Crítica | “Blonde” – Frank Ocean

estrelas 5,0

Os eventos que antecederam o lançamento de Blonde, segundo e novo álbum de Frank Ocean, formam uma linha cronológica absurda, dolorosa para grande parte dos admiradores do trabalho do rapper. Em julho de 2015, Frank prometia, através de seu tumblr, lançamento de seu novo disco para aquele mês, bem como uma revista nomeada Boys Don’t Cry. Julho passou, assim como agosto, setembro e o resto do ano. Logo os fãs já se mostravam desesperados, afinal, o que houve com o disco? Nenhuma declaração foi realizada, a total ausência de Frank das mídias sociais só aumentava as dúvidas. O ano virou e o mistério continuava. Uma massiva chuva de memes infestava a internet, notícias e especulações apareciam por toda parte sobre possíveis datas. Para muitos, Frank parecia brincar com os fãs. A espera foi, finalmente, cessada na última sexta com o lançamento do visual album Endless. Eis que o cantor surpreende novamente no dia seguinte: era liberado seu álbum oficial, Blonde.

E diante de uma pressão tão grande vinda do público, principalmente depois da excelência de Channel Orange, o que ele oferece em Blonde é justamente o que pediam: uma fração de si mesmo, o ser humano Frank Ocean. A obra é completamente centrada na figura de seu autor, seu passado e presente, suas angústias, mémorias, medos e paixões, tudo realizado com uma delicadeza e esmero impressionantes. Frank vai caminho contrário ao estilo explosivo de super produções desse ano – a chuva de produtores de Anti de Rihanna e Lemonade de Beyoncé, por exemplo – e aposta em canções intimistas, contidas basicamente em simples arranjos de cordas e notas de piano, fazendo um proveito extraordinário desses detalhes.

Dos efeitos distorcivos de hélio na voz introdutória de Nikes, passando pela sincera declaração de amor nos belos acordes de Ivy – faixa sobre um relacionamento de Frank na adolescência – e na sutileza angelical do arranjo de Pink  + White, com breve presença de Beyoncé, remontam um ótimo início de disco que já nos insere no subconsciente do compositor. A simplicidade nesses arranjos é muito bem acertada, dando suporte e destaque às rimas/letras sempre de maneira bastante inteligente. Perceba como as batidas de Nights crescem e decrescem com o intuito de nos relacionar ao dia a dia de Frank (My everyday shit/ Everynight shit), assim como surpreende na mudança de tom para uma segunda parte bem mais calma e intimista.

Self Control é uma das canções de amor mais frágeis, sinceras e belas vistas nos últimos anos. Frank canta sobre a pessoa por quem está apaixonado, sobre o quanto pensa nela e, através de uma virada espetacular no instrumental, sua decepção com esta mesma, nos presenteando um refrão recheado com um arranjo de vozes belíssimo, capaz de arrancar lágrimas. Pretty Sweet é uma faixa bem experimental, cheia de sintetizadores enraivecidos onipresentes, que soa como uma rádio na cabeça do compositor, tentando encontrar a frequência certa em meio a uma vasta quantidade de pensamentos. Skyline To, produzida pelo amigo de Odd Future, Tyler The Creator, segue receita parecida, cheia de pensamentos randômicos de Frank, com direito a Kendrick Lamar sussurrando “tentações” para consumo de drogas nos ouvidos do cantor. Aqui, perceba um ponto interessante de que tudo é feito afim de manter o foco na ideia do álbum, já que até as participações de maior renome – Kendrick e Beyoncé – seguem performances indetectáveis, funcionando como “segundas vozes” muito bem escondidas.

Todos os interludes presentes no álbum são interessantes escolhas. Be Yourself mostra uma voz, supostamente representando a mãe de Frank, dando um discurso para seu filho fugir das drogas, uma transição de importância enorme para nos localizar, novamente, nos problemas do cantor com drogas, os quais ele aparenta tentar evitar. Facebook Story é a gravação de uma história contada pelo produtor francês SebastiAN sobre uma ex-namorada sua que terminou o relacionamento com ele achando que este era infiel a ela através da rede social. Ainda há outras faixas de curta duração que chamam atenção, como a tristeza “bêbada” quase improvisada ao piano em Good Guy, as rimas furiosas de Andre 3000 em Solo (Reprise), ou o reboot do cover de Stevie Wonder ao The Carpenters, Close To You.

Blonde abre muita intrepretação, afinal, vem da mente única de seu artista. Seigfried, por exemplo, pode ser discutida de diversas formas, alguns dizem que se trata de uma referência ao nome Siegfried, valente guerreiro do folclore nórdico (o que explica os versos gritados “Eu não sou valente!”) e alguns já afirmam menção a Siegfried Sasson, poeta britânico de guerra que era bissexual, assim como Frank. Da mesma forma, o belo e simples pop de Solo deixa em suas letras interpretações bem diferentes. Pode ser interpretada tanto como uma canção do rapper sobre a vida sozinha que ele e tantos costumam levar, ou sobre sua relação e carência por drogas (so low) – no fundo, a resposta parece ser um pouco de ambas as ideias.

Claro, um álbum de Ocean que preze não pode faltar referência a carros, sua grande paixão. Nesse caso, vemos aqui White Ferrari, uma linda metáfora do cantor para uma relação amorosa a qual ele depositou muito sentimento e que carregará sempre consigo. Godspeed parece uma sublime canção nos moldes clássicos do Soul, um arranjo calcado nas notas trágicas do piano, um tom quase gospel. Futura Free encerra o disco abordando as experiências do autor, desde fama até sua vida sexual, tudo por cima de um arranjo que nos faz ter a impressão de estarmos localizados em um sonho, seja devido ao efeito de voz, as batidas leves, as notas de teclado muito bem espaçadas, ou a gravação derradeira que soa como uma lembrança na mente do cantor.

Blonde é um presente enorme de Frank Ocean aos admiradores de sua música que esperaram tanto tempo, muitas vezes sem esperanças, por seu próximo trabalho. O autor se desvencilhou da gravadora (cumprindo, antes, seu contrato e entregando Endless) afim de oferecer uma experiência diferente, tocante e extremamente poética. E não se resume a apenas um dos maiores álbum mainstream nesse ano, mas, tenha certeza, um influente disco para o futuro da indústria musical.

Aumenta!: Self Control
Diminui!: –

Blonde
Artista: Frank Ocean
Lançamento: 20 de agosto de 2016
Gravadora: Independente
Estilo: R&B, Soul, Rap

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.