Crítica | Blade II

estrelas 4

Até 2002, ano de lançamento de Blade IIGuillermo Del Toro havia dirigido apenas três filmes, com destaque para o elogiado A Espinha do Diabo. Jovem, promissor e cheio de ideias, Del Toro assumiu o segundo capítulo de Blade com a missão de entregar um longa que fizesse tanto sucesso quanto o antecessor. No entanto, o cineasta mexicano fez muito mais do que isso, apresentando um filme superior em qualidade e bilheteria, arrecadando quase 25 milhões de dólares a mais.

O longa apresenta Blade (Wesley Snipes) em uma jornada para combater e eliminar os vampiros que capturaram seu mentor, Whistler (Kris Kristofferson), contando com a ajuda do jovem inventor Scud (Norman Reedus). No entanto, o herói se depara com uma nova raça mais poderosa chamada reapers, ameaçando eliminar vampiros e humanos. Diante do perigo, Blade é obrigado a aliar-se aos seus maiores inimigos para que, juntos, possam combater estes novos seres.

Blade II começa acertando ao se desvencilhar totalmente do longa anterior, mudando o local onde se passa a história, apresentando um novo inimigo, trazendo de volta Whistler e colocando Blade para interagir com uma equipe. Com isso, Del Toro  livra-se da obrigação de repetir a fórmula anterior e adquire espaço para contar a história à sua maneira.

Aliás, a obra é melhor que a anterior em todos os aspectos, inclusive na ação, também ótima no primeiro filme. O diretor insere vitalidade e dinamismo nas sequências de luta através de planos verticais, movimentos de câmera que acompanham os saltos de Blade e planos gerais para enquadrar as coreografias de corpo inteiro, valorizando os movimentos. Falando nisso, as artes marciais estão excepcionais graças ao excelente trabalho de Donnie Yen, coreógrafo do longa, ajudando a criar momentos que lembram os filmes asiáticos consagrados por Jackie Chan, Bruce Lee e o próprio Yen.

Além da primorosa ação, Del Toro transforma Blade II em um verdadeiro filme de terror ao utilizar vários elementos clássicos do gênero. Há desde cenas com foco no gore, como a autópsia em um reaper; até momentos chocantes, como a sequência da festa dos vampiros que mostra como se divertem com a automutilação, representada de maneira gráfica, como no beijo entre dois jovens com lâminas na boca.

Através do terror, o diretor cria um universo ameaçador, pouco convidativo e violento, mantendo-nos apreensivos durante a projeção. Para atingir isso, Del Toro também recorre à direção de arte, construindo cenários sujos, escuros, abandonados e pichados, como se mostrasse a decadência da sociedade, permitindo a aparição de seres tão repugnantes. Ademais, a cinematografia possui uma paleta de cores acinzentada e recorre, em alguns momentos, a uma luz amarela, dando uma aura urbana para a película.

Para inserir tensão, Del Toro conduz suas cenas de maneira magistral. Em dois momentos específicos, a festa dos vampiros e a caçada no esgoto, a edição destaca-se por manter o espectador na ponta da cadeira, intercalando a ação de vários grupos e cortando quando é sugerido que algo vá acontecer, gerando uma agoniante curiosidade sobre o desfecho nas cenas seguintes,

Há também em Blade II a boa utilização de um elemento técnico que viria a se tornar marca registrada de Del Toro, a maquiagem. Os reapers são assustadores, possuindo uma pele pálida, veias destacadas e uma boca nojenta que se divide em três. Inclusive, é importante destacar a habilidade do diretor em intercalar o uso de efeitos digitais e práticos, recorrendo ao CGI apenas em cenas pontuais, priorizando sempre o realismo, como na já citada cena da autópsia.

Contudo, os méritos do longa não são apenas de Del Toro, uma vez que o roteiro de David S. Goyer está bem mais maduro aqui. As provocações entre Blade e sua equipe são genuínas, resultando em bons momentos de alívio cômico. Além disso, há um interessante subtexto na história que compara os reapers com usuários de drogas pesadas, uma vez que, devido ao seu metabolismo rápido, precisam alimentar seu vício o tempo todo, tornando-os violentos e extremamente dependentes. Aliás, repare como o figurino das criaturas remete ao de moradores de rua, reforçando ainda mais as comparações entre eles e seres marginalizados. Inclusive, não é a toa que quem esteja pedindo a morte dos seres seja o puro-sangue Damaskinos, representando a visão elitista sobre quem é marginalizado, jamais tentando resolver o problema.

Porém, por mais que a relação entre a equipe e o romance entre Blade e Nyssa sejam rasos, os dois fatores são úteis para desenvolver o protagonista. Ao contrário do primeiro longa, várias nuances do herói são apresentadas aqui, como seu cansaço por passar anos caçando vampiros ou seu leve contentamento por trabalhar com seres da mesma espécie; sentimentos bem representados no momento que Nyssa pergunta ao herói porque os odeia tanto e ele responde com um sucinto “é o meu destino”, remetendo ao seu surgimento no momento da morte de sua mãe. Para completar, Goyer insere um plot twist no final que inverte nossa percepção sobre quem é vilão e mocinho, enriquecendo a narrativa e acrescentando conteúdo no subtexto da obra.

Até mesmo Wesley Snipes parece mais seguro neste segundo filme. Além da imponência do personagem, Snipes insere certa ironia no tom de voz de Blade, destacando sua autoconfiança e necessidade de estar no controle das situações, elemento, inclusive, explorado no clímax do longa. No elenco de apoio, destaque para Ron Perlman, retratando com eficiência o quão traiçoeiro Reinhardt é, e Kris Kristofferson transformando Whistler em uma acolhedora figura paterna, mas também convencendo nas cenas de ação.

Além de ser bem melhor que seu antecessor, Blade II chama a atenção por apresentar fatores que tornaram-se marca registrada da carreira de Guillermo Del Toro, como a precisa criação de universo por intermédio de uma direção que valoriza seus elementos técnicos. Através do personagem da Marvel, Del Toro já dava indícios do grande cineasta que se tornaria.

Blade II – O Caçador de Vampiros (Blade II) – EUA/ Alemanha, 2002
Direção:
 Guillermo del Toro
Roteiro: David S. Goyer
Elenco: Wesley Snipes, Kris Kristofferson, Ron Perlman, Leonor Varela, Norman Reedus, Thomas Kretschmann, Luke Goss,  Matt Schulze, Donnie Yen
Duração: 117 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.