Crítica | Bloodline – 1ª Temporada

estrelas 3,5

Bloodline é um drama familiar produzido pelo Netflix em sua impressionante e extremamente variada linha de produção de séries exclusivas. Há o drama político House of Cards, a comédia Lilyhammer, a comédia dramática Orange is the New Black, o terror Hemlock Grove, a animação (para adultos) Bojack Horseman e o anime Knights of Sidonia, isso só para citar alguns.

Com tanta oferta, é possível que Bloodline passe despercebido. Mas não deveria. Apesar da expressão “drama familiar” afastar alguns e o trailer da série ser críptico ao ponto de talvez não criar atração ou empatia, o fato é que o elenco, por si só, já vale o esforço de assistir aos 13 episódios. E, somado a esse fator, a história engana, mas engaja. A narrativa começa lenta, se arrasta aqui e ali, mas, aos poucos, tem o potencial de conquistar o espectador com uma combinação muito boa de “novelão” com suspense.

Sem entregar muito a história – essa crítica não tem spoiler -, somos apresentados à família Rayburn, dona de uma tradicional e paradisíaca pousada em um condado na Flórida, naquele arquipélago unido por pontes conhecido como Keys. Tudo vai muito bem e a família está prestes a ser homenageada pela cidade com a inauguração de um píer com seu nome.

O reverenciado patriarca de poucas palavras é Robert Rayburn (Sam Shepard), casado há muitos anos com a amada e carinhosa Sally (Sissy Spacek). Eles têm três filhos morando nas proximidades: John (Kyle Chandler), policial casado, certinho e com dois filhos; Meg (Linda Cardellini), bela advogada que namora há cinco anos com Marco (Enrique Murciano), parceiro de John e Kevin (Norbert Leo Butz), estourado dono de um pequeno estaleiro. Há completa harmonia nessa família, mas, como John, que também faz as vezes de narrador, deixa claro logo nos primeiros segundos de projeção, as coisas começam a dar muito erradas a partir da volta do irmão mais velho e aparentemente preferido da mãe, Danny (Ben Mendelsohn), considerado a ovelha negra da família.

Comandado pela trinca que criou Damages, Bloodline conta com artifícios narrativos que criam inegável curiosidade, ainda que não sejam terrivelmente originais. O primeiro deles, como mencionei, é o uso de narração por parte de um dos personagens, narração essa que ocorre a partir de algum momento no futuro. Mas, assim como em True Detective, esse narrador pode ser chamado de “narrador não confiável”, ou seja, o espectador não sabe exatamente o que esperar dele, o que imediatamente lança dúvidas sobre todos os acontecimentos. Outro artifício é o flash forward, mas aqueles que imediatamente fizeram conexão com Lost e torceram o nariz (como eu torceria), podem ficar tranquilos, pois o uso é muito mais parcimonioso e integral à narrativa, criando suspense e um montagem não-linear intrigante, com saltos temporais que só confundem quando os showrunners querem efetivamente confundir. Além disso, há também discreto uso de flashbacks com filtros “de sonho”, que aos poucos vão pavimentando aquilo que assistimos, sem atrapalhar a progressão narrativa.

Em termos de roteiro, a temporada se sustenta bem, mas fica evidente a curva de construção de personagens. Aos poucos vemos que a família perfeita não é tão perfeita assim, pois a presença de Danny precipita vários acontecimentos que mostram as verdadeiras personalidades de cada um e, lógico, um misterioso – mas não tanto – segredo do passado. O tema de “paraíso perdido” ou maculado é, diria, exageradamente esfregado na cara do espectador. As belas tomadas de praias, auroras e crepúsculos, algo lugar-comum na série, se chocam com a gravidade dos acontecimentos de maneira óbvia. Não é algo que se pode dizer que não é orgânico ou não faz sentido, já que temos que considerar o local onde se passa a história, mas um pouco menos de mão pesada na direção para mostrar esse contraste teria sido bem vindo.

Há, também, certa lentidão na primeira metade da temporada, mas essa lentidão acaba sendo justificada pelo fato de estarmos lidando com uma história em tese prosaica, de uma família unida comemorando uma ocasião especial. Faz parte da narrativa a vagarosidade com que ela é contada, mas entendo se alguns acharem repetitivo e enrolador. No entanto, a segunda metade é repleta de suspense, com alguns episódios que deixarão o espectador roendo as unhas e os quatro finais têm ritmo alucinante (dentro do conceito do drama proposto) e fecham, com eficiência, um ciclo narrativo. As pontas soltas que acabam ficando para formar uma espécie de cliffhanger light são “marotas” e podem parecer aleatórias, mas se o espectador parar para pensar e mentalmente estabelecer uma linha de tempo, perceberá que elas sempre estiveram presentes, ainda que, lógico, só realmente apareçam bem no finalzinho.

Mas, como mencionei, o que realmente encanta são as atuações. Sam Shepard (Os Eleitos) e Sissy Spacek (Carrie, a Estranha) estão muito à vontade em seus respectivos papéis, convencendo-nos de suas respectivas posições de chefes de um clã admirado na região. Entre os filhos, o destaque fica mesmo com Ben Mendelsohn no papel do misterioso Danny, recebido com abraços pela mãe e uma certa indiferença pelo pai. O personagem é extremamente bem construído pelo ator, que transita entre serenidade e raiva contida, sem nunca se deixar ser afetado com uma performance histriônica. Ele é o retrato de um passado complicado que vem desaguar a partir de sua mais recente volta ao seio familiar, depois de alguns anos ausente. Como filho mais velho, ele tem uma visão diferente da família e sua mera presença faz explodir os mais diversos sentimentos ao seu redor.

E o filho que mais sente a tempestade chegando é, claro, John (Kyle Chandler, o astro de Friday Night Lights), o segundo mais velho e o mais certinho deles, com uma promissora carreira como detetive de polícia. Ele é uma muralha contida de sentimentos conflitantes e Chandler mostra isso com uma performance que quase chega a rivalizar a de Mendelsohn. Mas Linda Cardellini como Meg e Norbert Leo Butz como Kevin, fechando o quarteto de irmãos, trazem personalidades diversas e perfeitamente adaptadas ao seu ambiente. No final das contas, os seis membros do seio familiar têm uma dinâmica invejável, que pouco se vê em séries por aí.

Bloodline é mais um acerto do Netflix. Não é, confesso, algo que explodirá as mentes dos assinantes, mas a temporada inaugural desse drama é sólida e prenderá aqueles que derem uma chance a ela.

Bloodline – 1ª Temporada (EUA, 2015)
Showrunner: Todd A. Kessler, Glenn Kessler, Daniel Zelman
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Kyle Chandler, Ben Mendelsohn, Linda Cardellini, Norbert Leo Butz, Jacinda Barrett, Jamie McShane, Enrique Murciano, Sam Shepard, Sissy Spacek, Chloë Sevigny, Steve Pasquale, Mia Kirshner, Eliezer Castro, Glenn Morshower, Gino Vento, Frank Hoyt Taylor, Katie Finneran
Duração: 49 a 65 min. por episódio (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.