Crítica | Blade, O Caçador de Vampiros

Mesmo com sua vasta galeria de heróis, constituída por personagens como o Homem-Aranha e os X-Men, coube a Blade ser o verdadeiro pontapé dos filmes da Marvel, que nunca havia conseguido emplacar um sucesso no cinema. Aliás, graças ao bom desempenho do longa, que arrecadou quase três vezes o valor investido, a editora percebeu que a venda dos direitos de seus personagens evitaria a falência na década de 90. Dito isso, fica evidente a importância de Blade para a Marvel e para a indústria do entretenimento, iniciando a febre pelos filmes baseados em quadrinhos.

Na obra, Blade (Wesley Snipes), metade homem e metade vampiro, busca vingar a morte de sua mãe eliminando o mundo dos vampiros. No entanto, o guerreiro precisará lidar com Deacon Frost (Stephen Dorff), o líder de um grupo que pretende eliminar a raça humana através de um ritual.

Visto duas décadas depois, percebemos que o tempo não foi tão benevolente com Blade. O primeiro elemento que salta aos olhos quando nos deparamos com o quão datado o longa tornou-se, é o uso de efeitos visuais. Todo efeito criado por computador exala artificialidade, tornando impossível a completa imersão do público naquele universo. O que é lastimável, visto que a direção de arte é competente em criar ambientes atrativos, priorizando o uso de cores neutras para decorar os cenários de maneira minimalista e moderna, transmitindo a elegância, imponência e sensualidade dos vampiros, como pode ser visto na sala de reunião dos vampiros ou no apartamento de Deacon Frost.

O figurino segue a mesma estratégia, inclusive no uniforme de Blade, vestindo os personagens com cores neutras e criando um universo que remete ao noir, uma estratégia inteligente, visto que protagonista é uma espécie de anti-herói. A boa utilização desses dois elementos técnicos pode ser reparada na sequência inicial, por exemplo, que, aliado ao uso dinâmico da edição, cria no clube dos vampiros um local ameaçador, principalmente quando o sangue começa a jorrar do sistema hidráulico, mas atrativo e pulsante. Portanto, é uma pena que a insistência no uso de efeitos digitais quebre o bom trabalho realizado em outras áreas técnicas.

Ainda sobre o universo dos vampiros, o roteiro destaca como as criaturas são preconceituosas não apenas com os humanos, afinal de contas são seu alimento, mas também entre elas. Os puro-sangue são elitistas a ponto de menosprezar companheiros da mesma espécie só por terem sido transformados e não nascido um deles, dando maior substância à narrativa. Já a trama principal traz a boa e velha busca por vingança com um vilão que quer dominar o mundo, algo clichê e realizado diversas vezes, mas que serve para o propósito do filme, apresentar sequências de ação.

Em contrapartida, o roteirista David S. Goyer erra ao explicar aquele universo de maneira extremamente expositiva, utilizando a Dra. Karen como uma espécie de guia do público dentro da história, mas sendo uma personagem deslocada da trama, principalmente quando é inserida na ação. O roteiro ainda peca pela falta de realismo de algumas cenas, como na indiferença da população diante de Blade espancando um policial no meio da rua ou o fato de Deacon Frost conseguir ficar exposto ao sol porque está utilizando protetor solar, resultando em mais um momento ridículo do longa, ao lado de qualquer cena que recorra a efeitos visuais.

Por outro lado, Wesley Snipes compensa a presença desnecessária de Karen na ação, apresentando um desempenho formidável nas coreografias. Todas as sequências de luta aqui são bem executadas e o diretor Stephen Norrington inteligentemente mantém a câmera em planos planos médios e planos gerais, mesmo que levemente tremida, para captar todo o movimento de Snipes, permitindo que o público entenda a geografia da ação e aprecie a coreografia. Além disso, a obra impressiona pela variedade, uma vez que não há aqui lutas de espadas, tiroteios e artes marciais. Ou seja, para os fãs do gênero, Blade é um prato cheio.

Já a interpretação de Snipes é apenas aceitável, destacando como Blade é amargurado e recluso, mas nada além disso. Aliás, não há nenhum trabalho memorável no elenco, pelo contrário, Stephen Dorff decepciona como Deacon Frost e não consegue transformar o vilão em um personagem imponente como seu antagonista.

Mesmo prejudicado pelo tempo, resultando em efeitos visuais patéticos, o filme é extremamente eficiente em seu objetivo maior, ser um bom filme de ação, principalmente pela vitalidade de Wesley Snipes. Pode não ter sido o início ideal para a Marvel no cinema, mas Blade justifica seu sucesso.

Blade, O Caçador de Vampiros (Blade) – EUA, 1998
Direção:
 Stephen Norrington
Roteiro: David S. Goyer
Elenco: Wesley Snipes, Stephen Dorff, Kris Kristofferson, N’Bushe Wright,  Donal Logue, Arly Jover
Duração: 120 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.