham (que é mais parecido com o amor fraternal do que qualquer outro) e Max, capaz de impressionantes atos de violência e coragem para conseguir seus objetivos. Max, a bela ex-escravaa e ex-prostituta, é quase um Lady Macbeth imiscuindo-se nos negócios de Nassau, progredindo de forma meteórica com o uso quase egoísta de informações e de manipulação e tornando-se a verdadeira voz de comando do lugar, agora encetando um improvável acordo com a aristocracia da Filadélfia, algo inimaginável no início da série. Madi, justificadamente sumida neste e no episódio anterior, é uma força da natureza, capaz de liderar um exército com apenas um olhar, mantendo-se sempre firme a seus ideais. E, finalmente, a partir desta magnífica 4ª temporada, temos a Sra. Marion Guthrie, vivida tão bem por Harriet Walter que podemos ver traços de sua neta Eleanor em seu olhar, em sua forma de andar e, claro, em sua maneira firme e inteligente de lidar com negócios não normalmente discutidos por mulheres no século XVIII.

Nesse diapasão, muito do episódio é focado na dinâmica entre Max, Anne e a Sra. Guthrie, com as duas primeiras juntas apenas por conveniência, já que Anne ainda considera imperdoável a traição de Max que, ainda que indiretamente, a levou ao estado em que se encontra, dentre outras coisas. Mas há uma tensão clara entre as duas, uma vontade de deixar a razão de lado e falar apenas com o coração, ainda que seja necessária a intervenção de outra ex-prostituta – leal a Max – para que Anne enxergue a verdade. Mas, convenhamos, Max nunca deu provas absolutas de que é alguém em quem se pode confiar completamente. Muito ao contrário, ela, junto com o Capitão Flint, são os dois personagens capazes de vender os dentes de ouro de suas respectivas mães para alcançar seus objetivos. Mas a proposta da Sra. Guthrie muda esse cenário. Ela quer que Max controle Nassau assim como a avó de Eleanor controla os negócios escusos do marido e, para isso, precisa que Max tenha um casamento de fachada com um nobre local, que seria o governador-marionete de Providence Island.

E é muito interessante como o roteiro de Tyler Van Patten se utiliza de textos expositivos para isso, algo que já se tornou uma completamente improvável marca registrada da série, que troca muito da “mera ação de capa espada” por tensão construída com diálogos. A lógica da Sra. Guthrie é infalível desde o teste dela sobre os conhecimentos de Max sobre a presença de piratas na boca da baía para justificar os seguros mais altos, até a necessidade efetiva do casamento arranjado. Somos deixados no suspense sobre a aceitação ou não por Max, mas com aquele “viés” de que sim, ela aceitará, pois isso lhe daria uma posição de controle sem precedentes e Max não é daquelas que deixariam uma oportunidade de ouro dessas passar. No entanto, é justamente isso que ela faz e a razão para isso não é exclusivamente o que ela sente por Anne, ainda que, claro, esse seja um elemento importante. Se pararmos para pensar, apesar de não termos visto o sofrimento de Max quando ela era escrava, podemos facilmente imaginar, especialmente porque vimos ela passar maus bocados como prostituta antes de ascender em Nassau. Portanto, a recusa em amarrar-se a um homem – por conveniência ou não – é algo impensável para ela. Seria uma nova forma de prisão e ela não quer jamais submeter-se a isso novamente. Mesmo quase colocando tudo a perder – pois acho que a Sra. Guthrie continuará interessada no negócio e arrumará outra saída – a rejeição está em perfeita consonância com o que sabemos sobre Max, com o elemento novo de ela finalmente entregar-se a Anne de coração (e não, não acho que foi fingimento ali de forma alguma).

A manutenção da ação também na Filadélfia dá a oportunidade aos showrunners de continuar a deslumbrar seu público com os novos figurinos e cenários que perfeitamente reconstroem uma das mais importantes cidades americanas da época e isso em pleno estúdio na África do Sul, debaixo de um verão inclemente. A variedade dos novos cenários – o porto, as ruas, o interior rococó do salão de festa – contribui, nessa estirada final, para mostrar o investimento da Starz em sua série mesmo com o encerramento próximo. Afinal, seria da mesma forma possível lidar com as tomadas interiores apenas, deixando as várias externas de fora, mas não é isso que vemos aqui. E a computação gráfica, mais uma vez, ganha destaque como complemento de cenários, ampliando o horizonte da cidade em mais um trabalho eficiente da produção.

Mas há mais, muito mais no episódio.

O conflito envolvendo Woodes Rogers e Billy Bones de um lado e Flint e Silver de outro se agrava, com o plano de Flint sendo facilmente frustrado e o plano secreto de Silver, então, entrando repentinamente na “programação”. A tensão estabelecida fantasticamente com tomadas em planos gerais bem abertos, a partir do ponto de vista do navio de Flint para o navio de Rogers – sem o som dos tiros – foi um toque de mestre da prolífica diretora de TV Uta Briesewitz, que estreia com o pé direito em Black Sails. O roteiro ainda consegue resgatar a memória do Sr. Gates (Mark Ryan) lá da primeira temporada, costurando seu antigo diário como fonte da localização da mítica (e assustadora) Isla del Esqueleto ou Ilha do Esqueleto, mais conhecida, na literatura, como a própria Iha do Tesouro, aquela de Robert Louis Stevenson no livro homônimo que a série serve de prelúdio.

Com isso, temos uma jogada de mestre dos showrunners. A necessidade de segredo para a transação entre Rogers e os piratas leva ao uso da ilha que, por sua vez, não só introduz o aspecto quase fantasioso e lendário dela sendo contado como história para assustar crianças por Flint, como reduz significativamente o escopo da ação final da série. No lugar de um grande combate em Nassau, algo que repetiria mecânica já usada mais de uma vez, temos algo mais intimista, com apenas dois navios (três em breve, como o de Jack Rackham) e uma mistura de ganância, obsessão, vingança e traições. Não é, de forma alguma, o prenúncio de um final “pequeno”. Muito ao contrário, ao fugir da estrutura pré-estabelecida, Levine e Steinberg coloca o espectador em terra desconhecida, onde as regras do jogo não estão claras. Se Billy Bones pode ainda ser um agente duplo, há ainda mais possibilidade de tudo o que vimos ao final do episódio ser teatro entre Flint e Silver.

Afinal, os diversos diálogos que preparam o clímax têm um elemento em comum e que já vem sendo repetido com certa constância nessa temporada: juntos, os dois conseguem praticamente qualquer coisa. Portanto, essa cisma entre eles, desejada por Bones e Rogers, tem potencial para ser apenas uma forma de fazer os dois caírem na armadilha dos piratas. Israel Hands genuinamente desconfia de Flint, mas é possível que ele ou também esteja no jogo dos dois ou que ele seja um peão usado por Silver para tornar mais verdadeira e legítima essa caçada a Flint que, agora, tratará de esconder o tesouro. Por outro lado, é também perfeitamente possível que as ações que vimos tenham que ser interpretadas por seu valor de face, o que realmente levaria à separação inconciliável de Flint e Silver. As possibilidades estão completamente abertas para os dois episódios finais e cabe a nós fazer as apostas.

O cenário do embate final já foi escolhido. Mas as apostas ainda são incertas e fluidas. Se eu tivesse que realmente colocar dinheiro em alguém, apostaria minhas fichas não nos piratas, não em Woodes Rogers, mas em Max…

Black Sails – 4X08: XXXVI (EUA, 19 de março de 2017)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Uta Briesewitz
Roteiro: Tyler Van Patten (baseado em história de Jenniffer Castillo e Jillian Molin)
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Toby Schmitz, Clara Paget, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Rupert Penry-Jones, Meganne Young, Nick Boraine, Tadhg Murphy, Angelique Pretorius, Anna-Louise Plowman, Andrian Mazive, Moshidi Motshegwa, Jason Cope, Jenna Saras, Ray Stevenson, Luke Roberts, Zethu Dlomo, David Wilmot, Chris Larkin, Harriet Walter
Duração: 56 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.