Crítica | Blade Runner 2049 (Com Spoilers)

  • A crítica abaixo contém um arsenal nuclear de spoilers. Portanto, cuidado. Leiam, aqui, a crítica sem spoilers.
  • Sugiro fortemente que peguem um café e relaxem lendo a crítica, pois ela é longa, quase tão longa quanto o filme.

Mal recebido quando, em 1982, foi originalmente lançado no cinema, Blade Runner, ao longo dos anos, tornou-se um clássico sci-fi tão importante que marcou uma era a ponto de, mesmo aqueles que não gostam do filme, reconhecerem seu valor para a história recente desse gênero. Ridley Scott, com seu apuro visual imbatível, Hampton Fancher com seu fascinante roteiro original, David Webb Peoples, com suas importantes alterações na história já sob o comando de Scott e o inesquecível elenco encabeçado por Harrison Ford fizeram da obra algo que, uma vez visto, jamais será esquecido.

No entanto, como em Hollywood nada é sagrado, alguma hora inventariam de mexer no clássico, seja para fazer um reboot, um prelúdio ou uma continuação. E conversas nessas linhas começaram efetivamente em 1999, com uma possível adaptação de The Edge of Human, romance de K.W. Jeter sancionado por Philip K. Dick, que dava seguimento à história de Rick Deckard, tentando conciliar as versões do personagem que vemos em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? e no filme. Em 2009, conversas surgiram por intermédio de Scott e seu irmão Tony, sobre uma possível série que se passaria antes do filme original. Foi apenas em 2011 que a semente do que viria a tornar-se Blade Runner 2049 foi plantada de maneira mais definitiva, com um longo processo de gestação e diversas ideias e nomes circulando, inclusive o de Christopher Nolan.

Uma coisa, porém, sempre foi unânime no lado do público: que Blade Runner não precisava de uma continuação. E, de fato, não precisava. Não precisa – no presente mesmo -, se pararmos friamente para pensar. Por outro lado, basta remexer um pouca a memória para lembrarmos que O Poderoso Chefão e Alien – O Oitavo Passageiro nunca precisaram de continuações e elas vieram mesmo assim, conseguindo, dependendo a quem você perguntar (inclusive a este crítico), ser melhores do que os originais. Ou seja, para toda regra há uma exceção, como o chavão clássico determina, e o mesmo poderia valer – era a esperança, pelo menos – para Blade Runner.

Mas a grande virada mesmo veio em 2015 quando Denis Villeneuve foi anunciado como o diretor da complicada empreitada. Com uma carreira curta e então sem qualquer sci-fi, ele já havia angariado todo o respeito da crítica e do público com uma série de filmes hollywoodianos sensacionais e desafiadores – Os Suspeitos, O Homem Duplicado, Sicario: Terra de Ninguém – e isso depois de ganhar relevo com obras canadenses não menos relevantes como Polytechnique e Incêndios. Quando em 2016 seu A Chegada, primeira incursão no gênero de Blade Runner, ganhou aplausos quase universais, concorrendo ao BAFTA e ao Oscar na categoria de Melhor Filme, o interesse pela continuação que ninguém esperava ou queria subitamente chegou ao seu ponto mais alto. Era a certeza de que, se Blade Runner 2049 era inevitável 35 anos depois, então que pelo menos ele ficasse com Villeneuve, aumentando as chances de que o resultado fosse algo que, no mínimo dos mínimos, não envergonhasse o original.

Villeneuve, porém, é Villeneuve e, cercando-se de um time imbatível como o diretor de fotografia Roger Deakins, um dos mais brilhantes em sua arte e que talvez por isso seja o mais esnobado pela Academia e o compositor Hans Zimmer (o islandês Jóhann Jóhannsson, parceiro de Villeneuve em A Chegada e que trabalharia junto com Zimmer, foi afastado da produção faltando poucas semanas para o filme ser lançado), responsável pela excepcional trilha de Dunkirk e isso só para ficarmos em 2017, além de Hampton Fancher, o co-roteirista do original, Blade Runner 2049 chegou aos cinemas mais do que excedendo suas expectativas. Se ainda é cedo para afirmar com todas as letras que estamos diante de um daqueles exemplos de continuação melhor do que o original, alguns elogios hiperbólicos são, pelo menos para mim, absolutamente cabíveis aqui: trata-se de um desses sci-fis que já nascem clássicos e que vivem com suas próprias pernas, além de ser uma das melhores continuações já feitas e um dos melhores filmes do ano.

Feita essa introdução alongada (e merecida), vamos à análise do filme em si.

KD6 -3:7 – UM REPLICANTE OBEDIENTE

Continuações precisam justificar-se para além do “quanto mais, melhor” que assola Hollywood. E, quando são continuações de clássicos, há que haver um cuidado ainda maior, especialmente quando o referido clássico é, para todos os efeitos, um filme fechado, com começo, meio e fim bem estabelecidos, mesmo que deixe perguntas no ar, algo que é uma característica positiva e esperada. E Blade Runner 2049 consegue justamente isso e logo na largada.

O objetivo dos roteiristas e direto foi claro: ampliar a mitologia do primeiro filme de forma lógica. Para isso, o texto inicial de abertura (e os curtas disponíveis online que, porém, não são essenciais, mas muito bons, vale dizer) preenche o vácuo de 30 anos entre uma história e outra informando sobre replicantes (ou androides humanoides) descontrolados que teriam se organizado em ataques terroristas pelo que sobrou da Terra, levando à sua proibição. A principal empresa por trás da tecnologia, a Tyrell Corporation, assim, foi à falência, sendo adquirida por Niander Wallace (Jared Leto), que reaproveita a tecnologia para salvar a humanidade do colapso. Em algum ponto, os replicantes – agora do modelo Nexus-9, completamente obedientes – passaram a ser novamente fabricados, ainda que alguns deles também tenham demonstrado vontade própria, o que justifica a permanência da unidade policial de blade runners para aposentar os androides, exatamente como no primeiro filme. No entanto, o modelo novo é tão eficiente que o Oficial K, corruptela (para homenagear Philip K. Dick) de seu código de identificação KD6 – 3:7 (Ryan Gosling vivendo o tipo de papel que sua latitude dramática permite: o homem silencioso amargurado), um dos policiais dessa unidade, é ele mesmo um replicante, cegamente seguindo suas ordens.

Em uma dessas missões, ele precisa aposentar o replicante grandalhão Sapper Morton (Dave Bautista), que, antes de morrer, diz, de forma críptica, que K também mudaria sua diretiva se ele testemunhasse um milagre como Sapper testemunhou. Palavras ao vento ou tem algo mais aí? Cuidadoso, K descobre uma maleta enterrada perto de uma árvore morta onde Sapper mora e que contém um esqueleto muito bem guardado, dando a entender que se trata de um caixão. Durante a análise, o legista conclui que a ossada é de uma mulher e que ela morrera dando a luz, depois de uma cesariana. Nesse ponto, o alarme na cabeça do espectador já começa a tocar e a revelação vem alguns segundos depois: K percebe, ao microscópio, um número de série em um osso, indicando que ele pertencia a nada menos que uma replicante.

Que melhor forma de tornar a diferença entre um androide e um humano do que abordar a possibilidade de um ser artificial ter dado a luz? A simplicidade desse conceito é também a genialidade da premissa do filme, que passa a girar em torno da busca pela criança que teria nascido há 30 anos. Aqui, o espectador não tem mais sombras de dúvidas – e o filme não esconde – sobre a identidade dessa mulher misteriosa. Só pode ser Rachael (Sean Young), que fugiu com Rick Deckard (Harrison Ford) exatamente há 30 anos para lugar incerto e não sabido.

As forças em oposição, então, ficam claras. De um lado, há a tenente Joshi (Robin Wright), que quer exterminar o bebê e todas as provas de sua existência, por entender que a revelação desse “messias” robótico faria a própria Humanidade ruir e, de outro, há Niander Wallace que deseja o bebê para seus fins, que conseguem ser ainda mais nefastos, que é permitir a multiplicação “espontânea” de replicantes, aumentando seu quadro de escravos que, como ele deixa muito claro para nosso horror (por ser a triste verdade), é a base do crescimento da civilização. E há, descobrimos ao pouco, um terceiro vértice nessa equação, uma silenciosa resistência replicante que protege o bebê milagroso e planeja utilizá-lo em sua revolução que busca a liberdade.

K está nesse meio, obediente à Joshi, mas começando a criar consciência de que há algo maior ali, maior do que sua programação binária pode compreender. E, ao mesmo tempo, nós nos perguntamos mais uma vez, 35 anos após o filme original: e agora, o que é ser humano mesmo?

OFICIAL K: UM ESCRAVO PROCEDIMENTAL

Com 163 minutos, Blade Runner 2049 é um filme longo, consideravelmente mais longo que o original que tem pouco menos do que duas horas. Lá, porém, a história – não a filosofia – é muito mais simples e objetiva, com uma caçada a quatro androides servindo de pano de fundo para uma improvável história de amor e para uma figura de Cristo fenomenal representada por Roy Batty (Rutger Hauer), figura essa que, de certa forma, é espelhada na criança replicante objeto de ódio, desejo e adoração ao mesmo tempo. Agora, a ambição é maior, com a necessidade de se construir novos personagens e toda a nova lógica desse mundo pós-blecaute, 30 anos depois que vimos Deckard fugir com Rachael.

Essa duração, então, é primeiramente justificada pelo aspecto visual da obra de Villeneuve, também um reverência ao original. O mundo (re)criado pelo design de produção de Dennis Gassner (O Show de Truman, Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas, 007 – Quantum of SolaceOperação Skyfall e Spectre) e pela direção de arte ao comando de Paul Inglis (Filhos da Esperança, Prometheus, 007 – Operação Skyfall) é o mesmo que o imaginado e materializado detalhadamente por Ridley Scott, mas fundamentalmente diferente.

Aqui, temos que voltar à premissa: 30 anos se passaram, depois que Los Angeles – e possivelmente todas as demais grandes cidades remanescentes da guerra nuclear – passou uma idade das trevas em que valiosos dados foram perdidos. Em outras palavras, houve uma involução tecnológica e um adensamento populacional. Com isso, a Los Angeles neo noir do filme original está sim um pouco lá na continuação, mas o que chama a atenção é a “favelização” monumental do lugar e da homogenização arquitetônica. Se, antes, havia ainda o uso de locais famosos pré-guerra (como o Bradbury Building, onde J.F Sebastian vivia), agora tudo é igual, tudo é feito, tudo é decadente. Se, diferente do primeiro filme, vemos luz, o que vemos de verdade é claridade estourada, cinza, sem sol, como se olhássemos tudo por intermédio de um vidro opaco, que mata qualquer semblante de alegria. Há cores, claro, mas elas são exclusivas do bombardeio neon de anúncios holográficos e marcas que cobrem todo o espaço disponível em um assalto aos sentidos desagradável e que assusta por ser tão próximo do que efetivamente vemos no dia-a-dia em cidades grandes.

Portanto, com a necessidade de situar o espectador nesse novo velho mundo do futuro, Villeneuve usa e abusa da linguagem puramente visual, o que toma tempo do filme, e também estabelece seu passo. Afinal, não estamos diante exatamente de um filme de ação. Seu caráter contemplativo sobrepuja a pancadaria em grande proporção e o foco inicial é na investigação de K, primeiro sobre a identidade da mãe do bebê e, depois, o paradeiro do pai, Rick Deckard. Há um certo didatismo nessa primeira hora, mas ele não é o tipo de didatismo que extrapola o razoável e nem é expositivo, subestimando o espectador. O roteiro de Hampton Fancher e Michael Green não tem pressa, mas usa o caráter procedimental investigativo para nos mostrar que o arco narrativo que realmente importa e que é o foco da obra é o de K. É ele o sujeito do estudo antropológico que forma o coração de Blade Runner 2049.

Reparem como o tão esperado encontro de K com Deckard é algo deixado para o terço final da projeção. Quando chegamos nesse ponto, já entendemos o que aconteceu e compreendemos que a caçada ao antigo blade runner e ao seu bebê é o fim que justifica os meios e os meios, no filme, são os elementos que discutem a humanidade de K ou, melhor dizendo, o conceito de humanidade em si.

K, aprendemos, vive em um apartamento minúsculo, razoavelmente claro (mas acinzentado, feio), espartano, quase sem móveis, talvez o exato oposto da entulhada, complexa e escura moradia de Deckard – há uma inteligente rima visual na decoração “maia” da parede da cozinha de K, mas só -, ainda que não exatamente sozinho. Ele divide seu lar com Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial holográfica que tem função dentro e fora do filme. Dentro, como um relacionamento amoroso cibernético, que ajuda a desafiar e a alargar o conceito de humanidade. K sente algo por ela, mesmo que ela, no final das contas, possa não ser um programa tão completo assim e que verdadeira sente aquilo que diz sentir. Sua materialização é um dos elementos mais intrigantes e bem executados em um filme quase perfeito, desde sua portabilidade, até a forma como ela “veste” a prostituta replicante Mariette (Mackenzie Davis, a Cameron de Halt and Catch Fire) para um belíssimo momento de amor carnal entre os dois.

Externamente, porém, Joi é a versão 2017 da odiada narração da versão de 1982 do filme original. Sua interação com K ajuda em nossa compreensão do que de quem ele é exatamente. Sem Joi, não haveria razão para sequências em que vemos K fora da investigação, a não ser que fosse para mostrá-lo silencioso, preparando sua comida. Seria até possível que sua contrapartida no mundo fora da polícia fosse uma humana, mas isso quebraria a lógica do filme que determina que os skin jobs são odiados pelos humanos. De certa forma, há um flerte nesse caminho quando sua chefe o visita no apartamento, mas o roteiro não arrisca artificializar a relação entre os dois, deixando K com sua versão binária de uma história de amor (aliás, repararam na sensacional jogada do roteiro ao equalizar a clássica frase de Eldon Tyrell para Roy Batty – “a luz que brilha o dobro arde a metade do tempo” – à questão da comparação do DNA humano e dos “uns” e “zeros” que formam Joi, feita por K?).

Portanto, o foco procedimental que parece fazer o filme se arrastar é, na verdade, Denis Villeneuve deixando sobejamente claro que o filme não é sobre o esperando encontro de K com Deckard, mas sim o encontro de K com sua humanidade latente. Assistir esse filme só pelos “grandes momentos” e classificar os pequenos como enrolação é perder o foco do principal e, no final das contas, desperdiçar 163 minutos.

JOE: O HOMEM POR TRÁS DO ANDROIDE

Vou novamente voltar ao Blade Runner original. É inevitável. Mas confiem em mim.

Ao morrer depois de seu inesquecível monólogo “lágrimas na chuva”, Roy Batty nos mostra que ser humano não é nascer do ventre de uma mulher. Batty é muito mais humano que Deckard, já que o policial mata friamente duas mulheres – uma pelas costas – e nada sente quando Leon tem sua cabeça estourada por Rachael. O caçador de androides é um androide (e não quero dizer literalmente) em sentimentos ou, pelo menos, tem o tipo de comportamento que esperamos de um androide. Batty é seu exato oposto. Demonstra um amor por Pris, que Deckard emula de forma violenta com Rachael e, ao final, deixando claro o valor da vida para ele, salva Deckard da morte certa. Os papeis se invertem e, na morte, Batty ensina a vida a Deckard.

Corta para Blade Runner 2049.

K é literalmente um androide, disso não temos dúvidas. E um androide completamente obediente, capaz de chacinar friamente seus pares. K é Deckard antes da morte de Batty, para todos os efeitos. K é, também, um ser que começa a duvidar de sua programação, de sua natureza. Ao desvelar o mistério sobre o bebê replicante, K nutre a esperança de que ele é essa criança. A prova disso são suas memórias de infância, uma em particular em que, fugindo de valentões, esconde seu cavalinho de madeira, com função semelhante ao unicórnio de origami no filme original, com a data de seu nascimento em uma fornalha em desuso em um lugar horroroso.

Mas K sabe que essa memória, assim como todas as outras, é um implante. Um implante usado para manter os replicantes na linha. Um implante… criado pela mulher que fora o bebê replicante, que ignora essa condição e cuja profissão é exatamente criar essas memórias para replicantes, por sub-contrato com… Niander Wallace. A circularidade temática é impressionante, mas eu me adianto aqui.

O que importa, no momento, é que K quer ser essa criança. Apesar de suas reações explosivas, ele passa a depender dessa revelação e tudo conspira para isso. O roteiro nos impede de ver o óbvio ou, na verdade, não cai na armadilha de fazer o que é extremamente conveniente. Se K é o protagonista, então ele precisa ser o replicante salvador, o replicante que nasceu e não foi feito. Essa esperança que ele nutre passa a ser o que também queremos. Tem que ser ele. Mesmo quando uma incongruência é percebida – duas crianças, uma menina e um menino? – ela é logo descartada dentro da estrutura de “narração” que é a conversa entre Joi e K.

Não é assim que agimos? Digo nós, humanos? É a esperança que nos move. Esperança por uma vida melhor, por um mundo melhor, por um filme dos Transformers que seja minimamente bom. É isso que nos leva para a frente e é isso que passa a mover K, ou Joe nesse momento. Ele, aqui, diante de nossos olhos, torna-se humano.

JOE: O FILHO DE DECKARD

Quando o grande encontro acontece, a fotografia de Roger Deakins muda a paleta de cores completamente, com a ação sendo transposta para as ruínas radioativas de Las Vegas. O choque com o tom fortemente alaranjado exige ajustes na visão e cria automaticamente uma beleza deslumbrante que, por alguns segundos, esconde o horror que está por trás de tudo aquilo.

Aliás, Mr. Deakins provavelmente concorrerá pela 14ª vez ao Oscar de Melhor Fotografia e, mais um vez, periga de não levar a estatueta. Não porque ele não mereça, mas sim exatamente porque ele merece. Em Blade Runner 2049, ele nos arrebata com seus planos gerais meticulosamente armados que ampliam sobremaneira o universo do filme original. Se, antes, estávamos restritos às ruas claustrofóbicas de Los Angeles e a tomadas aéreas belíssimas, econômicas, na continuação não há freios para o que vemos. O travelling de abertura, com Joe voando até a fazenda de lesmas que Sapper Morton cuida, ao mesmo tempo que cria familiaridade com a tomada de abertura da obra de 1982, também subverte nossas expectativas. A cor predominante é um off-white horroroso, sujo, quebrado por elementos cinzas que mostram que estamos sim na versão diurna daquilo que conhecemos na versão noturna. Acreditamos automaticamente nessa expansão de universo.

E essa expansão ganha outros momentos inesquecíveis, como no sinistro, mas belíssimo, escritório piramidal de Niander Wallace, com o reflexo da água imediatamente referenciando o mesmo tipo de efeito que vemos na enorme sala de Eldon Tyrell, no momento em que Rachael entra no recinto. E também no sobrevoo de K pelo muro de contenção que impede o oceano de tragar tudo com sua fúria e sobre o gigantesco lixão que é San Diego, que começa a ganhar a coloração que explodiria no terço final com Joe se aproximando de Vegas. É no uso das cores fortes que Deakins consegue criar um clima de suspense, de finalismo, de devastação de maneira ainda mais eficiente do que toda a Los Angeles noir que já conhecíamos. É um mundo que não parece mesmo ter mais salvação, um mundo que talvez não precise mais dos humanos.

Ou, pelo menos, da maioria deles. Alguns humanos ainda mantém seus valores base, mesmo que esses valores tenham sido aprendidos – ou reacendidos – a partir de sacrifícios feitos por androides. Rick Deckard, quando aparece finalmente (nossa, como demorou – e ainda bem que demorou!) é um homem que passou os último 30 anos sozinho, um ermitão que tem como companhia um cachorro (pergunte para ele se é verdadeiro!) e hologramas falhos de Elvis Presley, Frank Sinatra e Liberace em um teatro deserto, que Deakins fotografa com uma maestria de tirar lágrimas dos olhos, abusando do contra-luz, do chiaroscuro e de uma câmera bem localizada próxima ao solo para acompanhar Joe. Harrison Ford tem, talvez, sua melhor atuação em anos, em sua terceira revitalização de personagens clássicos que encarnou. Seu rosto mantém a rudeza do Deckard que conhecemos, mas deixa transparecer a profunda agonia da solidão e da ignorância completa sobre o paradeiro de seu filho com Rachael.

Podemos considerar o encontro como anti-climático? Com certeza, e isso deve ter irritado muitos espectadores que esperavam algo mais, digamos… convencional. Mas o encontro é o encontro que o filme havia estabelecido que seria: o fim de uma investigação em que K sabe, tem certeza absoluta que acaba com ele como o filho perdido de Deckard. Mas Joe vê o sacrifício que Deckard fez. Ele nem mesmo conheceu sua filha e nunca a procurou, mas não por não amá-la e sim para protegê-la. Apesar de eu estar usando o indicativo de gênero, nesse momento não sabemos que é uma menina. Na verdade, temos certeza de que é um menino. É Joe, ora bolas!

Os espectadores mais ressabiados e calejados provavelmente soltaram um “hummmm…” nesse momento, talvez até com direito a mão no queixo e aquele cochicho ao colega ao lado. Sim, pois há algo de podre na ex-cidade do pecado. Joe não percebe. Ele está cego – Niander Wallace é cego, mas enxerga mais do que todos aqui – pela certeza gerada por sua investigação. Joe quer ser humano. Mal sabe ele que ele já é, independente de qualquer outra consideração!

Mas a pergunta, que nunca é feita, permanece sem resposta. Afinal, Joe é mesmo o filho perdido de Rachael e Rick?

Quando a resposta finalmente vem, depois que o movimento clandestino de revolução replicante nos é apresentado oficialmente, levamos um soco no estômago. Mesmo sabendo que seria uma conveniência exagerada de roteiro, fomos manipulados a querer – exigir! – que Joe fosse o bebê. Quando, ao mesmo tempo que ele, descobrimos que não é e que já havíamos conhecido a bebê, Ana Stelline (Carla Juri), algo confirmado em um breve flashback, entramos em depressão, choramos com a esperança estilhaçada no coração artificial de Joe. Mas é assim que Blade Runner 2049 se destaca, ao justamente não cair em armadilhas narrativas tipicamente hollywoodianas.

E, novamente, não podemos esquecer que, neste ponto da história, já aprendemos que não interessa mais a diferenciação entre humanos e replicantes. As naturezas de um e de outro se amalgamaram e um ser tornou-se o outro.

RICK DECKARD: NÓS FINALMENTE O CONHECEMOS?

Mesmo que a verdadeira pergunta de Blade Runner seja o que faz de um humano humano, a pergunta mais famosa – e irritante – é se Deckard, afinal de contas, é ou não um replicante. Ridley Scott passou anos se esquivando dessa resposta, até que um dia capitulou e disse que sim, Deckard era um androide. Mas será que é isso mesmo?

Eu poderia dizer que não interessa, pois é a mais pura verdade. Mas vou morder a isca aqui por um momento e perguntar: e se ele for? Em que isso muda a história? O bebê replicante será um bebê replicante tendo ele nascido de mãe replicante ou de mãe e pai replicantes. Deckard envelheceu, é verdade, mas os replicantes Nexus-9 podem envelhecer normalmente também e, se Rachael era o modelo Nexus-X (he, he…), Deckard também poderia ser algo assim, não?

Agora releiam os dois parágrafos acima. Perceberam a quantidade de pontos de interrogação? Pois é, foi de propósito. A conclusão é simples: Blade Runner 2049 não oferece essa resposta. Aliás, não oferece nenhuma resposta que não seja Ana é filha de Rick e Rachael. É até mesmo possível construir a tese que Niander Wallace é um replicante excêntrico, mas não chegarei a esse ponto. O importante é entender e aceitar que “a verdade está lá fora” e que, se depender de Villeneuve, continuará por lá. Afinal de contas, tudo explicadinho nos seu mínimos detalhes é chato demais.

ANA STELLINE: O FUTURO

Depois de um clímax de ação na água, com a replicante assassina fria Luv (Sylvia Hoeks), minion de Wallace, sendo derrotada pela humanidade de Joe em momentos impressionantemente tensos e bem construídos, com uma câmera que não se furta de nos colocar no meio da ação, mas em momento algum nos confundindo ou tirando nosso norte, partimos para talvez o mais belo momento-homenagem do filme. Joe, ferido, mas escondendo a gravidade de Deckard, leva o pai para finalmente encontrar-se com sua filha e, olhando os flocos de neve caindo, morre nas escadas.  Sua humanidade se esvai, perdida como flocos de neve na nevasca. Mas ele morre humano, não androide.

Confesso que a brevíssima cena seguinte me incomodou menos do que o que ela significa. Villeneuve soube encerrar a projeção em um momento que, diria, fica no meio termo entre o que ele deveria querer e o que o estúdio queria. O reencenamento de “lágrimas na chuva” era o final que o filme precisava. O encontro entre Rick e Ana é quase – por muito pouco – o equivalente à tomada aérea verdejante (de O Iluminado) que vemos ao final da versão original do filme de 1982. O semblante de final feliz incomoda, mas, aqui, rima com a morte humana de Joe. Faz sentido. Funciona até.

O que não funciona é o que a cena significa. Sem dúvida alguma, ela nos remete à ponta que permaneceu solta: a prometida rebelião replicante tendo Ana Stelline como messias. Vejo muito claramente uma interferência do estúdio aí, com a história do primeiro filme se repetindo, mas com outro viés. Se em 1982 o objetivo foi simplificar o filme e torná-lo “feliz”, agora o plano é fazer como Rachael fez e permitir que o produto tenha filhos. Se Blade Runner 2049 fizer sucesso financeiro, uma outra continuação está ali, esperando para ser feita, sem necessidade de muitos malabarismos.

Mas, novamente, essa segunda continuação não é necessária ou, diria, consegue ser menos necessária ainda que a primeira. Um caminho possível para a produtora seria lidar exclusivamente com a revolução replicante, sem necessariamente voltar à Deckard ou mesmo Ana Stelline diretamente. Seria possível fazer uma história paralela à principal.

Todavia, quem sou eu para julgar? Se me perguntassem, há 10 anos, que filme eu jamais esperaria ver continuação e especialmente uma que competisse de igual para igual com o original, eu diria Blade Runner sem medo de errar e cá estou escrevendo um tratado internético rasgando elogios exatamente a essa continuação. Portanto, tudo é possível.

Acontece que a abertura tão escancarada dessa porta – que, devo admitir, Villeneuve, para seu mérito, se esforça em esconder – detrai um pouco da experiência como um todo. Não haver resposta para uma pergunta como “qual é o sentido da vida?” é uma coisa, mas não haver encerramento para algo mais mundano como “quem ganha a guerra, humanos ou androides?” é uma rasteira no espectador. É por isso que está faltando meia estrela na avaliação final desta crítica.

XXXXXXXXXX

Só o tempo dirá se Blade Runner 2049 representará para a ficção científica o que seu pai representou. Mas responder essa pergunta é irrelevante diante do que esse filme representa agora: mais uma belíssima demonstração de que continuações podem ser tão relevantes quanto o original, bastando para isso uma conjunção de fatores tão presentes aqui como estiveram em um seleto número de outras. É raro, mas quando acontece, é um evento que deve ser comemorado efusivamente.

Blade Runner 2049 (Idem – EUA/Reino Unido/Canadá, 2017)
Direção:
 Denis Villeneuve
Roteiro: Hampton Fancher, Michael Green (baseado em personagens criados por Philip K. Dick)
Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Dave Bautista, Robin Wright, Mark Arnold, Vilma Szécsi,  Ana de Armas, Wood Harris, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis, Edward James Olmos
Duração: 163 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.