Crítica | Bom Dia

estrelas 5

Japão, anos 50. Uma comunidade suburbana vive entre pequenas brigas, desconfianças e fofocas. No lar de cada uma das famílias, problemas diversos se apresentam. Dois irmãos passam as tardes assistindo televisão na casa de um amigo, mas quando são proibidos pela mãe – e uma vez que nem ela nem o marido mostram-se propensos a comprar o televisor – os garotos iniciam uma greve de silêncio e pequenos períodos de greve de fome em protesto contra a decisão dos pais. Toda a comunidade se envolve direta ou indiretamente com a atitude das crianças, que acima de tudo, questionam o por quê dos adultos falarem “tantas coisas desnecessárias”, discursarem sobre o tempo, dizerem “oi”, ou a saudação matutina que dá nome ao filme, Bom Dia, um dos últimos e um dos mais leves filmes do mestre japonês Yasujiro Ozu.

Nas palavras do próprio diretor, Bom Dia foi concebido como um filme para ser visto e apreciado por sua carga humorística. E consegue. Mesmo com situações nada alegres no enredo (como o desprezo, o desemprego, o alcoolismo, a velhice, a aposentadoria), o lirismo cênico de Ozu equilibra o trágico da vida cotidiana com os seus pequenos momentos únicos, que no filme, ficam a cargo do elenco infantil.

Como se sabe, desde seus primeiros filmes, Ozu criou um estilo próprio de captar imagens, adaptando uma espécie de suporte para que o aparelho ficasse praticamente ao nível do tatame (ou seja, as imagens estão sempre abaixo da cintura). Essa câmera baixa está sempre fixa, porém, as mudanças ocorridas dentro do espaço captado pela lente, os contracampos e as elipses, tudo no cinema de Ozu é efetuado através de ângulos precisos, e na maioria das vezes, em planos gerais ou médios. Dentro dessa falsa imobilidade técnica (porque a montagem é súbita, com cortes que mostram o trânsito entre os espaços cênicos e que dão ao filme um ritmo externo que lembra um inquieto fluxo), Ozu impressiona ao dar uma característica ágil à obra. Bom Dia possui um timming preciso, com uso pontualíssimo dos planos internos e externos e excelente equilíbrio entre as situações cômicas do roteiro e a ambientação geográfica da comunidade. A profundidade de campo é também muito explorada, o que confere às imagens uma beleza que mixa volume dimensional e lírica ordenação do que vai mais próximo da câmera e do que vai mais distante – parece que a vida desenvolve-se sempre em segundo plano, oprimida pelo espaço que a cerca.

Bom Dia é um filme sobre as mudanças históricas e culturais ocorridas no Japão pós-guerra. É evidente a perda da identidade nacional e a adoção do american way of life, representado pelas aulas particulares de inglês que os irmãos protagonistas assistem, ministradas por um tradutor desempregado. A própria dinâmica de organização social e as crises internas do país (desemprego e crise previdenciária, por exemplo) são trabalhadas bem en passant pelo diretor, sem nunca deixar de lado a leveza muito própria de seu cinema. Aqui, o conflito entre pais e filhos (algo recorrente na filmografia de Ozu, e trabalhado de forma lancinante em Viagem a Tóquio) alcança a geração da tecnologia, mas dessa vez o motivo da separação entre as geração é um aparelho eletrônico.

Como de hábito nos filmes do cineasta, o sol brilha em quase todas as cenas, e é acompanhado pelo uso de cores quentes, cujo sentido dramático é a alegria quase irônica que desfila com a limpeza dos planos e sequências (vale dizer que as três ou quatro cenas noturnas são fortemente iluminadas, e destaco uma belíssima e quase teatral tomada de uma rua à noite, cujo contraste entre o escuro da via e o colorido neon das placas dos bares e lojas destoam – no melhor sentido da palavra – de todo o filme). Um ar meio western tempera a trama (inclusive a cor), que recebe música-tema fixa, usada em diversos momentos com diversos significados dramáticos e técnicos, que vão da não-coincidência com a imagem até a identificação de um motivo recorrente no filme.

Ninguém melhor do que Yasujiro Ozu poderia cercar as transformações que ocorriam no Japão naquela década seguinte ao desastre de Hiroshima e Nagasaki. O crescimento populacional e tecnológico do país, ao passo que incluía no mercado um grande número de pessoas, excluía muitas outras, gerando uma situação híbrida de desenvolvimento social. A população do país tornava-se mais fugidia de si, imersa na pequena tela de TV, motivo de alienação em massa. Na mesma década, esse entretenimento-fuga estendeu-se também para os jogos – algo que Wim Wenders trabalha em Tokyo GA, que aliás, é um documentário sobre “o Japão que Ozu previu”.

A necessidade do diálogo é contraposta, em Bom Dia, à necessidade de uma máquina para que alguém seja feliz. Ozu nos expõe as relações humanas e familiares em pleno momento em que o mundo ao redor se transformava, o consumismo se tornava comum necessidade e a fuga através da nova tecnologia já era um afã nacional. Com a poesia que se faz presente em todas as coisas, o diretor nos pergunta se tudo aquilo a que damos valor é realmente essencial para a nossa vida ou apenas faz parte das necessidades de isopor geradas pelo capitalismo e pelo fetiche de milhões produtos. Bom Dia é acima de tudo, um filme sobre o supérfluo e o essencial.

Bom Dia (Ohayô) – Japão, 1959
Direção: Yasujirô Ozu
Roteiro: Kôgo Noda, Yasujirô Ozu
Elenco: Keiji Sada, Yoshiko Kuga, Chishû Ryû, Kuniko Miyake, Haruko Sugimura, Kôji Shitara, Masahiko Shimazu, Kyôko Izumi, Toyo Takahashi, Sadako Sawamura, Eijirô Tôno, Teruko Nagaoka
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.