Crítica | Blade Runner, o Caçador de Androides (Versão Final – 2007)

Blade Runner, além de ser um excelente filme que marcou sua época e, de certa forma, estabeleceu a forma como “futuros distópicos” seriam abordados na Sétima Arte a partir dali, também é uma forma de se olhar para todo o processo criativo de uma produção de grande estúdio. Afinal, ao analisar as versões originalmente lançadas no cinema e, em seguida, o Workprint e a Versão do Diretor, além do completíssimo documentário Dias Perigosos – Realizando Blade Runner, o cinéfilo terá a oportunidade de navegar pelos meandros políticos, econômicos e criativos que legaram ao mundo a icônica visão pessimista de futuro que, gostando ou não, elevou o sarrafo deste subgênero sci-fi.

E, com isso, chegamos à chamada Versão Final do filme, em que Ridley Scott, finalmente livre dos compromissos que o impediram de trabalhar na Versão do Diretor (lá ele fez, apenas, anotações, que foram executadas por Michael Arick e Les Healey), pessoalmente debruçou-se sobre sua criação e colocou-a da maneira que realmente gostaria (pelo menos até agora…). Como já fiz a análise do filme em si anteriormente, inclusive das alterações importantes trazidas no Workprint e na Versão do Diretor, a presente crítica será restrita às modificações específicas da Versão Final, para evitar textos redundantes.

O aniversário de 25 anos de Blade Runner

Com o objetivo de marcar o aniversário de 25 anos do lançamento do filme original, a Warner trouxe Ridley Scott para trabalhar em mais uma versão de Blade Runner. Apesar dos esforços de Michael Arick e Les Healey para materializar a visão original do diretor em 1992, em um minucioso trabalho de resgate de diferentes cópias da obra para o recolhimento, restauração e aproveitamento de diversas sequências e takes alternativos e da chancela dada pelo próprio Scott ao final, a grande verdade é que a Versão do Diretor ainda tinha diversos problemas técnicos muito visíveis.

De certa forma, a tecnologia disponível em 1992, ainda era rudimentar demais para fazer o que era necessário de verdade, pelo que a espera até 2007 foi muito bem-vinda, especialmente depois que diversos diretores – capitaneados pelo T.O.C. de George Lucas – passaram a mexer em seus filmes clássicos, com resultados variando entre o terrível e o interessante. Scott, então, arregimentou uma equipe e rumores começaram a circular que novas cenas seriam filmadas e inseridas na obra, o que já deixou os fãs desesperados com as possibilidades de se corromper sua obra favorita.

No entanto, ainda que os rumores tenham se confirmado – pois sim, houve novas filmagens – o resultado final comparativo entre a Versão do Diretor e a Versão Final é unicamente estético e não de conteúdo narrativo. São versões que, no frigir dos ovos e para leitores menos detalhistas e exigentes, são praticamente iguais. E isso é bom, na verdade.

Com a nova versão pronta, a Warner, então, lançou-a brevemente nos cinemas em 05 de outubro de 2007, com os DVDs e Blu-Rays seguindo não muito tempo depois, a partir de dezembro. Dentre o conteúdo extra criado para acompanhar a Versão Final, destaca-se o já citado documentário Dias Perigosos que, em 3h34′ disseca detalhadamente a história da produção do filme.

O “pouco” que mudou

A Versão do Diretor já havia consolidado de maneira muito eficiente o grosso do que Ridley Scott desejava: a narração de Harrison Ford foi eliminada completamente, o final feliz foi cortado e, principalmente, o quase mítico “sonho do unicórnio” foi inserido na história, engrossando as fileiras daqueles que suspeitavam que Rick Deckard era um replicante. Todas essas modificações, então, foram carregadas para a Versão Final.

Mas seria uma injustiça enorme não laurear o detalhado trabalho de Scott, juntamente com o restaurador, produtor e documentarista Charles de Lauzirika, que cuidadosamente procederam a uma “limpeza digital” em cada quadro do negativo da película, retirando todos os artefatos indesejados e traços da idade causados pelo tempo. O trabalho de cores também foi todo refeito conforme as instruções de Scott e a trilha sonora (aí incluídas a mixagem e edição de som, não só a música) passou por um processo de remasterização. Hoje, se o espectador comparar as versões disponíveis no Blu-Ray completo que a Warner lançou nos EUA e o quase completo que lanço no Brasil – com exceção do Workprint, claro – ele verá que a qualidade de imagem e som de todas elas são equivalentes, mas isso se dá por esse trabalho feito para a Versão Final que acabou sendo aproveitado nas demais, obviamente. No entanto, se o espectador comparar essas cópias com quaisquer outras anteriores a 2007, será como ver um filme com ou sem óculos tamanha é a qualidade da restauração feita.

Dezenas de outras pequenas alterações na montagem foram feitas, com sequências levemente diferentes da Versão do Diretor, notadamente o “sonho do unicórnio” que, na Versão Final, é mais longo e mais bem inserido na história, com o movimento da cabeça do animal sendo emulado por Harrison Ford acordando ao piano. Além disso, fios e cabos suspendendo veículos e cenários foram apagados digitalmente e detalhes microscópicos como a reação da íris do olho no começo da projeção foram inseridos.

Erros de continuidade foram tratados. O mais famoso deles é na luta entre Leon e Deckard que, no roteiro original, acontecia antes do caçador de androides matar Zhora e todo o figurino e maquiagem da ordem original foi mantido quando houve a inversão. Na Versão Final, Scott e de Lauzirika inseriram alterações digitais quase imperceptíveis para tornar a continuidade mais fluida. O mesmo vale para a sincronização dos lábios de Deckard na sequência em que ele conversa com o egípcio (o rosto do filho de Ford foi usado para isso, já que o ator estava indisponível) ou o número de série na escama da cobra que não batia com o que é falado. São verdadeiras minúcias que só aqueles envolvidos efetivamente com a produção sabiam que existiam, além daqueles fãs mais fanáticos, que provavelmente assistiram diversas vezes as várias versões do filme simultaneamente e avançando quadro-a-quadro, anotando as inconsistências no processo.

O “muito” que mudou

Esse trabalho invisível que descrevi acima e que somente arranha a superfície do que foi feito, foi acrescentado de alterações mais substanciais, mas todas elas voltadas para a forma, não a substância, como já afirmei. São correções de problemas que praticamente todo mundo percebeu e, de uma forma ou de outra, cada um incomodou-se mais ou menos com eles.

O mais gritante de todos, sem dúvida, é a sequência da “aposentadoria” de Zhora, vivida por Joanna Cassidy. A sequência original exigia que a personagem atravessasse várias vitrines de vidro, depois de ser alvejada nas costas por Deckard. Como a cena foi filmada quando a produção já estava acabando, ou seja, depois que os atrasos e o estouro do orçamento já eram problemas seríssimos, não houve tempo para uma preparação maior tanto de Cassidy quando da dublê necessária para o momento. Apesar de as vitrines serem feitas de açúcar, elas ainda cortavam e não havia a possibilidade de se arriscar Cassidy na cena, como aconteceu com Hauer que fez ele mesmo aquele pulo entre prédios na sequência que antecede o monólogo “lágrimas na chuva”. Portanto, o resultado foi que a dublê e sua ridícula peruca são claramente visíveis na sequência, até mesmo distraindo o espectador e retirando-o do projeção.

Na Versão Final, Ridley Scott voltou para a prancheta, chamou Cassidy de volta, e refilmou toda a sequência com a atriz vestida em uma roupa verde para funcionar no chroma-key (o fundo verde usado para a inserção de efeitos digitais) e imitando exatamente os gestos da dublê na sequência, mas sem as vitrines, claro. Depois, seu corpo e seu rosto foram cuidadosamente “copiados e colados” em cima do corpo e rosto da dublê, gerando uma sequência hoje perfeita, como se a própria Cassidy tivesse quebrado todos aqueles vidros.

Outra modificação menor foi a recriação da sequência em que vemos a pomba que estava na mão de Batty voando. A sequência original demorou tanto tempo para ser filmada, que o dia começou a amanhecer, o que estragou toda a pegada sombria e suja do filme todo, além dos detalhes dos prédios que vemos nem de longe baterem com o que havia sido apresentado até aquele momento. Agora, a sequência é perfeitamente fluida e casada com o design da obra como um todo.

Que versão assistir?

Muita gente pergunta que versão de Blade Runner deve ser assistida. Muito sinceramente, a resposta ideal é “todas”, mas, como isso normalmente não é possível por diversas razões, creio que assistir à versão original do cinema e a Versão Final é a segunda melhor forma de determinar a evolução dessa conturbada produção. Se, por outro lado, o leitor só puder assistir a uma delas, então talvez a escolha mais sábia seja a visão final do diretor, já que é a única versão que, na cabeça dele, deve ser levada em consideração.

Blade Runner: Versão do Ritter Fan

Não poderia resistir e terminarei a presente crítica com comentários sobre a minha versão ideal. O leitor atento perceberá que, apesar de adorar esse filme sob todos os aspectos, não dei cinco estrelas para nenhuma versão. E isso se dá simplesmente porque, para mim, as cinco estrelas existem em uma amálgama de três versões do filme: a Versão Internacional de Cinema, o Workprint e a Versão Final.

Para fins da presente abstração, considerem a Versão Final como a versão-base. Nela, eu faria as seguintes modificações:

(1) A reinserção apenas da primeira narração – They don’t advertise for killers in the newspaper. That was my profession. Ex-cop. Ex-blade runner. Ex-killer. –, por considerá-la como algo que estabelece de imediato o tom noir da história, sem ser expositiva demais.

(2) A inserção da última narração, mas não a da Versão Internacional de Cinema, mas sim a do Workprint, em que Deckard revela que Batty demora horas para morrer e que, em meio à sua dor, ele aproveita seus últimos minutos de vida, saboreando o ato de viver. Considero que essa narração dá uma outra dimensão àquele belíssimo momento.

(3) A eliminação da sequência do unicórnio, pois ela é didática demais e acaba com qualquer dúvida sobre Deckard ser ou não um replicante, dúvida essa que considero essencial para a natureza das indagações filosóficas do filme.

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E vocês, leitores? Qual é a versão de Blade Runner que mais gostam?

Blade Runner, o Caçador de Androides – Versão Final (Blade Runner – The Final Cut, EUA/Reino Unido/Hong Kong – 2007)
Direção: Ridley Scott (com trabalho de Charles de Lauzirika)
Roteiro: Hampton Fancher, David Webb Peoples (baseado em romance de Philip K. Dick)
Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, William Sanderson, Brion James, Joanna Cassidy, James Hong, Morgan Paull, Kevin Thompson, John Edward Allen, Hy Pyke
Duração: 117 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.