Crítica | Black Sails – 4X10: XXXVIII

Episódio e temporada:

estrelas 5,0

A série como um todo:

estrelas 4,5

Obs: Leia, aqui, as críticas das demais temporadas. Há spoilers.

E, finalmente, chegamos ao final do prelúdio de A Ilha do Tesouro, uma das obras literárias mais conhecidas do mundo. No entanto, diferente do que é a norma e de certa forma pervertendo expectativas, os showrunners fugiram de um encerramento apoteótico, reduzindo a relevância do conflito armado e carregando em finais felizes para praticamente todo os personagens, algo que potencialmente fez com que muitos espectadores virassem os narizes.

Trata-se, porém, de um capítulo final corajoso, lógico e circular, que nos leva de volta ao começo e que mantém vivo o espírito da série. Se uma guerra era o esperado, o que nos foi entregue foi muito mais significativo e duradouro que isso. O episódio XXXVIII é repleto de sacrifícios que limpam os conveses do sangue que escorreu ao longo dos 37 anteriores, ao mesmo tempo respeitando a obra de Robert Louis Stevenson, o legado dos personagens que morreram e a continuidade histórica dos grandes eventos relacionados com a pirataria (nunca houve uma nação pirata independente, nunca houve uma revolução nos moldes da que Flint prega). E, mesmo assim, o roteiro de Jonathan E. Steinberg e Robert Levine conseguiu trazer tensão e dúvida até os últimos segundos de projeção, até para quem já leu a obra original (o que, presumo, seja todo mundo e, se não leu, não me diga nada, saia de fininho e leia!) e sabia quem teria que viver ou não.

Mas o episódio não foi vazio de ação em seu sentido tradicional. Ao contrário, o conflito final entre os piratas e a Coroa Britânica acontece logo na primeira metade do episódio a partir da chegada de Jack Rackham à Ilha do Esqueleto, que, ato contínuo, salva Flint, Silver e o que restou da tripulação do Walrus e serviu para unir os principais jogadores ainda sobreviventes. Pela última vez, os três grandes piratas lutaram contra um inimigo em comum sob o comando do Capitão Flint em uma luta visceral em que o coração falou muito mais alto do que a razão.

Abalroamento de navios, mastros quebrados, lutas desesperadas e o mistério sobre a vida ou morte de Madi estabelecido pela sequência inicial em que vemos um doentio Billy Bones tentando providenciar sua vingança final marcam esse momento de certa forma confuso, talvez decepcionante para quem esperava um combate marítimo padrão (algo que, aliás, inexistiu em toda a série, se pararmos para pensar), mas brilhantemente coreografado. Sentimos em cada berro, golpe de espada e tiro o que move os personagens. Woodes Rogers é embalado pela culpa pela morte de Eleanor, Jack pela vingança pela morte de Teach e pelo espancamento de Anne Bonny, Billy pelo ódio a Flint e Flint, bem… Flint por sua raiva incontida por tudo que a ingrata Coroa Britânica fez com ele. Silver é o único que não enxerga a luta – não quer a luta -, apenas Madi e segue como uma flecha para achar sua amada.

E, nessa espetacular confusão – repararam na arquitetura sonora que ouvimos a partir do interior do navio? -, o roteiro ainda tem tempo de colocar o poderoso Long John Silver em contraposição a John Silver, o “cozinheiro covarde” do navio tomado pelo Walrus no primeiro episódio da primeira temporada. Afinal, quando ele encontra o rapaz tremendo por sua vida, é como se ele estivesse vendo momentaneamente através de um espelho, para um passado que não volta mais, talvez dando-lhe mais certeza ainda do que ele precisa fazer pelo seu futuro. Ainda que seu reencontro com Madi não tenha sido uma grande surpresa, ele foi inegavelmente emocional e bem construído, especialmente se levarmos em consideração que, na montagem, Steinberg sincronizou o resgate da líder dos quilombolas à derrota final de Rogers simultaneamente pelas espadas dos dois capitães.

Antes ainda do encontro de Silver com sua versão mais jovem, há a luta “aérea” de Flint contra Billy que também, de forma circular, inevitavelmente nos leva de volta ao passado da série, quando Billy foi jogado no mar por Flint tragado pelo mar, para onde ele volta mais uma vez e mais uma vez sobrevive, mas, desta vez, abandonado na Ilha do Esqueleto. Como e quando ele sai de lá e, mais importante ainda, como o quase mítico mapa do tesouro é desenhado e acaba em seu baú, provavelmente nunca saberemos, ainda que eu seja o primeiro a implorar à STARZ que reviva a série um dia para contar o que acontece entre esse momento e a chegada de Billy à hospedaria Almirante Benbow, onde ele conhece Jim Hawkins…

Mas o que era esperado como o clímax do episódio, na verdade, era apenas uma preparação. O objetivo dos showrunners não era mostrar a luta em detalhes, mas sim quase que tirá-la da frente rapidamente para permitir que o caminho fosse pavimentado para o encerramento de quatro anos de história. Se é possível apontar um efetivo clímax aqui, este é a derradeira conversa entre Flint e Silver a caminho do baú do tesouro. Flint sabe que Silver tem um plano que não combina em nada com o dele e, quando confrontado, o suposto Rei dos Piratas surpreende com sua virada pacifista. No entanto, é mesmo uma surpresa?

Se pensarmos no desenvolvimento desses dois inesquecíveis personagens, veremos que um é a fúria em pessoa e, o outro, é, digamos assim, a encarnação da “oportunidade”, do “jeitinho”, da “malemolência”. Flint sempre teve um plano a partir da “morte” de seu amado Thomas e Silver, que saiu de um covarde mentiroso para tornar-se um manipulador de primeira ordem, mas com coração de ouro, nunca compartilhou do mesmo pensamento. Não que ele não concordasse, mas é que, como ele mesmo diz, a forma de pensar de Flint o contaminou e tornou-se a sua própria forma de pensar e, depois da conversa dele com Rackham que não ouvimos, mas cujo conteúdo conhecemos, ele finalmente põe em movimento seu plano que já vinha sendo cozinhado desde que mandara Tom Morgan para a plantação-prisão em Savannah para localizar Thomas, o que vemos na sequência pré-créditos do episódio. Flint, por sua vez, deixa claro para Silver que não só Madi ficará insatisfeita com sua decisão de não ir para a guerra, como o próprio Silver se arrependerá, o que empresta um completamente novo sabor para as motivações do pirata da perna de pau na obra de Stevenson. O pirata que só queria ouro se torna o pirata que quer voltar ao que era antes de desistir de lutar em troca do amor. Certamente não esperava escrever uma frase assim, mas são nos detalhes que as surpresas repousam em Black Sails.

Se eu quiser ser chato, poderia reclamar da conveniência narrativa em Thomas estar preso por todos esses anos, assunto que só foi introduzido na própria quarta temporada. Mas há lógica por trás dessa escolha. A premissa dos showrunners, agora revelada, não era alterar situações históricas, mas sim apenas dobrá-las. A revolução de Flint, portanto, não poderia continuar, mas o personagem também não poderia morrer. Portanto, ele teria que desistir e conformar-se com uma vida quase anônima e a única coisa que o levaria a isso era a promessa de um semblante de felicidade com seu amado, mesmo que em uma prisão de luxo. Já pararam para pensar no tamanho do sacrifício que foi Flint retornar à sua persona anterior de James McGraw? Certamente em linha com o sacrifício de Silver em perder a amizade com Flint e arriscar perder Madi para que a paz reinasse.

E faço um parênteses nesse ponto. Não consigo deixar de imaginar que os showrunners foram especialmente espertos e felizes nesse contraste entre o Capitão Flint – o monstro criado pela raiva sem fim – e o leal James McGraw, algo que lembra de perto o romance O Médico e o Monstro, também de Stevenson. Isso sempre esteve presente na série, mas é aqui que a ideia toma forma de vez, abrindo caminho para um inesperado final feliz para Flint/James.

O epílogo é particularmente longo não só com a monólogo expositivo de Silver para Madi, como, especialmente, na politicagem envolvendo Jack Rackham, Max e Anne Bonny, além de um Featherstone governador (quem diria!). Mas as peças se encaixam com perfeição. O controle exigido pela Sra. Guthrie é alcançado. Max é a controladora, a mestre das marionetes e Jack – Calico Jack – volta aos Sete Mares para ser o fiel da balança entre o comércio legal e o ilegal, referendado por todos, claro.

Aos que eventualmente estiverem tentando entender o que significou a introdução do andrógino personagem Mark Read bem ao finalzinho, tudo não passou de uma bela piscadela histórica dos showrunners para encerrar com chave de ouro a aventura. Vivido por Cara Roberts – sim uma atriz – Mark é, na verdade, Mary Read, famosa pirata que, antes de se tornar o que se tornou, foi disfarçada por sua mãe como homem para que ela continuasse sendo beneficiada pela herança de sua sogra. Para encurtar a história, a fascinante história verdadeira da personagem, Mary – como Mark – realmente acabou se juntando à tripulação de Calico Jack e chegou a ter um caso com Anne Bonny.

Ah, e como poderia me esquecer! Sabem a bandeira pirata, conhecida como Jolly Roger, aquela que vemos ao final do episódio? Bem, foi mesmo Jack Racham quem a desenhou e nós já havíamos sido introduzidos a esse assunto lá atrás, na primeira temporada da série, estão lembrados? Isso é que é circularidade, não?

Sei que escrevi demais, mas Black Sails merecia. Seu encerramento foi certamente inesperado, mas memorável talvez justamente por isso. Um final impressionante para uma temporada perfeita de uma série espetacular. Já estou com saudades.

Black Sails – 4X10: XXXVIII (EUA, 02 de abril de 2017)
Criação e showrunners: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Direção: Jonathan E. Steinberg
Roteiro: Jonathan E. Steinberg, Robert Levine
Elenco: Toby Stephens, Hannah New, Luke Arnold, Jessica Parker Kennedy, Tom Hopper, Toby Schmitz, Clara Paget, Hakeem Kae-Kazim, Sean Cameron Michael, Louise Barnes, Rupert Penry-Jones, Meganne Young, Nick Boraine, Tadhg Murphy, Angelique Pretorius, Anna-Louise Plowman, Andrian Mazive, Moshidi Motshegwa, Jason Cope, Jenna Saras, Ray Stevenson, Luke Roberts, Zethu Dlomo, David Wilmot, Chris Larkin, Harriet Walter
Duração: 56 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.