Crítica | Black Science: Vol. 1 – How to Fall Forever

estrelas 5,0

Para os leitores que não quiserem perder tempo, vou logo dizendo: Black Science é mais um grande acerto da Image Comics, editora que não para de lançar obras em quadrinhos absolutamente fantásticas e de Rick Remender, autor que transita bem tanto em quadrinhos mainstream, como o título solo do Capitão América dentro do projeto Marvel Now! quanto em quadrinhos independentes, como o celebrado e já clássico Fear Agent e o recente e igualmente aplaudido Low. O viés de ficção científica do autor ganha novos contornos em Black Science, com uma história no estilo pulp altamente engajante cujas páginas o leitor não conseguirá deixar de virar compulsivamente.

Bebendo em fontes clássicas como da saudosa série Túnel do Tempo da década de 60 e, antes ainda, das histórias de Buck Rogers e Flash Gordon, Remender cria uma história simples, mas com muitas possibilidades narrativas. Grant McKay é um cientista anarquista que inventa o que ele chama de Pilar, uma máquina que permite a viagem interdimensional. No entanto, um problema (ou seria sabotagem?) no aparelho acaba levando-o e também sua equipe, além de seus dois filhos e um burocrata que obedece as ordens de quem patrocinou a experiência, para várias dimensões diferentes, sem qualquer controle. Funcionando aleatoriamente, o Pilar faz o transporte de dimensão em dimensão, ficando por tempos diferentes em cada lugar, de minutos a dias.

black science vol 1Com isso, claro, a estrutura da obra ganha contornos de “uma dimensão por número”, o que, em mão menos hábeis, cansaria muito rapidamente. Mas acontece que Remender não está sozinho e seu impressionante trabalho imaginativo – cada dimensão é impossivelmente diferente da outra – é trazido à vida pela belíssima arte de Matteo Scalera e cores de Dean White que assombram a cada virada de página. São seres anfíbios cavalgando moreias terrestres em perseguição aos Dimensionautas por templos construídos em cima dos cascos de tartarugas gigantes, passando por uma versão do planeta Terra em que o Destino Manifesto (caso não saiba o que é, leia aqui) aconteceu ao contrário, com os nativos americanos avançando tecnologicamente e atacando a Europa, até uma dimensão aparentemente tomada por “Pés Grandes” inteligentes de pelo branco. A sucessão vertiginosa de situações exige muito dos artistas e eles não hesitam em literalmente criar mundos muito detalhados que realmente parecem, apenas com imagens, contar sua história, cada um com sua própria lógica interna.

E Remender precisa disso, na verdade, pois não há texto capaz de cobrir a velocidade que as coisas acontecem e a necessidade de se contextualizar o que vemos. Não fosse o trabalho de Scalera e White contando-nos visualmente aquilo que os diálogos apenas arranham, o resultado final de Black Science seria apenas comum, nada particularmente especial.

Mas o melhor mesmo é que Remender não se contenta em arremessar o leitor de uma dimensão para outra assim, sem mais nem menos. Há uma história maior por trás e que é contada por intermédio de flashbacks não necessariamente lineares que, ao longo dos seis números que formam o volume criticado, contam em detalhes como é que McKay e seu grupo foram parar nessa situação. E, assim com a cebola que o cientista usa como metáfora para explicar as várias dimensões, a narrativa se desdobra em mais camadas ainda, quando um misterioso ser de armadura chega com o objetivo de sequestrar os filhos de McKay, engrossando o caldo da história e criando o equivalente interdimensional dos paradoxos temporais de obras baseadas em viagem no tempo.

black science internal art

A pancadaria come solta!

Um aspecto interessante do que Remender parece fazer é que ele muito claramente tem um plano macro, de longo alcance para sua obra. Não há dúvida que pular de dimensão em dimensão é altamente divertido, especialmente por libertar os artistas das amarras que teriam caso fosse uma história que se passasse em apenas um local, mas esse artifício muito rapidamente perderia o gás e tornar-se-ia repetitivo e até cansativo, por melhor que fosse o roteiro. Com isso em mente, Remender renova a história com constância, salpicando informações inéditas sempre que necessário para manter o frescor de sua narrativa e expandir a mitologia de uma forma lógica e coesa.

Black Science já mostra a que veio logo nesse primeiro volume. Um perfeito exemplar da ficção científica pulp clássica que literalmente sedimentou o gênero no começo do século passado. E o que realmente impressiona é o quanto Remender ainda promete entregar a seus leitores nos próximos volumes.

Black Science: vol. 1 – How to Fall Forever (EUA, 2013/2014
Contendo: Black Science #1 a 6, publicados entre novembro de 2013 e abril de 2014
Roteiro: Rick Remender
Arte: Matteo Scalera
Cores: Dean White
Letras: Rus Wooton
Editora (nos EUA): Image Comics
Editora (no Brasil): não lançado no Brasil na data de publicação da presente crítica
Páginas: 162

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.