Crítica | Bolwieser – A Mulher do Chefe de Estação

Bolwieser

estrelas 4

Bolwieser – A Mulher do Chefe de Estação (1977) é um dos filmes de R.W. Fassbinder que mais opõe opiniões. Alguns espectadores se incomodam com o roteiro teatral (o longa é a adaptação da obra de Oskar Maria Graf, escrita em 1931) e o ambiente meio trash onde vive essa “mulher do chefe da estação”, com seus amantes lascivos e um marido submisso que vai definhando no decorrer da história. Outros espectadores apontam o excelente trabalho de produção da obra, desde a trilha sonora ironicamente romântica e pontualmente dramática de Peer Raben à direção preciosa de Fassbinder. Ambos os lados estão certos.

É impossível não ver decadência, bizarrice e ingredientes do cinema “B” no telefilme, mas ao mesmo tempo, ligado a esse cenário de estranhezas, está uma sutil abordagem melodramática e um forte fundo social e histórico em destaque. Em outras palavras, Bolwieser é um filme-esponja em sua concepção formal e uma densa análise em sua mensagem final, que tanto pode ser vista no plano familiar e pessoal, quanto de uma Alemanha em fim dos anos 1920, reestruturando-se da crise causada pela Primeira Guerra e, já na reta final da obra, vendo a ascensão do nazismo.

Fasssbinder começa aqui a sua Fase Histórica, não deixando de lado os elementos que ele experimentara na Reformulação Conceitual pela qual passou entre 1975 e 1977, fase iniciada com O Direito do Mais Forte é a Liberdade e finalizada com Mulheres em Nova York. Este conjunto de elementos cria não somente um parâmetro rico para o longa (que contou com uma versão original de TV, com 201 min. — nunca lançada comercialmente — e um corte de cinema, com 111 min.) mas também traz para a filmografia do diretor o destaque maior para o mundo onde ele vivia e a forma como ele enxergava esse mundo, em todos os seus aspectos institucionais. Mesmo que possamos ver exercícios fassbinderianos nesse campo desde Pioneiros em Ingolstadt (1971), é só a partir de Bolwieser que a História passa a ser peça essencial do diretor para a construção da maioria de seus roteiros.

Com uma personagem feminina que encarna Madame Bovary e uma corrosiva relação pessoal em cena, o diretor procurou buscar o melhor de cada lado da moeda para compor a história, dando atenção igual aos dois personagens e permitindo-os criar suas próprias versões de quem eram, ao passo que, quando estão expostos a “forças dramáticas externas”, revelava-se diferentes. O jogo de sedução, os falatórios dos colegas e vizinhos, o desapego, o ódio e a vingança permeiam a relação de Hanni e Xaver Bolwieser, que conta com engajamento e visão diferente de cada um deles para o casamento e como deveriam “se comportar” nesta relação.

A engenhosa forma de representação dos personagens através de espelhos, com diferentes dinâmicas de foco e através de objetos pelo cenário mostra ao espectador as perturbações pessoais de cada um e a forma pouco convencional que esses indivíduos se olham, o que reflete, igualmente, na forma como nós os olhamos. O espaço que se abre, então, dá para alguns a impressão de que o filme é misógino, algo bastante absurdo de se pensar. Hanni (interpretada nos tons certos e com algum brilhantismo, pela atriz Elisabeth Trissenaar) faz exatamente o que ela quer e está algumas notas acima do que ditava as normas sociais de sua época. Esse comportamento não é louvado ou coisa parecida, no filme, mas tampouco é condenado. E tampouco a personagem é tratada com ódio ou exposta de forma a que o público queira odiá-la.

Esse “ódio ao personagem” é mais direcionado a Xaver (mais uma vez, Kurt Raab em excelente performance), que se permite o tratamento subserviente, assim como a personagem de Margit Carstensen em Martha (1974). Ele é afeito às normas mais obtusas da Estação que gerencia, tem um passarinho preso que entoa um canto angustiante (metáfora sexual e ao mesmo tempo psíquica do diretor para o personagem) e não consegue fazer nada sem uma orientação externa. Nesse cenário, o filme estaria mais para misândrico do que misógino, mas não é uma coisa nem outra. Os personagens são aqui tratados como humanos à beira do exagero, sob estereótipos de suas próprias personas melodramáticas, algo que nem de perto e nem de longe é novidade na filmografia de Fassbinder.

Com planos inesquecíveis como o plongée sobre a mesa do “almoço de luto” e o giro de câmera em um dos encontros entre Hanni e Franz (que nos remete ao primeiro encontro entre Martha e Helmut), além de um mundo onde a privacidade não existe e tudo se confunde, se exagera ou se relata para divertimento e julgamento da comunidade (ou seja, um retrato social bastante fiel), Bolwieser se mantém interessante e um bom exemplar para se pensar as relações amorosas em sociedade propostas por Fassbinder na Fase História de sua carreira. Uma fase que dá aqui o seu primeiro passo.

Bolwieser – A Mulher do Chefe de Estação (Bolwieser) — Alemanha Ocidental, 1977
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder (baseado na obra de Oskar Maria Graf)
Elenco: Elisabeth Trissenaar, Kurt Raab, Bernhard Helfrich, Karl-Heinz von Hassel, Volker Spengler, Gustl Bayrhammer, Udo Kier, Armin Meier, Peter Kern, Willy Harlander, Hannes Kaetner, Doris Mattes, Lilo Pempeit, Elma Karlowa, Gerhard Zwerenz
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.