Crítica | Blacksad: Amarillo

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Em muitos aspectos, Amarillo é uma história bastante diferente dentro da saga do Detetive Blacksad. A trama evoca elementos bastante pessoais, flertando diretamente com Em Algum Lugar Entre as Sombras, mas mesmo assim, o roteiro de Juan Díaz Canales nesta edição vai para um espaço bastante diferente, quase despreocupado, afastado de toda a movimentação que os álbuns anteriores trouxeram — e esse desejo é literalmente colocado em um diálogo do Gato Preto com Weekly, a doninha fofa que aqui se afasta do amigo para poder voltar ao trabalho no jornal — depois de um período de parceria e investigação bastante intensas, como vimos em O Inferno, O Silêncio.

Tendo em mente essa diferenciação, fica ainda mais interessante observar como as relações familiares, os amores, as fugas, encontros e desencontros se concatenam neste quinto volume da série. Blacksad está precisando urgentemente de dinheiro e, por uma dessas coincidências compreensíveis da vida, ele acaba sendo contratado para dirigir um lindíssimo Cadillac Eldorado Conversível 1953, de cor amarela, até a cidade de Amarillo (o trocadilho não é meu, é do autor!), na região do Llano Estacado, no Texas. Notem que o elemento road já é um benefício para a história, visto que este recurso, quando cai nas mãos de bons roteiristas como Canales, é um convite para bons encontros rápidos e situações relativamente mais leves, combinando com o tom de viagem, liberdade e busca empreendida pelo protagonista. Evidente que tragédias ocorrem, mas a camada melhor delineada nesse tipo de história é outra. A investigação aqui se afasta, como pretendido no início, da “total correria”.

Entra em cena uma hiena de nome Neal Beato, advogado que nem Blacksad nem o leitor recebem muito bem, tomando-a por um dos bandidos qualquer que já vimos na série mas, em pouco, tempo isso muda. Em cada bloco de apresentação que temos aqui (a trama parece mais segmentada do que nos livros anteriores, e não digo isso de maneira negativa), Juanjo Guarnido procura inserir a cor amarela de uma maneira discreta, seja pelo uso direto ou de graduação da paleta até chegar, em no máximo uma página, à cor em si. Gosto muitíssimo da oposição emocional através das cores neste tomo, um trabalho levemente diferente do que vimos do artista ao longo da série, em especialmente em Alma Vermelha, onde a história exigia um uso mais amplo de cores, marcando muito mais os ambiantes dos que os personagens. Aqui, as roupas, a própria cor dos animais e os seus adereços ajudam a quebrar algumas impressões dramáticas, tornando Amarillo uma história estranhamente leve, dado o impacto e o simbolismo da cor amarela; com propensão a uma visão positiva das coisas, mesmo com essa aura de “maldição” que persegue alguns animais no decorrer da trama.

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Aqui conhecemos uns poucos detalhes sobre a vida familiar de Blacksad — já não era sem tempo! — e encontramos a sua bela irmã e seu sobrinho fofo, para quem Neal canta e toca violão em uma das cenas mais calorosas e belas (apesar de simples) de toda a trama. Um outro destaque vai para as cenas no Circo e para o desfecho da história, na Estação. No primeiro caso, temos a junção dos muitos braços do enredo em um único espaço, gerando aí novos pontos dramáticos que empurrarão a trama para o seu desfecho, inclusive redefinindo o caráter de alguns personagens e ressaltando algumas tendências de comportamentos ou “acidentes” para o leitor. No segundo exemplo, a mesma sensação de “acidentes ressaltados” aparece, mas há algo novo. O discurso. Como disse antes, essa história é espantosamente positiva, mesmo que muitas coisas do enredo não o sejam. Essa visão perdura até o fim da trama e ganha até algumas boas promessas às quais o leitor pode facilmente inferir.

Em Amarillo, Canales e Guarnido tomam a vida de um jovem Leão azarado e repentinamente impulsivo (único ponto que estranhei em relação ao personagem foi sua introdução, logo no começo do volume, que ficou meio confusa) para apresentar uma sequência de ações e alguns crimes que não abarcam, necessariamente, uma investigação rigorosa por parte de Blacksad. O álbum está mais para uma busca pessoal do que qualquer outra coisa. E esse tipo de história, como não podia deixar de ser, ganha nas mãos desses artistas um poder imenso, inclusive com uma mensagem importante sobre viver a vida a despeito de suas desgraças cotidianas. Uma história que fala sobre a tristeza e as tragédias do dia-a-dia ao mesmo tempo que ressalta uma belíssima mensagem de esperança… Um bom lembrete e um bom convite para todos nós.

Blacksad – Tome 5: Amarillo — França, Espanha, 2013
Editora original: Dargaud
Roteiro: Juan Díaz Canales
Arte e cores: Juanjo Guarnido
Letras: Christophe Semal
62 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.