Crítica | Blueberry: Tempestade no Oeste (1964)

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Seguindo-se imediatamente aos eventos de Forte Navajo (1963), Tempestade no Oeste foi uma história originalmente publicada entre as edições 236 e 258 da Revista Pilote, no ano de 1964, ganhando sua primeira versão em álbum em 1966, pela Dargaud. Aqui temos as terríveis consequências da irresponsabilidade e do racismo que cegaram o Major Bascom, traindo um acordo inicial com Cochise (ação rejeitada pela maioria esmagadora dos seus soldados) e colocando a Cavalaria Americana do Forte Navajo em perigo, assim como os civis, entre eles homens velhos, mulheres e crianças.

Para começar, é necessário expor uma questão estilística para o leitor. O roteirista Jean-Michel Charlier varia um pouco a toada mais “simpática e desregrada” que nos apresentou de Blueberry na aventura anterior, causando um pouco de desconforto pelo uso de alguns xingamentos vindos do personagem contra os índios e também pela perspectiva que o texto adota, às vezes apresentando uma visão dual daquilo que está acontecendo (o que é bom); às vezes tomando um único ponto de vista para uma determinada situação (o que não é necessariamente bom). Essa opção de escrita, porém, é para dar o máximo de nuances possíveis para cada lado, mesmo em seus vícios e olhares tortuosos, explorando os preconceitos (ocultos ou não), mostrando ações históricas de índios e americanos e, claro, criando com esses elementos históricos e culturais uma série de coisas que prendam o leitor e empurrem  saga para frente. Assim, reclamar de exposições ideológicas de soldados americanos do século XIX não é exatamente algo sábio a se fazer aqui. Mas isso não nos impede de questionar a forma como Blueberry é apresentado na maior parte dessa história. Ele deveria ser a exceção à regra, por excelência. Mas não parece.

Meu maior incômodo em Tempestade no Oeste repousa justamente sobre o protagonista. Quando foi criado, o autor o apresentou com uma boa quantidade de características físicas, colocando-o como um “militar fora da curva”, que não desobedecia ordens à primeira vista, mas manipulava as coisas para acontecerem do jeito que ele julgava certo. E a principal de todas essas características era o fato de Blueberry, já há algum tempo em sua vida (em seu passado ele pensava bem diferente a respeito dessas questões), ser contra todo o tipo de segregação e preconceito. Com quê então o vemos aqui agindo algumas vezes como um personagem racista ou sendo emotivamente birrento e não muito estrategista como demonstrara em Forte Navajo. Juntas, essas variações de comportamento nos fazem torcer um pouco o nariz para o desenvolvimento do personagem, embora ele ainda mantenha, no conjunto da obra, o seu peculiar encanto.

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Uma missão que deveria ter sido abordada de maneira mais ampla.

A ação é o ponto forte da edição, e mesmo com os momentos incompreensíveis de Blueberry, Tempestade no Oeste carrega ótimas críticas em relação à inclusão de indivíduos de outras etnias no Exército Americano (questão histórica bastante forte no país, mas não necessariamente na época em que esta trama se passa. Tudo, porém, funciona perfeitamente dentro da licença poética) e aos acordos territoriais e de paz que eram feitos entre colonizadores e nativos das mais diversas tribos. Como leitor de Tex (a propósito, não pude deixar de lembrar de O Profeta Indígena na trilha final de Blueberry e Crowe em direção ao acampamento dos Mescaleros), eu sempre espero uma maior parcimônia do “herói” no tratamento com seus inimigos, neste caso, exclusivamente indígenas. A batalha em Tucson, por exemplo (que me lembrou outra história de Tex, Chumbo Ardente), choca pela forma como Blueberry lida com os nativos, mesmo. E é bom deixar claro que trago à tona essa situação exatamente para contrastar os diferentes tratamentos de dois grandes quadrinhos europeus ao mostrar um mocinho lidando com índios e na rota de cumprir uma missão, não para cobrar atitudes de um, em outro.

Na última parte da aventura temos talvez o maior deslize do núcleo do enredo. Não é exatamente algo grandioso, a ponto de estragar a leitura, mas só o fato de aparecer uma “segunda missão” sem que tivesse inserida no todo da história, manchou o desfecho. Todavia, se tem algo bom nessa parte da trama, é o cuidado da arte de Jean Giraud (paradoxalmente, com finalização um tanto descuidada no miolo do quadrinho) que nos deixa na expectativa, observando os tiroteios, as fugas, o encontro de esconderijos e a interessante diagramação das páginas para adequar de forma correta o tempo das ações. A despeito da forma boba como a trama termina, deixando uma mensagem de esperança que vem rápido demais, ela não padece tanto porque é amenizada pela arte. A perspectiva de paz é lançada e alguns destinos colocados no fio da navalha. Sobra para o protagonista a responsabilidade de evitar uma torrente de sangue. Uma responsabilidade aqui assinalada como o tema (ou um dos temas principais) do volume seguinte da saga.

Blueberry #2: Tempestade no Oeste (Tonnerre à L’ouest) — França, 1964
Edição original: 
Revista Pilote
Edição original em álbum: Dargaud
No Brasil: Blueberry #1 (Abril, 1990)
Roteiro: Jean-Michel Charlier
Cores: Claudine Blanc-Dumont (a partir da reedição de 1994)
Arte: Jean Giraud (Moebius)
48 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.