Crítica | Black Sails – 4X09: XXXVII

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estrelas 5,0

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Há spoilers.

Quase que integralmente passado na Ilha do Esqueleto e focado na amizade conflituosa entre o Capitão Flint e Long John Silver, o penúltimo episódio de Black Sails é, mais uma vez, uma aula de desenvolvimento de personagens. Ao mesmo tempo, é um capítulo compassado, violento, tenso, mesmo para quem já leu A Ilha  do Tesouro – tem alguém que não leu? – e se lembra do destino da dupla.

Como poucas vezes durante a série, o roteiro de Jonathan E. Steinberg (um dos showrunners) e Dan Shotz (produtor executivo e co-autor de três outros roteiros com Levine e um solo) faz uso de flashback para pontuar a construção do relacionamento entre Flint e Silver. Somos levados para algumas semanas antes do ataque que marca o primeiro episódio desta temporada, quando Flint decide aperfeiçoar o manejo da espada por Silver, especialmente sem uma perna, o que ajuda a explicar a destreza do personagem com a muleta e até sem ela na obra de Robert Louis Stevenson. Usando uma fotografia azulada que esmaece as demais cores, o diretor Steve Boyum dá relevo natural à relação dos dois sendo fortalecida naquele momento, com o passado de Silver sendo puxado por Flint como uma moeda de troca, uma espécie de preço pela confiança irrestrita que um deve depositar no outro, mesmo que pouco descubramos sobre ele na verdade.

E, com esse flashback entremeando todo episódio, o choque com o conflito potencialmente mortal entre os dois se faz sentir. Não houve, assim, qualquer truque ou plano ao final do episódio anterior. Flint realmente furtara o baú do tesouro sem conhecimento de Silver e planejava escondê-lo de Woodes Rogers. Verdade seja dita, porém, o plano dele era tão falho quanto o plano de Silver, pois a fórmula correta é provavelmente entre os dois extremos. Esconder ou entregar todas as pérolas ao governador não parecia algo factível, pois dependia fortemente da mais completa honestidade de intenções de Rogers, um homem que, sabemos muito bem, não merece essa confiança toda e já provou do que é capaz ao unir-se à frota espanhola em Havana para destruir Nassau.

A tensão é crescente ao longo de todo o episódio, especialmente na perseguição de Silver, Israel Hands e outros cinco homens a Flint. São diversos embates seguidos, alguns mais rápidos, outros mais demorados (um deles com direito a uma katana!), culminando na espetacular sequência em que, depois de derrotar Hands com surpreendente eficiência, Flint tenta mais uma vez convencer Silver de que ele está certo, somente para ver o amigo desistir dessa amizade e partir para o ataque.

Mas reparem como os flashbacks são importantes para já nos dar o resultado dessa luta sem que precisássemos efetivamente ver seu final. Em todo o treinamento de Silver, o máximo que ele conseguiu foi evitar o golpe fatal de Flint. Assim, em circunstância alguma o astucioso pirata ganharia um duelo com o temido capitão e ele sabia disso, seguindo adiante mesmo assim. No entanto, usei mais acima a palavra “amizade” e temos a prova final dela, por parte de Flint, quando ele mata o coitado do Dooley para salvar Silver. Certamente alguém poderia argumentar que Flint assim agiu por precisar de Silver, mas tenho para mim que há algo mais ali, uma genuína amizade, uma verdadeira parceria que quase cai totalmente por terra, sendo salva (ao menos parcialmente e pelo momento) pela atitude traiçoeira de Rogers em chacinar os piratas a sangue frio.

As únicas duas sequências não relacionadas diretamente com o conflito entre Flint e Silver são protagonizadas por Rogers e Rackham. No caso de Rogers, seu espetacular diálogo com Madi, tendo o fantasma desfocado de Eleanor como uma enervante participante, com direito ao “tic, tic, tic” das agulhas de tricô, foi como ver um homem ser empurrado para a beirada do abismo. Tendo que encarar uma Madi fria e direta que deixa às escâncaras sua culpa pelas mortes de sua amada e de seu filho nascituro, Rogers quebra completamente e precipita a ação impensada que muito claramente levará à vingança do quarteto de piratas remanescente, sendo que três deles os mais duros ossos de roer da série toda (ok, juntamente com Vane e Teach).

A sequência com Jack Rackham foi de certa forma poética e profética. Sendo guiado por um pirata da velha guarda até a Ilha do Esqueleto, os dois conversam e o idoso ex-bucaneiro vê em Rackham o futuro de uma “profissão” que ele sabe está morrendo. De certa forma, o que vemos, aqui, ecoa e espelha o outro fenomenal diálogo que Rackham tem com a jovem aristocrata no episódio XXXV. Se os piratas são lendas em sua própria época, Rackham e seus pares modernos conseguem ser também admirados pela geração anterior. Isso dá esperanças a Calico Jack da correção de sua missão e do que ele agora planeja para Nassau juntamente com a Sra. Guthrie, Max e Anne, que coletivamente parecem representar o futuro da pirataria. Aliás, falando nas três mulheres, considerando que grande parte da narrativa do episódio anterior caiu em seus respectivos colos, foi uma escolha acertada do roteiro deixá-las de fora deste episódio que precisava de foco para que permitisse a construção da tensão entre Flint e Silver.

Estamos muito perto do fim. Só há quatro piratas vivos se considerarmos que Rackham ou não chegará ou demorará a ancorar na Ilha do Tesouro. Todo o desenvolvimento de personagens já chegou ao seu ponto mais alto e, agora, só resta o conflito final com a Coroa Britânica, que promete ser brutal e extremamente satisfatório (para nós, pelo menos), encaixando-se como uma luva na obra imortal de Stevenson.

Black Sails – 4X09: XXXVII (EUA, 26 de março de 2017)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Steve Boyum
Roteiro: Jonathan E. Steinberg, Dan Shotz
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Toby Schmitz, Clara Paget, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Rupert Penry-Jones, Meganne Young, Nick Boraine, Tadhg Murphy, Angelique Pretorius, Anna-Louise Plowman, Andrian Mazive, Moshidi Motshegwa, Jason Cope, Jenna Saras, Ray Stevenson, Luke Roberts, Zethu Dlomo, David Wilmot, Chris Larkin, Harriet Walter
Duração: 56 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.