Crítica | Blade Runner 2049: Curtas-Prelúdio

Para fazer a ponte entre Blade Runner e Blade Runner 2049, a Warner, assim como a Fox fez nos casos de Alien: Covenant e Planeta dos Macacos: O Confronto, encomendou três curtas-metragens que se passam em momentos diferentes nos 30 anos que separam os filmes e que ajudam a contextualizar a obra de Denis Villeneuve. Os dois primeiros curtas, que são em live-action com atores que aparecem na continuação, foram dirigidos por Luke Scott (de dois prólogos de Alien: Covenant), filho de Ridley Scott, e escritos por Hampton Fancher (co-roteirista do filme original e da sequência) e Michael Green (co-roteirista da sequência, além de Logan e de Lanterna Verde), enquanto que o terceiro – e mais longo – é um anime de ninguém menos do que Sinichiro Watanabe, o mesmo de Cowboy Bebop e Samurai Champloo, contando, dentre outras coisas, com a volta de Gaff, mais uma vez vivido (só voz, claro) por Edward James Olmos.

Abaixo, o leitor encontrará não só os curtas em si, como, também, nossa análise e avaliação de cada um, na ordem em que foram disponibilizados online.

2036: Nexus Dawn

No primeiro curta, somos apresentados ao conceito básico desse mundo pós-eventos do filme de 1982: em razão de um blecaute causado por replicantes, a fabricação de androides humanoides foi proibida. Niander Wallace, vivido por Jared Leto, chega atrasado para uma reunião com um conselho que parece ter o poder de reverter a decisão proibitiva de anos atrás, tendo a seu lado um guarda-costas (Set Sjöstrand) que, não demora, é revelado como um replicante modelo Nexus-9, identificável como tal pelo número de série em seu globo ocular direito.

A composição do personagem de Leto é fascinante. Em tese o vilão do filme, ele tem um caráter messiânico e misterioso, com diálogos que parecem retirados de textos bíblicos e que muito claramente o constroem como alguém poderoso o suficiente para conseguir o que quer, especialmente a reversão das leis que vetaram os replicantes algo que não acontece no curta em si, mas que o roteiro dá a entender que, no mínimo, é o começo de um processo nessa inexorável direção.

A direção de Luke Scott é simples, não-intrusiva e eficiente para alcançar os objetivos do roteiro. Plano e contra-plano estabelecem o conflito, aqui representado principalmente pela oposição de Leto ao personagem de Benedict Wong, que parece ser o líder deste conselho, com o choque da revelação do novo replicante servindo de ponto de ruptura que acaba em uma espécie de cliffhanger cuja resolução provavelmente não acontecerá nem mesmo no filme, já que não é esse o objetivo.

A direção de arte merece comenda por passar o mesmo tipo de atmosfera do filme original, mas acrescentando – na verdade, retirando – elemento importante: a tecnologia. Se repararmos bem, não só a sala parece ser antiga (mesmo para padrões atuais) como quase nada exala “futuro”. É como uma cápsula do tempo, dando a impressão – ratificada pelo monólogo de Wallace – que o mundo está estagnado, talvez até involuindo. Os replicantes parecem ser a única saída e é isso que o personagem de Leto parece vender convincentemente.

O curta parece ser uma “cena deletada” do filme, mas tem vida própria e efetivamente dá contexto ao que será visto no filme, deixando de ser algo meramente descartável ou feito apenas para “marketear” o filme. Considerando o intervalo entre as obras, esses breves pouco mais de cinco minutos expositivos são bem-vindos e cumprem seu papel com louvor.

Direção: Luke Scott
Roteiro: Hampton Fancher, Michael Green
Elenco:  Jared Leto, Benedict Wong, Ned Dennehy, Ade Sapara, Ania Marson, Set Sjöstrand
Data de lançamento: 30 de agosto de 2017
Duração: 6’30” (com prólogo de Denis Villeneuve)

2048: Nowhere to Run

O segundo curta nos introduz a Sapper Morton (Dave Bautista), um replicante Nexux-9 (provavelmente) que parece ter seus próprios problemas psicológicos e até mesmo físicos (por parecer precisar usar óculos), mas demonstrando um enorme grau de empatia com os humanos, especialmente com Ella (Gaia Ottman), uma menina a quem dá um exemplar de O Poder e a Glória, de Graham Greene, que lida com o mesmo tipo de questão filosófica abordada no filme original de 1982: o que faz do homem um homem? Depois de vender o que parecem ser sanguessugas, ele precisa salvar Ella e sua mãe de assaltantes, demonstrando sua natureza replicante e sua força e violência extremas, o que parece levá-lo a ser alvo de uma caçada pelo Agente K durante Blade Runner 2049.

Dois aspectos chamam atenção imediatamente no curta. O primeiro deles é a surpreendente latitude dramática de Bautista. Sempre fazendo papel de grandalhões razoavelmente unidimensionais, aqui ele ganha camadas mais profundas que mostram um homem/androide perturbado e constantemente vivendo em conflito interno, mas talvez mais humano que os humanos. Claro que são apenas cinco minutos, o que impede um julgamento mais amplo sobre Bautista, mas já é possível ver que seu personagem promete.

O segundo aspecto é a reconstrução da Los Angeles distópica do filme original. Ela está toda lá, mas talvez menos tecnológica que antes, possivelmente em razão do blecaute causado anos antes. Mais tumultuada, mais suja ainda e mais escura, a cidade ganha vida e nos convence perfeitamente de sua credibilidade novamente com um belo trabalho de direção de arte que já é marca da franquia.

Sem dúvida que este é o curta menos relevante em linhas gerais, já que, bem mais do que o anterior, parece uma cena que ficou esquecida na sala de edição. Sem dúvida uma boa introdução para Sapper Morton, mas, em termos narrativos, não muito mais do que isso.

Direção: Luke Scott
Roteiro: Hampton Fancher, Michael Green
Elenco:  Dave Bautista, Gerard Miller, Gaia Ottman, Björn Freiberg, Orion Ben
Data de lançamento: 16 de setembro de 2017
Duração: 5’47” (com prólogo de Denis Villeneuve)

Black Out 2022

A cereja no bolo desses curtas-prelúdio de Blade Runner 2049 é, sem dúvida alguma, o anime dirigido e escrito por Sinichiro Watanabe, responsável pelo excelente Cowboy Bebop que, aliás, lida com questões existenciais não muito diferentes daquelas trazidas por Philip K. Dick em seu Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, inspiração para Blade Runner. Portanto, a escolha de Watanabe foi perfeita e, depois de assistir aos 15 minutos da história que se passa apenas três anos após Rick Deckard encerrar sua caçada aos replicantes Nexus-6, fica aquele gosto de quero mais.

Sem perder tempo, somos logo arremessados na ação, com um caminhão tanque sendo sequestrado pela atlética replicante Trixie (Luci Christian) e pelo estoico androide Iggy (Jovan Jackson), em uma missão que almeja destruir os arquivos de Los Angeles sobre as identidades de todos os replicantes, parte de um plano mais abrangente que envolve a detonação de uma bomba nuclear em baixa altitude em cima da cidade, de forma que o pulso eletromagnético desligue todas as máquinas, levando a humanidade à uma espécie de Idade Média. É esse evento que é referenciado no primeiro curta – 2036: Nexus Dawn – como sendo o catalisador da proibição total da fabricação de androides.

Bebendo um pouco do conceito vindo do romance original de 1968, de que os androides estão muito mais infiltrados na sociedade do que a humanidade pode imaginar, o roteiro de Watanabe é econômico e preciso na delineação da história em meio à ação, sem perder ritmo em momento algum, mesmo quando faz fan service para mostrar Gaff, novamente na voz de Edward James Olmos. Por meio de flashbacks, aprendemos sobre a campanha militar de Iggy, que o leva à revelação de sua condição de escravo da humanidade, algo muito semelhante ao que muito  provavelmente Roy Batty vivera antes dele. Com isso, a história é montada sem soluços e sem interrupções e, especialmente, sem didatismo, deixando que as imagens falem por si mesmas.

E essas imagens são magníficas. O design gráfico do curta é espetacular em seus detalhes e em sua perfeita transição do live-action para a animação do mundo criado por Ridley Scott para as telonas. Há fluidez de movimentos e uma bem-vinda diferenciação entre as sequências no presente – todas coloridas e detalhadas – e as sequências no passado, com cores esmaecidas e traços mais primais que funcionam para acentuar os horrores da guerra, ao mesmo tempo em que encaram a função da memória para os replicantes, algo muito explorado no primeiro filme e que deve se repetir no segundo.

A trilha sonora, que emula a de Vangelis em diversos momentos, mantendo a familiaridade sonora, foi composta por Steven Ellison, em artes Flying Lotus, e é muito bem empregada para engrandecer tanto a ação quanto os breves momentos contemplativos. Há uma música cantada nos créditos que, por alguns segundos parece deslocada, mas que funciona bem dentro do contexto do trabalho de Watanabe.

Black Out 2022 é um bombardeio visual e sonoro que não pode ser perdido. Uma bela forma de se preparar para o evento que promete ser Blade Runner 2049.

Direção: Sinichiro Watanabe
Roteiro: Sinichiro Watanabe
Elenco:  Jovan Jackson, Luci Christian, Bryson Bauguss, Edward James Olmos
Data de lançamento: 28 de setembro de 2017
Duração: 15’44” (com prólogo de Denis Villeneuve)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.