Crítica | Blacksad: O Inferno, O Silêncio

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Depois da paranoia da Guerra Nuclear e dos “comunistas dominadores” no mundo de Blacksad, retratados em Alma Vermelha, Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido voltaram a uma perspectiva sociopolítica mais similar à do primeiro volume da série, Em Algum Lugar Entre as Sombras. Aqui, o autor utiliza o meio artístico, o vício em drogas e o envenenamento de pessoas como motivação de lucro de alguns (secretamente ligados a pessoas poderosas no país) para contar uma história de superação e retratação ética e moral de uma consciência, questionando a postura de certas pessoas frente a situações que, antes de se tornarem grandes escândalos, eram conhecidas de muita gente, inclusive de ídolos de comunidades afetadas por tais crimes. Mas esses indivíduos não falavam nada. Ou então buscavam ganhar algo com isso.

De certa forma, O Inferno, O Silêncio se assemelha bastante a Nação Ártica, no sentido de trabalhar a culpa e as divergências entre pessoas (e grupos culturais, raças, classes) como algo cotidiano ao qual apenas a História consegue entregar a conta e cobrar um preço. Para uma sociedade como a nossa, que em pleno século XXI vê-se mergulhada em drogas de todos os tipos — dos estimuladores aos calmantes –; e tem até na comida que come o acúmulo absurdo de veneno, a leitura de uma trama como essa é um convite para refletir caminhos e apontar responsabilidades. Como sempre, o roteiro de Juan Díaz Canales se preocupa com a ação humana (bem… nesse caso, animal), destacando a investigação de Blacksad para entregar o “algo de podre no Reino da Dinamarca” escondido nesse Universo. Mas ao mesmo tempo que isso é interessantíssimo no aspecto de construção de roteiro, acaba também trazendo alguns problemas.

Nesta saga, o problema é a adequação do “grande crime” no meio da história toda. Notem que nos Tomos 2 e 3 da série, Canales procurou manter quatro linhas de histórias, sendo duas diretamente ligadas à investigação de Blacksad e outras duas com importância sensível no enredo e trabalhadas durante esse processo, muitas vezes partindo delas o plot twist da edição. Ao longo do desenvolvimento, o leitor aproveita muitas coisas deixadas pelo autor, desde as bem realizadas críticas sociais até as muitas formas de se colocar nas páginas uma investigação de caráter noir — aqui, temos até uma brincadeira do protagonista com o fato de agir de tal forma a “se parecer com os detetives dos filmes“. Mas quando se trata do fechamento da narrativa, isso pode cair facilmente em uma armadilha de roteiro, tornando a trama não necessariamente truncada, mas tão cheia de janelas abertas ao longo das páginas que, na hora de fechar tudo e revelar a “grande questão”, acaba não conseguindo um resultado totalmente fluído, exatamente como foi no caso de Alma Vermelha.

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Quem consegue se manter livre dessas arapucas é a arte fenomenal de Juanjo Guarnido, sempre impressionando o leitor e tornando a experiência de se abrir um álbum de Blacksad um verdadeiro espetáculo visual do qual é impossível se cansar. Cada tomo o artista faz uma particular curadoria para a paleta de cores, uma dica dada desde a capa + o título das edições, embora estas sejam apenas a principal atmosfera que o roteiro desenvolverá. Assim, tivemos o cinza e os tons marrons em Algum Lugar Entre as Sombras; o branco em Nação Ártica; o vermelho em Alma Vermelha e o azul aqui em O Inferno, O Silêncio. No entanto, a arte não se deixa levar por essa premissa de cor-e-título, e é aí que reside um dos melhores pontos da arte em Blacksad. Cada álbum traz uma base de contrastes nas cidades representadas, nos bares, na forma como se vestem os muitos tipos de animais que protagonizam as aventuras e na atmosfera que texto e arte criam ao longo do volume. Mesmo que o leitor acabe se incomodando um pouco com algumas decisões do enredo, é praticamente impossível encontrar elementos negativos ligados à arte — a não ser quando atrelados ao texto, claro, e nesse ponto destaco aqui a mulher em vermelho, na festividade de rua, e a mulher que Weekly encontra no bar: dois “mistérios” insossos da vez.

O Inferno, O Silêncio é uma crise de consciência que ganha na maturidade de alguém a vontade de fazer diferente. De talvez consertar erros do passado, de agir por um outro caminho, mesmo que muito mal a outros já tenha sido infligido ou permitido, via a falta de coragem de quem sabe o que acontece mas, por medo ou qualquer outro motivo, escolhe não dizer nada. Elencando também o vício em drogas em o ambiente de jazz, a história mais uma vez mostra Blacksad em um encontro que acaba exigindo bem mais de sua persistência e humanismo do que qualquer outra coisa. Um olhar diferente para a máxima sartriana de que “o inferno são os outros“.

Blacksad: O Inferno, O Silêncio (Blacksad – Tome 4: L’Enfer, Le Silence) — França, Espanha, 2010
Editora original: Dargaud
No Brasil: Sesi-SP Editora (julho de 2018)
Roteiro: Juan Díaz Canales
Arte e cores: Juanjo Guarnido
Letras: Ségolène Ferté
62 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.