Crítica | Blade: Trinity

estrelas 0,5

Chega a ser triste assistir Blade: Trinity logo após ter visto Blade II. A ausência de Guillermo del Toro na direção faz uma visível falta e a terceira e última entrada da franquia retorna à qualidade do primeiro, retomando todos seus defeitos e deixando de lado quase todas as qualidades da continuação anterior. Não bastasse isso, o longa-metragem consegue sujar ainda mais o nome do personagem criado por Bram Stoker, na tentativa de nos entregar uma versão modernizada de Dracula – existe, sim, um limitado respeito ao romance do irlandês, mas nada que consiga nos afastar das memórias de outras penosas representações da criatura, como Dracula 2000 ou Van Helsing.

Após matar um ser humano por engano, parte do plano dos vampiros para incriminar Blade (Wesley Snipes), ele e seu mentor, Whistler (Kris Kristofferson) ganham uma atenção ainda maior do FBI. A caçada pelas forças policiais acaba causando a morte dessa figura paterna do protagonista e, sem qualquer outra opção, ele é forçado a se aliar aos Nightcrawlers, um grupo de caçadores de vampiros que conta com a filha de Whistler, Abigail (Jessica Biel) e Hannibal King (Ryan Reynolds) como seus principais membros. Juntos, eles devem acabar com o grupo de criaturas da noite liderados por Danica Talos (Parker Posey), que recentemente ressuscitara Dracula (Dominic Purcell), o vampiro original.

O roteiro, novamente nas mãos de David S. Goyer, não foge do comum e em muitos aspectos nos lembra do primeiro filme, ao lidar com a “solução final” dos vampiros. A necessidade de evolução da raça sempre fora um dos focos da trilogia, mas aqui ela ganha mais espaço através do principal antagonista, que não conta com as mesmas fraquezas de seus descendentes. O vilão, contudo, é totalmente subaproveitado, caracterizado de forma rasa, sem uma motivação evidente – ele simplesmente está ali porque o roteiro assim o quer, em momento algum descobrimos por que ele decidira seguir o plano de Danica, o que entra em conflito com o que descobrimos do personagem: ele entrara em hibernação por livre e espontânea vontade, o que mudara sua opinião? Apenas um dos muitos problemas do texto.

O outro defeito mais gritante de Blade: Trinity é o subaproveitamento do elenco principal. Apesar de Ryan Reynolds nos divertir com algumas (não todas) de suas piadinhas, seu personagem, assim como todos os outros não é sequer minimamente construído. Nos é jogada sua história de origem, mas nada além disso, ao ponto que o espectador não cria qualquer empatia com o personagem. Um exemplo claro disso é a morte dos Nightcrawlers, que, exceto por uma das pessoas, é totalmente ignorada. Não nos importamos nem um pouco com eles, visto que, de fato, não conhecemos nenhuma dessas pessoas. A situação fica ainda mais gritante quando a pequena menina, Zoe (Ginger Broatch), é simplesmente esquecida no final do filme.

O roteiro definitivamente não é ajudado pela direção do próprio Goyer, que opta por esconder a ação através de enquadramentos que não nos permitem enxergar, de fato, o que está acontecendo. A montagem segue pelo mesmo caminho, utilizando inúmeros cortes que apenas conseguem perder o espectador na confusão do que se passa em tela. Felizmente isso, em alguns pontos, acaba mascarando a terrível coreografia empregada que, em alguns pontos, nos faz sentir como se estivéssemos assistindo uma luta da série original de Star Trek, mas aqui cometo uma grande injustiça, pois ver o capitão Kirk brigando é muito mais divertido.

O que mais dá vontade de arrancar os olhos, porém, é a atuação de Parker Posey. Sua representação de Danica é brutalmente dramática, chegando ao ponto de ser puramente ridícula. Em defesa da atriz, muito do que vemos não chega a ser sua culpa e sim de Goyer que a obriga a fazer certas posições (como sentada em cima da mesa de reunião em pose “olha como sou sexy”), ou coloca em sua boca falas extremamente mal-escritas, algo que, de fato, percorre todo o longa-metragem: diálogos repletos de frases de efeito que, no fim, não nos dizem absolutamente nada. Há tanta teatralidade em Danica, que Snipes soa como um ator oscarizável, nos fazendo esquecer de todos os seus maneirismos – aqui, ao invés de nos incomodar, eles nos fazem rir, já que não dá para se levar esse filme a sério.

Blade: Trinity é o pésssimo desfecho de uma trilogia que de bom só tem o segundo filme. Com atuações medonhas, coreografias ridículas, roteiro lastimável e uma direção que só faz o espectador se perder ainda mais, trata-se de um longa-metragem que gostaríamos de esquecer com todas as nossas forças, um filme de ação que sequer consegue nos divertir, tamanha a proporção de seus defeitos. Não é a toa que o personagem foi enterrado depois dessa tragédia.

Blade: Trinity — EUA, 2004
Direção:
David S. Goyer
Roteiro: David S. Goyer
Elenco: Wesley Snipes, Kris Kristofferson, Parker Posey, Jessica Biel,  Dominic Purcell, Ryan Reynolds, John Michael Higgins, Callum Keith Rennie, James Remar, Natasha Lyonne
Duração: 113 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.