Crítica | “Blue & Lonesome” – The Rolling Stones

estrelas 4,5

The Rolling Stones. A banda mais “raízes do rock” ainda em atividade, que desde A Bigger Bang (2005) não lançava um disco de estúdio, chegou em 2 de dezembro de 2016 com Blue & Lonesome, álbum cover que traz canções icônicas do gênero musical que historicamente abraça a dor do povo negro americano. Um gênero que faz parte da carreira dos Stones mesmo antes de serem uma banda, e estava lá, em abril de 1962, quando Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones se encontraram pela primeira vez no Ealing Jazz Club, em Londres.

Após o lançamento de A Bigger Bang, os Stones dedicaram-se quase exclusivamente às turnês. Em 2012 a banda comemorou 50 anos de existência e esperava-se alguma notícia sobre um disco, mas ela não veio. Alguns singles foram lançados, uma série de álbuns ao vivo também, mas nenhum registro completo e inédito. Só depois do histórico show da banda em Cuba, para 1,2 milhão de pessoas (março de 2016), que ficou evidente a chegada de um projeto novo, surgido de maneira descompromissada, em ensaios dos músicos no British Grove Studios, em Chiswick, Londres. Para “esquentar”, resolveram tocar alguns blues clássicos. Surgia ali uma ideia.

Embora tenha sido inteiramente gravado em apenas 3 dias, Blue & Lonesome teve um longo período de conceito, produção e pós-produção, que somados, dá a história da própria banda, constatação a qual o próprio Mick Jagger chegou, em uma das primeiras entrevistas de divulgação do disco. Aqui estão matizes perfeitamente identificáveis por qualquer um que tenha ouvido pelo menos um álbum do início da carreira do grupo. Mas há também uma precisão histórica e musical tremendas e escolhas tão acertadas dos músicos e dos produtores Don Was e The Glimmer Twins (que na verdade é o pseudônimo do “híbrido” Jagger/Richards), que faz de Blue & Lonesome algo bem maior do que uma jornada nostálgica ou uma série de covers de blues. O álbum mostra músicos imensamente experimentes, que não precisam provar mais nada para ninguém, criando e recriando em cima de sons que fizeram parte de suas vidas pessoais e musicais.

Uma palhinha da primeira música…

Nesse âmbito, somos obrigados falar aqui do senhor Mick Jagger, que na ocasião do lançamento desse disco conta com 73 anos de idade. O cantor alcança, com uma limpeza tremenda, todos os registros tonais das faixas, mesmo os mais altos. É claro que percebemos seu timbre afetado pelo tempo, afinal, são 73 anos de vida, mas não há falhas nos vocais de Jagger, nem aquelas falhas normalmente atribuídas à passagem de um período de notas muito agudas para as médias ou mais graves em trechos diferentes das canções. O cantor aqui está impecável. E vejam, isso não é apenas um caráter da “facilidade de se cantar bem em estúdio”. Peguem o show dele na Olé Tour aqui no Brasil (2015) e no Havana Moon, em Cuba, (2016), para comprovar a qualidade musical ainda vibrante desse septuagenário cheio de energia. Outra coisa a ser destacada é o seu registro com a gaita no álbum, que marca com beleza o tema do disco, a homenagem principal a um ícone do gênero (falarei disso mais adiante) e o tom nostálgico que rememora discos como The Rolling Stones (1962) e 12 X 5 (1964).

Seria chover no molhado falar de Ronnie Wood e do glorioso Keith Richards nas guitarras, de modo que podemos apenas dizer que eles seguem mantendo em alta o espírito da banda. A diferença aqui se dá com Charlie Watts. Para quem conhece um pouquinho da estrutura musical do blues, sabe que a bateria não pode ser menos que perfeita, pois ela tem um grande papel de destaque na identidade das canções, principalmente nas finalizações. E Watts tem aqui um dos seus melhores momentos gravados. Dá gosto de ver o nível do quarteto nessa tardia, mas merecida homenagem a um universo musical que tanto admiram.

***

O disco é aberto por Just Your Fool, originalmente um jazz & jump blues, composto por Buddy Johnson em 1954. A versão que os Stones trazem para este seu 25º álbum veio de uma gravação de Little Walter (o músico mais homenageado do disco) realizada em 1960, com adaptação para a vertente Chicago blues. A diferença aqui está no tempo-médio adotado em relação à versão de Little Walter, o que destaca a toada mais próxima ao rock e, claro, tem a cara dos primórdios do conjunto britânico.

Commit a Crime é um blues mais tradicional que a faixa anterior, com uma marcação de tempo e arranjo padrão. Existe, no entanto, algumas progressões que trazem pontuais referências ao blues, do álbum Aftermath (1966). A elegância e simplicidade da bateria evocam o jazz (as escovinhas nos pratos, por exemplo) ou adicionais destaques do prato no decorrer dos versos mais descritivos trazem a sensação de crescimento na reta final (lembram-se dos blocos de Goin’ Home, em Aftermath?), com maior presença das guitarras e força nos vocais de Jagger, que parecem ter saído mesmo de uma gravação dos anos 60, dado o eco adicionado para ressaltar esse “envelhecimento” sonoro, característica presente em todo o disco, só que com intensidade diferente, dependendo da canção.

Composta em 1949 por Memphis Slim e com clássica e belíssima gravação de Little Walter, Blue and Lonesome é um dos registros mais tocantes do disco, a minha favorita. Gaita e guitarras em execuções delicadas e inesquecíveis e uma letra que diz muito sobre o espírito do próprio disco. Musicalmente, a faixa seguinte, All of Your Love, mantém semelhanças com Blue and Lonesome, mas a interpretação de Jagger muda, ganha força (uma das faixas de maior exigência tonal para ele no disco) e tem como apoio duas mudanças sensacionais ao longo da faixa, uma partindo do piano (lembra Melody, de Black and Blue, 1976) e outra com a gaita na reta final. Já em outro ritmo e com a essência melódica (guitarras) da era de Brian Jones, I Gotta Go tem uma marcação na bateria e arranjos que nos levam imediatamente para I Just Wanna Make Love To You, de 1964, uma faixa mais próxima do rock, mais intensa e mais dançante.

Everybody Knows About My Good Thing, de Miles Grayson e Lermon Horton, é gloriosamente sequestrada por Keith Richards e tem um tom de brincadeira — ou confissão? — na voz de Jagger que torna a faixa uma das mais simpáticas, mais aberta a variados gostos do que todo o restante do projeto. Na sequência, Ride ‘Em On Down, um Blues-rock clássico com óbvio destaque dos dois guitarristas, Keith Richards e Ron Wood (os solos são tão deliciosos que dá vontade de voltar e ouvir várias vezes). Já Hate to See You Go é a faixa menos exigente do disco, não necessariamente fraca, mas em comparação com as outras — especialmente em um gênero com tantas semelhanças melódicas — fica aquém do esperado. Os vocais e a gaita estão excelentes, mas não existe aqui o grande impulso que vemos nas outras canções. Uma maior intervenção para incrementar nem que fosse a bateria nessa faixa faria muito bem à versão da banda.

Na reta final temos o “blues de rancho” Hoo Doo Blues que novamente exige muito de Mick Jagger, que entrega uma interpretação digna de aplausos, indo dos graves baixos à la Howlin´Wolf e segurando os versos com grande naturalidade. Little Rain é tremendamente concisa, mas vem da tradição musical negra nos Estados Unidos, executada aqui com tanto respeito ao gênero e cuidado em não tornar a faixa nada que ela não deveria ser, que imaginamos uma cena qualquer de um western tendo essa composição na trilha sonora. Esta talvez seja a obra mais “intimamente blues” do álbum. Just Like I Treat You é uma volta ao rock blues, mas ao invés de ter uma despedida bem à sua imagem maior, com tempo mais intenso e guitarras em riffs rápidos, a banda optou por encerrar essa jornada com a sensacional I Can’t Quit You Baby, composta por Willie Dixon e gravada originalmente por Otis Rush, em 1956. Jagger aproveita para dar mais um show de como cantar, gritar, uivar e fazer desse o blues mais deliciosamente arrastado e pegajoso — obviamente, no bom sentido — que eles já gravaram. Um final feito para dançar, para viajar, para agradecer aos Stones por esse baita presente de Natal antecipado…

Blue & Lonesome é uma libertação, um tributo, uma memória emotiva e musical dos Rolling Stones que só agora ganhou a “luz do som”. Muitas coisas recorrentes na discografia da banda aparecem aqui, sob nova roupagem e com músicos marcados pelo tempo, mais experimentes e que sabem medir o quanto de floreios e modificações uma canção clássica deve ter. Abraçando um som que amam e homenageando-o com excelência, a banda nos entrega um disco que, em uma pequena frase, é tanto uma viagem no tempo, quanto uma volta para casa.

Aumenta!: Just Your Fool
Diminui!: —
Minhas canções favoritas do álbum: Blue and Lonesome e Everybody Knows About My Good Thing

Blue & Lonesome
Artista: The Rolling Stones
País: Reino Unido
Lançamento: 2 de dezembro de 2016
Gravadora: Polydor
Estilo: Blues, Electric Blues

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.