Crítica | BoJack Horseman – 1ª Temporada

estrelas 2,5

BoJack Horseman é uma interessante sátira ao culto à celebridade feita em forma de uma sitcom em desenho animado. É mais uma produção exclusiva do Netflix, que abraçou a oferta de um vasto leque de séries como parte integral da estratégia da empresa.

Criada pelo comediante americano Raphael Bob-Waksberg, a série oferece uma premissa engajante, mas que não se realiza completamente, pelo menos não nessa primeira temporada. Em um mundo em que seres humanos vivem lado-a-lado com animais antropomorfizados, o personagem título (voz de Will Arnett, o Gob Bluth de Arrested Development), um cavalo (literal e figurativamente) ator de 40 e poucos anos que ficou milionário e conhecido por viver apenas um personagem em uma série de TV há 20 anos (a fictícia Horsin’ Around, que é uma versão de Três É Demais), resolve trabalhar com uma ghost writer humana (Diane Nguyen, voz de Alison Brie) para escrever sua biografia como forma de reiniciar sua carreira.

Essa premissa permite que organicamente aprendemos muita coisa sobre BoJack, que vive em uma mansão sobre palafitas nas montanhas de Los Angeles com Todd Chavez (voz de Aaron Paul, de Breaking Bad),  que simplesmente chegou ali cinco anos antes para uma festa e nunca mais saiu. Sua agente, a gata rosa Princesa Carolyn, tenta recolocar BoJack no difícil mundo hollywoodiano, mas a cavalice (com trocadilho) de seu cliente impede qualquer sucesso nessa empreitada.

Se olharmos de longe, podemos pensar em dezenas de atores que se encaixam no perfil de BoJack e a perversidade do sistema estabelecido em Hollywood é o óbvio alvo do veneno do showrunner e de seus roteiristas. Celebridades vêm e vão no espaço de poucos anos e o sucesso de hoje é o fracasso de amanhã com uma facilidade enorme. O público, os executivos, os agentes, os publicitários e todos aqueles envolvidos na máquina do entretenimento endeusam determinados astros com a mesma facilidade que, meses depois, os galvanizam debaixo de críticas e de eventuais tentativas fracassadas de se reerguer.

É lógico que há uma enorme parcela de culpa dos próprios astros que, de uma hora para outra, se não têm um controle adequado sobre si mesmos, caem no conto do vigário e passam a viver na esbórnia e pouco ligando para aqueles que estão ao seu redor, fruto do dinheiro que flui muito facilmente no auge da carreira artística de alguns desses artistas (e outros tipos de celebridades também, claro). Mas a crueldade do sistema é o verdadeiro vilão, com cobranças irreais de sucessos ininterruptos e da imposição de um estilo de vida massacrante que acaba envolvendo drogas, super-carros, mulheres, homens e todo o extremo – e vazio – conforto que os 15 minutos de fama de alguém pode trazer.

BoJack, assim, é ao mesmo tempo a vítima e o algoz. Sofre com seu esquecimento pelo público, mas ao mesmo tempo é egoísta ao extremo, relegando até mesmo seus amigos próximos ao 15º plano. Ele vive em um passado que, como todos, já passou e não voltará. A biografia que aos poucos é escrita sobre sua vida é um tapa na cara de BoJack e de Hollywood como um todo.

Dito isso, o problema da série – curta, de apenas 12 episódios e mais um Especial de Natal – é a repetição temática. Percebemos muito claramente quem BoJack é logo no primeiro ou segundo episódio e há pouco desenvolvimento do personagem ao longo da série. Sim, estamos falando de uma sitcom, em que isso pode não ser importante, mas, nesse caso em particular, há uma continuidade entre episódios, com uma história una sendo contada. Sem a evolução dos personagens como um todo – e não só BoJack – os episódios passam a “correr atrás do rabo”, reeditando piadas com frequência, sem tentar alçar voos maiores além de eventuais situações “chocantes” aqui e ali, como o absoluto descaso de BoJack com tudo, inclusive com o fim terrível do responsável por seu estrelato passado e, também, pela condição atual de uma das crianças de Horsin’ Around, que se tornou uma drogada. Mas o choque cansa, especialmente quando, lá no fundo, cada um deles é igual ao seguinte.

Claro que, no meio disso tudo, há momentos brilhantes como a editora Penguin (famosa nos EUA), comandada, claro, por um pinguim, dependendo da biografia de BoJack para fugir da falência causada pelo “esquecimento” dos livros pelo público cada vez mais conectado. Há uma crítica ferina ali em relação ao mundo em que vivemos e a mensagem que fica é de um futuro sombrio para a cultura em geral.

E a própria vida de BoJack, refletindo o “lado negro” de Hollywood é, por si só, um fator curiosos. É quase como se essa série fosse a versão sombria de Entourage. O entusiasmo constante de Vince Chase é trocado pelas reclamações constantes de BoJack e a amizade altruísta de Eric Chase se transforma na amizade por conveniência de Todd. Há muitas piadas boas nessa estrutura, mas elas acabam sendo pasteurizadas e diluídas pela repetição temática constante, que não traz renovação na medida da progressão narrativa.

A animação em si funciona por sua simplicidade, sem invencionices. Ela é quase crua, desleixada, passando visualmente exatamente a mensagem da série. As gags visuais com os animais antropomorfizados são muito boas e uma atração à parte, mas que também acabam se repetindo demasiadamente. Vale especial destaque a abertura que encapsula à perfeição quem é BoJack Horseman, ao som de hipnotizante música composta por Patrick Carney do The Black Keys.

BoJack Horseman é um show de um truque só, com momentos verdadeiramente hilários perdidos em uma mesmice sem fim. Sua constante sátira comportamental é capaz de abrir mentes, mas a série não ousa como poderia. Tomara que melhore na segunda temporada, pois tem potencial.

BoJack Horseman – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2014)
Showrunner:  Raphael Bob-Waksberg
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Will Arnett, Amy Sedaris, Alison Brie, Paul F. Tompkins, Aaron Paul, Patton Oswalt, Kristen Schaal, Stanley Tucci
Duração: 25 min. por episódio (12 episódios + Especial de Natal)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.