Crítica | Bom Dia, Tristeza (1958)

estrelas 3,5

Bom dia, Tristeza (1954), de Françoise Sagan, foi um dos primeiros romances insuportáveis que eu li durante a adolescência, muito por conta de uma modinha que havia tomado parte da escola onde eu estudava. Sabem aquele momento em que todo mundo parece estar lendo o mesmo livro (clichês do gênero são Pollyana e O Diário de Anne Frank) e você resolver ler também só para fazer parte do grupo? Este foi o meu exato caso com Bom Dia, Tristeza, lá em idos de 2003, e devo dizer que foi uma terrível experiência.

A trama é basicamente a história de dois bon vivants, Raymond e Cécile (recém-saída de um colégio interno), pai e filha que se unem em torno de um único mandamento: divertir-se. Raymond é viúvo e tem uma vida regada a festas, mulheres e amizades fúteis, mas é um homem de negócios e tenta justificar suas ações como uma forma de prêmio pelo que faz. Tanto a ação do livro quanto do filme se passam na Riviera Francesa, em um período de férias de verão, onde Raymond e Cécile irão viver os mais felizes dias de suas vidas. E verão tudo mudar grandiosamente.

Otto Preminger, elegante e exigente diretor com raízes no teatro e forte abordagem literária em suas obras, encontra em Bom Dia, Tristeza (1958), um ponto de mudança em sua filmografia. A amplitude narrativa de suas obras daria uma guinada a partir da década seguinte, muito para acompanhar as mudanças que o mercado cinematográfico fazia, mas não à revelia do diretor, que desde os anos 1930 vinha mudando a sua forma de filmar, adicionando coisas novas, experimentando tecnologias, abraçando as mudanças como parte natural do fazer artístico, especialmente na Sétima Arte.

Filmado quase majoritariamente em locações na Côte d’Azur e em San Tropez, o filme faz jus ao título e ao sentimento que a autora trabalhou, mesmo com inúmeras bobagens sentimentais e inverossímeis em sua personagem principal. Há, de fato, um sentimento onipresente de tristeza e melancolia na obra, mesmo quando parece que todos estão se divertindo e sorrindo. A solidão, a dificuldade de criar laços e o desprezo a qualquer convivência um pouco mais duradoura coloca Cécile e seu pai em fuga, como se estivessem evitando lembrar as consequências da última vez que estiveram em uma situação parecida. É ao mesmo tempo um ato egoísta e altruísta.

A alta carga sentimental se divide em basicamente dois tempos: o presente, representado em preto e branco e filmado majoritariamente em ambientes fechados, sufocantes; e o passado em belíssimo Technicolor, com imensa exploração do cenário natural, variações da luz do sol e destaque para os melhores momentos da estação em uma casa de praia. Aí vemos surgir as discussões sobre relacionamentos, ciúme, tentativa de estabelecer compromissos, flerte, amor, ódio, decepção e tragédia. O texto de Arthur Laurents peca em alguns diálogos e a edição certamente poderia ter sido mais exigente nos cortes (vide os inúteis números de dança) mas mesmo assim o filme consegue nos atrair porque Preminger jamais se deixa levar pelos clichês do tema e mantém as exigências estéticas ativas, criando um excelente diálogo entre o passado e o presente, extraindo de seus atores o máximo que pode, embora a única performance realmente boa aqui seja a de Jean Seberg  no papel de Cécile. David Niven não combina em nada com o papel de bon vivant e não parece muito confortável guiando o personagem e Deborah Kerr tem cenas maravilhosas, mas certamente este não é um de seus melhores papeis.

A tocante trilha sonora de Georges Auric, o ótimo design de abertura feito por Saul Bass e os belos figurinos de todo o elenco — talvez marcando ainda mais a futilidade pelo excesso exterior em contraste com o vazio interior — são exemplos de áreas que funcionam muito bem no filme (dá uma grande sensação de estar vendo algo de Douglas Sirk na tela) e que certamente fazem a sessão valer a pena. Mas Bom Dia, Tristeza, apesar do forte apelo popular, não merece estar na lista dos grandes filmes de Otto Preminger.

Bom Dia, Tristeza (Bonjour tristesse) — Estados Unidos, Reino Unido, 1958
Direção: Otto Preminger
Roteiro: Arthur Laurents (baseado no romance de Françoise Sagan)
Elenco: Deborah Kerr, David Niven, Jean Seberg, Mylène Demongeot, Geoffrey Horne, Juliette Gréco, Walter Chiari, Martita Hunt, Roland Culver, Jean Kent
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.