Crítica | “Blackout” – Britney Spears

estrelas 4

Engraçado como a pior fase da vida pessoal de uma artista possa resultar em um dos seus melhores trabalhos. Considerado pela crítica especializada como um dos mais enérgicos álbuns de Britney Spears, Blackout é exatamente o que o produtor Danja disse quando questionado sobre os interesses musicais da cantora durante uma entrevista na época do turbulento lançamento: “Ela queria um álbum divertido e dançante, repleto de músicas aceleradas e muita energia”. Ao seguir exatamente o memorando da dona do negócio, o produtor, juntamente com os demais envolvidos na produção, entregou exatamente a encomenda solicitada.

Com canções que refletem temas como o sexo e a dança, já presentes na trajetória de Britney Spears, em especial nos dois últimos trabalhos, liricamente, Blackout também trata de fama e mídia, mas não da forma adocicada e boba de canções como Lucky, mas com a acidez do momento tenebroso que dispensa comentários, afinal, se você quiser saber mais sobre o colapso da cantora e as ressonâncias de sua crise no bojo da sua produção artística posterior, leia o Plano Polêmico Mas, afinal, Britney Spears importa?

Gravado entre 2006 e 2007, o quinto álbum de estúdio da musa dos tablóides traz 43 minutos e 35 segundos de electropop, dance-pop, R&B e alguma influência do euro-dance, numa produção que ganhou pontos por fugir um pouco dos trabalhos anteriores e soar adequadamente atmosférico, bem como Britney Spears soava na sociedade do espetáculo da época. Ao assinar a produção executiva, a artista permitiu que elementos musicais do funk e do dubstep fizessem parte dos arranjos, produzidos por uma equipe de primeira que continha nomes como The Neptunes, Keri Wilson, Jim Beaz, o já mencionado Danja, entre outros.

Com vocais considerados robóticos e uso massivo de sintetizadores, o álbum consagrou três singles: a enérgica Gimme More, a barulhenta Piece of Me, e Break The Ice, a irmã gêmea de I’m Slave 4 U. No primeiro single, a artista deixa a sua mensagem bem clara na abertura: It’s Britney, bitch!, numa canção dance pop com traços musicais do electropop e do funk. Liricamente, Gimme More trata do assédio da mídia e da invasão de sua vida privada. “Câmeras e flashes em meu caminho”, entoou a cantora, num misto de sussurros, gemidos, gritinhos sensuais e ritmo favorável para as pistas de dança.

O segundo single, Piece of Me, não é de todo ruim. Curiosamente, alguns consideram um hino, mas se observarmos bem, a faixa parece trilha sonora para games do estilo Sonic e Super Mario. Também derivada do electropop, juntamente com elementos do pop groove, a canção é marcada pela forte distorção vocal, que em muitos momentos, nos confunde sobre quem realmente canta, além de ter um arranjo que se assemelha ao som de galos numa rinha. Não acredita? É isso mesmo, escute com bastante atenção e tire as suas próprias conclusões. Na composição, a artista canta: “eu sou a Miss Sonho Americano desde os 17 anos (…) eles ainda vão colocar fotos da minha bunda na revista (…)”. Hipócrita, a faixa trata da relação de Britney com os seus perseguidores, mas analisa a questão apenas por uma via, pois ela esquece que é a responsável por alimentar a sede de imagens dos seus paparazzi.

Com Break The Ice, Britney Spears nos faz lembrar os refrãos gemidos de I’m Slave 4 U, hino do álbum Britney e uma das melhores canções da artista. Na linha R&B e electropop, a faixa traz leves influências do rave e do crunk, subgênero do hip hop. O álbum traz ainda Radar, canção euro-disco que apresenta sintetizadores distorcidos, single de Circus, o trabalho subsequente de Britney Spears; Get Naked, dueto com Danja, faixa empolgante sobre sexo, com a voz distorcida e os gemidos e sussurros de sempre; Heaven on Earth, canção que lembra I Feel Love, de Donna Summer, numa construção com três linhas vocais que transcorrem por toda a faixa, com forte ressonância do new whave, subgênero do rock que incorpora elementos disco, mod e da música experimental; além de Toy Soldier, Freakshow, Ooh Ooh Baby (bom uso de guitarra flamenca), Why Should I Be Sad e Perfect Lover, todas razoáveis.

A revista Rolling Stone saiu em defesa da cantora na época, já que mesmo com sucesso na maioria dos veículos de crítica cultural, havia muitos detratores do novo trabalho, a criticar questões como o demasiado uso de autotune. De acordo com uma reportagem de Rob Schffield, “Britney usa autotune do mesmo jeito que Bob Dylan usava a sua gaita (…) para pontuação, para atmosfera e efeito sonoro que cause estranheza”. Salva as devidas proporções e ilações, Britney não é, nunca foi e jamais será uma artista reconhecida por seus vocais, por isso, criticar o autotune é, como se diz no popular, “dar volta em círculos”.

Muitas polêmicas gravitaram em torno de Blackout, principalmente o encarte, repleto de fotos produzidas por Ellen Von Unwerth. Talvez tentando seguir a linha de guerra contra a Igreja Católica, tal como Madonna fez desde o suntuoso Like a Prayer, Britney aparece sensual num confessionário, como se tivesse a colocar o padre a se perder. Tal imagem sugestiva gerou tentativa de boicote por parte da Liga Católica, mas não rendeu muita coisa, tampouco mexeu com a imagem já desgastada de Britney Spears em 2007.

Devido ao momento decadente na vida pessoal, Britney Spears não saiu em turnê para divulgação do álbum. A tentativa frustrada de demonstrar os elementos de Blackout foi considerada como o bloco de cenas mais constrangedor de sua carreira, com a cantora aparentemente bêbada, perdida e solitária diante de um cenário esfuziante e dançarinos a todo vapor. A sua produção musical deste momento pode ser pensada como uma forma de dizer para o público que apesar dos problemas, ela estava presente e voltaria em breve. Infelizmente, entregaria ainda alguns trabalhos bem dançantes, mas perderia grande parte do vigor e desempenho nos palcos, elementos que nos fez deixar de lado, por algum tempo, a ausência de talento vocal e as demais fragilidades artísticas da Miss Sonho Americano.

Aumenta: Heaven on Earth/ Break the Ice
Diminui: Toy Soldier

Blackout  
Artista: Britney Spears.
País: Estados Unidos.
Lançamento: 25 de outubro de 2007.
Gravadora: Jive Records.
Artista: Pop, R&B, trip hopDance-pop e teen pop.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.