Crítica | Blade Runner (Game de 1985)

O histórico de filmes baseados em videogames não poderia ser pior, visto que cada nova tentativa de adaptação trouxe apenas decepções. Infelizmente o mesmo pode ser dito de games que utilizam longa-metragens como base – ainda que o cenário não seja tão catastrófico, são pouquíssimas as obras realmente boas. Blade Runner, lançado em 1985 para o falecido Commodore 64, contudo, não chega a ser baseado no filme de mesmo nome de Ridley Scott, ao menos não no papel. Não tendo os direitos para realizar tal adaptação, os desenvolvedores Andy Stodart e Ian Foster produziram sua obra, alegando que essa é uma interpretação da trilha sonora composta por Vangelis para o filme – o que é dito na própria capa do jogo. Evidente que isso não passa de uma mentira deslavada, utilizada para que os desenvolvedores pudessem surfar nos lucros do longa-metragem de 1982.

Ainda assim, Stodart e Foster tentam esconder sua manobra através da nítida utilização da trilha, ou melhor, variação dela, considerando as especificações do console. Essa tentativa se torna bastante clara quando iniciamos o jogo e ficamos presos por aproximadamente dois minutos enquanto ouvimos uma dessas músicas – pontos para a ousadia da equipe, por mais que ela nos faça acreditar que o jogo travou. Passada essa introdução, pulamos direto para uma espécie de mapa, onde devemos encontrar os replidroids (escrito como replidriods nessa tela) – não podiam chamar de replicantes por conta dos direitos, aparentemente. Com nosso ponto brilhante colocado sobre o ponto correspondente aos andróides, partimos para a essência do jogo em si: um cenário bidimensional no qual devemos correr atrás do replidroid, esquivando das pessoas, até que possamos atirar no alvo, sem obstrução.

Ao analisar um game antigo, é preciso levar em conta as limitações da época – chamar um jogo como Pac-Man ou Space Invaders de repetitivo seria, no mínimo, uma injustiça, podendo até ser considerado um anacronismo. Blade Runner, porém, foi lançado em 1985, no mesmo ano de Super Mario Bros. Por mais que estejamos falando de consoles diferentes, o Nintendo Entertainment System (NES) criou um novo padrão na indústria e não há como perdoar tamanha repetitividade em um jogo lançado um ano antes de Metroid, por exemplo. O jogo em questão resume-se a essas duas telas, jamais oferecendo algo de novo, questão que logo cansa o jogador.

Mesmo uma fase sendo pura repetição da outra, com a dificuldade gradualmente crescendo, claro, os desenvolvedores insistiram em repetir as mesmas “longas” cutscenes repetidas vezes, de forma que, depois de assisti-las duas ou três vezes, sentimos a imediata vontade de desistir do jogo para sempre. Evidente que esse desejo também é fruto dos gráficos pouco inspirados, que sequer tentam diferenciar o inimigo dos pedestres normais, seja pela troca de cor ou um design mais diferenciado. Ironicamente, esse descuido com o visual não se estende para o mapa, no qual devemos encontrar os replidroids ou para os carros que aparecem nas ruas do cenário bidimensional.

O único aspecto que realmente salva essa obra é a sua trilha, o que chega a fazer sentido, considerando a proposta/ desculpa do game. Embora ela seja limitada a três faixas (a tocada no prólogo, a do mapa e a das ruas), elas fazem um bom trabalho quando se trata da imersão do jogador, construindo bem a tensão e fazendo nos sentir como se efetivamente estivéssemos no meio de uma perseguição.

Essa clara adaptação (embora os desenvolvedores digam o contrário) não licenciada de Blade Runner, portanto, é um game extremamente repetitivo, que apenas vale ser jogado (por alguns minutos) pela sua trilha sonora, ou por aqueles que desejam consumir tudo relacionado ao clássico de Ridley Scott. Com gráficos e jogabilidade muito aquém de outros jogos lançados na mesma época, não há como defender essa produção, que, não por acaso, foi esquecida quase que por completo com o passar dos anos.

Blade Runner
Desenvolvedores:
 Andy Stodart, Ian Foster
Lançamento: 1985
Gênero: Shoot ‘em up
Disponível para: Commodore 64, ZX Spectrum, Amstrad CPC

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.