Crítica | Blue Jasmine

estrelas 5

Woody Allen talvez nunca tenha escrito um papel tão desagradável e ao mesmo tão irresistível quanto o de Jasmine em seu mais novo filme. Com diálogos espertos, mas sem encobrir os defeitos de seu personagem, o roteirista e diretor constrói um drama pessoal pesado com tons de comédia que deixará o espectador odiando, mas também torcendo pela protagonista.

Esses sentimentos aparentemente contraditórios que emergem muito rapidamente ainda com segundos de projeção são mantidos e aprofundados ao longo de Blue Jasmine sequência após sequência, mesmo quando o personagem central não está presente. Mas é muito provável que Allen não tivesse conseguido arrancar esse resultado se a atriz vivendo seu personagem não fosse Cate Blanchett. Ou talvez ele tenha criado Jasmine com a atriz em mente, tamanha é a perfeição com que ela encarna o personagem.

Perfeitamente equilibrando um ar aristocrático pedante (seria esse um pleonasmo?) e a encarnação do desespero, da amargura e, também, da desilusão, Blanchett nos envolve completamente na vida de Jasmine assim que a vemos sentada em um assento de primeira classe de um avião, contando sua vida glamourosa para uma senhora (Joy Carlin) ao seu lado. Allen filma a sequência de forma que nós tenhamos a impressão – certeza mesmo – de que as duas são grandes amigas viajando juntas, apenas para ele desfazer a percepção nem bem um minuto depois se utilizando de close-ups discretos do olhar de inquietude da senhora que, na verdade, não tem escolha a não ser ouvir a história apenas por estar coincidentemente sentada em uma cadeira ao lado de Jasmine, que nunca antes vira. A cena termina já na esteira de malas, com a senhora literalmente se desvencilhando das garras pegajosas e chorosas de Jasmine e fugindo.

É esse o tom do filme. Jasmine, antes casada com um milionário (Hal, vivido perfeitamente por Alec Baldwin) e moradora de uma cobertura em Nova Iorque, perdeu absolutamente tudo. Ela parte para São Francisco (de primeira classe, reparem no detalhe) não para passear ou para fazer uma visita social, mas sim para morar com a irmã que pouco vê e que desgosta por nunca ter ascendido socialmente. Jasmine não tem para onde ir e Ginger (Sally Hawkins) é seu único porto seguro, sua única alternativa.

Ginger, por sua vez, apesar dos problemas pelos quais ela e seu primeiro marido Augie passaram por causa de Hal, ainda encara a vida de frente, sem se esconder atrás de fachadas e sem fingir ser mais do que é. Ela é quase o exato oposto de sua irmã – ambas são adotivas, como Jasmine deixa claro logo quando pode – e vive em seu apartamento pequeno em São Francisco com seus dois filhos perto da obesidade e namorando um homem, Chili (Bobby Cannavele), que dá nojo a Jasmine, como se ela tivesse direito de sentir isso por alguém que a acolhe tão calorosamente.

Sua adaptação a nova vida demora. Na verdade, ela nunca verdadeiramente vem, já que Jasmine não tem rumo e o máximo que consegue é o emprego de recepcionista de um dentista (Michael Stuhlbarg fazendo o papel de Woody Allen, digo, Dr. Flicker) que se afeiçoa dela, para seu total horror. Sua única saída, claro, é arrumar um marido e, para isso, agarra a primeira oportunidade que consegue, criando, em sua ilusão, um passado totalmente novo para ela, baseado em um futuro de faz-de-conta que Ginger  monta na mais completa inocência.

O filme tem uma cadência gostosa, com uma mistura impecável de cenas no presente e flashbacks na alta sociedade mostrando o que era a vida de Jasmine e com ela veio a ruir. Há surpresas na fita, que vão sendo desveladas aos poucos para o espectador, ainda que todos os personagens já saibam. Essas pequenas surpresas aqui e ali dão uma dimensão gigantesca à Jasmine e conseguimos entender o quão alto ela chegou, somente para cair vertiginosamente do paraíso.

O interessante é ver a facilidade com que Cate Blanchett não só abraça seu papel, mas como ela faz Jasmine combinar tanto com os milionários nova iorquinos, como com os trabalhadores de São Francisco e um novo pretendente entre uma “categoria” e outra que acaba arranjando. Nós vemos Jasmine como ela é em todos os momentos, na aparente felicidade, assim como no ponto mais baixo de sua tristeza, passando por momentos de alívio. Ela é sempre ela, mas sempre combinando perfeitamente com cada ator à sua volta, todos eles tão bem inseridos em seus respectivos papeis como ela. Não me surpreenderia um festival de indicações de melhores atores e atrizes para esse filme e algumas vitórias para Blanchett.

Ficamos presos à odisseia de Jasmine do começo ao fim, detestando sua atitude, mas amando a atuação de Blanchett. Ficamos irritados com as frases que saem da boca de Jasmine, mas boquiabertos com as inflexões de Blanchett. Ficamos desesperados pela desesperança de Jasmine ao mesmo tempo em que nos enamoramos pela dedicação de Blanchett. Se Woody Allen queria maximizar o sentimento de amor e ódio de seu público, ele conseguiu um feito com a triste Jasmine.

Blue Jasmine (EUA, 2013)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins, Andrew Dice Clay, Bobby Cannavale, Max Casella, Michael Stuhlbarg, Joy Carlin, Allen Ehrenreich, Kathy Tong
Duração: 98 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.