Crítica | Blade Runner (Marvel Comics)

Houve uma época, em passado não tão longínquo assim, em que a Marvel Comics era pródiga na adaptação e publicação das mais diversas obras cinematográficas em quadrinhos. Foi esse esforço da editora que deu o pontapé inicial ao universo estendido de Star Wars, com publicações que começaram com o filme de 1977 e o mesmo valendo para a franquia Planeta dos Macacos nos quadrinhos, além de Indiana Jones e até mesmo 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Uma das publicações fixas da editora que mais trazia adaptações “soltas” de filmes era a Marvel Super-Special em “formatão” e foi lá que Blade Runner foi publicado pela primeira vez, sendo, logo em seguida, dividido em duas partes e publicado no formato padrão americano, com exatamente o mesmo conteúdo.

Apesar do trabalho cuidadoso da Marvel com as franquias Star Wars e Planeta dos Macacos, dentre várias outras, o filme de Ridley Scott infelizmente ganhou uma adaptação muito aquém do que poderia ser, quase que um resumo apressado do conteúdo denso e filosófico da obra que viria um dia a tornar-se um cult sci-fi. O primeiro problema é claramente detectável: enquanto outras adaptações da editora costumavam abranger cinco ou seis edições em quadrinhos, Blade Runner ganhou 46 páginas no total, um espaço diminuto para permitir que o roteiro de Hampton Fancher e David Webb Peoples e os conceitos de Philip K. Dick fossem transpostos de maneira justa para a Nona Arte. O pouco espaço levou ao uso de muito texto que atrapalha a fluidez narrativa, ao mesmo tempo que impediu quaisquer arroubos criativos na arte.

Com isso, o resultado é mais do que desapontador ao ponto de realmente só ser aconselhável a leitura para quem realmente é apaixonado pelo filme e pelo livro original e quer devorar absolutamente tudo que existe em relação a eles. E, mesmo assim, diria que a leitura só é recomendável mesmo se o leitor souber o que esperar para não se irritar demais.

Archie Goodwin, o responsável pelo sucesso em quadrinhos de Star Wars, recebeu a tarefa ingrata de escrever o roteiro conciso em quadrinhos de um filme de duas horas. Pior ainda, um filme que a ação está em segundo, talvez terceiro plano e cujas dimensões filosóficas são o verdadeiro foco. O resultado foi o pior possível. Preso demais à fidelidade, mas sem páginas suficientes para isso, o texto de Goodwin parece aquelas competições para ver quem consegue colocar mais pessoas dentro de um Fusca. O roteirista tenta, tenta, tenta, mas acaba deixando a alma do filme perdida em algum lugar entre escrever demais e deixar de fora justamente os pontos mais importantes. Para o leitor ter uma pequena ideia do que tento passar aqui com meus comentários, o famoso (que, à época, claro, ainda não havia angariado fama, mas que claramente era importante na narrativa) monólogo de Roy Batty no telhado de um prédio quando está prestes a morrer é cortado, com a expressão “lágrimas na chuva” limado completamente da história.

Reputo os problemas dessa natureza não somente a Goodwin, que já havia se mostrado mais do que um excelente roteirista antes, mas também a uma decisão editorial sem sentido de transformar a história em um resumo da Wikipédia do filme. A leitura é vazia e, francamente, mais do que cansativa, mesmo considerando as poucas páginas.

O lápis ficou ao encargo de Carlos Garzón, artista que também já havia provado seu valor, inclusive com Star Wars. O que vemos, portanto, parece-me mais um efeito nefasto da corrida para contar a história em duas edições (ou em uma edição especial curta). Não que a arte seja ruim. Ao contrário, é perfeitamente possível vislumbrar ali os elementos presentes para belos desenhos se o artista tivesse tido espaço não só para driblar os balões de fala e os retângulos de narração que atravancam a progressão dos quadros, como também para trabalhar quadros maiores, sem precisar dividir cada página em um mosaico que distrai e fadiga o leitor. Há elementos demais em cada quadro e a atenção acaba sendo dispersada exatamente quando atenção é algo essencial para a compreensão do cerne da discussão da obra sendo adaptada.

A versão em quadrinhos de Blade Runner é um verdadeiro desserviço ao filme, talvez o pior material de alguma maneira relacionado com esta obra cinematográfica. A Marvel Comics tinha plena capacidade de fazer melhor, como havia provado inúmeras vezes antes e continuaria a provar nos anos seguintes. Infelizmente, porém, o grandioso cult não ganhou uma adaptação em quadrinhos que chegasse aos pés de sua qualidade.

Blade Runner (EUA – 1982)
Roteiro: Archie Goodwin (baseado em roteiro de Hampton Fancher e David Webb Peoples, por sua vez baseado em romance de Philip K. Dick)
Arte: Carlos Garzón
Arte-final: Ralph Reese, Dan Green, Al Williamson
Cores: Marie Severin
Letras: Ed King
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: setembro de 1982 (Marvel Super-Special #22); outubro e novembro de 1982 (Blade Runner #1 e 2)
Editora no Brasil: não publicado
Páginas: 46 no total

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.