Crítica | Bone – Vol.1: Fora de Boneville

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estrelas 4

Inspirado por HQs que admirava na infância e adolescência, Jeff Smith criou Bone antes mesmo de realizar suas primeiras publicações em quadrinhos, quando estava na Universidade. A ideia e o rascunho para esta simpática e aclamada série independente surgiu quando o autor tinha apenas 10 anos de idade e foi desenvolvida aos poucos, até a sua publicação, pela Cartoon Books, a empresa que Smith criou para distribuir Bone, em 1991.

A versão que conhecemos da história surgiu em preto e branco e teve raízes em quadrinhos clássicos dos Estados Unidos, como Pogo, de Walt Kelly e as histórias do Tio Patinhas, de Carl Barks. O primeiro arco, chamado Fora de Boneville, acompanha os primos Fone, Phoncible P. “Phoney” e Smiley Bone em suas aventuras e desventuras após saírem de sua terra natal, um lugar que não vemos nesta fase, mas que sabemos ter tecnologia bastante parecida com a dos anos 1980 e cultura contemporânea. Fone Bone descreve o lugar como se fosse uma cidade de grande porte, mas onde todos conhecem todos. Algumas coisas que ele traz na mochila também indicam uma proximidade com a nossa cultura, como livro de finanças, histórias em quadrinhos e o seu romance favorito, Moby Dick, de Herman Melville.

O drama dos primos que se perdem em um deserto e depois em uma terra cheia de surpresas, onde o inverno é uma temida estação e chega da maneira mais repentina possível, é uma jornada épica, permeada de sombras literárias. O leitor poderá encontrar engajamento pessoal, luta por honra e paixão e as mais diversas relações humanas (ou entre criaturas) que emprestam símbolos e tom narrativo de O Senhor dos Anéis e Odisseia, onde a busca por alguma coisa é o motor para a maturidade dos personagens e combina com o despertar de alguma força vilanesca, cheia de mistérios e paciente o bastante para encontrar suas vítimas mas esperar o momento propício para atacar.

Cada um dos primos traz uma moral/ética e psicologia diferente, afetando a forma como veem e se comportam no mundo, mas nas entrelinhas existe um elemento afetivo bem grande que os une. Embora não demore muito para se fazer evidente, a teia familiar é frágil, no início, porque não existe exatamente uma referência, apenas a “entrega” de Fone e Smiley para acompanhar o trapaceiro Phoney para fora da cidade. Expulso por ter enganado a população — e por terem descoberto diversas outras falcatruas econômicas e corrupção desse Bone empresário nos moldes neoliberais — Phoney mantém o orgulho de quem sempre teve muito dinheiro e agora precisa lidar com a penúria, o abandono e a incerteza do que acontecerá a ele dali para frente. Impossível não se lembrar dessa mesma temática trabalhada por Woody Allen em seu filme Blue Jasmine (2013), inclusive com a mesma mistura entre tragédia, comédia e aprendizado.

Fone, o mais ponderado e racional dos Bone, é o protagonista da história e passamos o maior tempo ao seu lado, observando como ele lida com as adversidades, a sua preocupação com os primos e sua facilidade de comunicação. Desde muito cedo, o autor dá indícios de que há muita coisa nesse Universo para ser explicada, mas apenas migalhas delas são mostradas, os detalhes viriam nos volumes futuros. Como arco de apresentação dos personagens, fica evidente essa tentativa de marcar o comportamento de cada um, atribuir a eles características de personagens em sagas conhecidas e fazê-los viver experiências cômicas que contrastam o seu “mundo contemporâneo” com a realidade quase medieval que encontram no vale, para onde se dirigem após serem dispersos por uma tempestade de gafanhotos.

Com uma arte simples, mas atrativa, personagens que denotam uma estrutura de fábula e acontecimentos míticos aliados a um choque de culturas e mundos em desenvolvimento, Fora de Boneville trata com bastante humor as relações humanas, familiares e a importância desses laços para cada pessoa, quer ela admita ou não. Ao final desse volume, o autor estabelece um outro tipo de família, a família escolhida, e é a partir dela e de um encontro inesperado que os Bone partem para a nova fase de sua jornada.

Bone: Fora de Boneville (Bone – Out from Boneville) — EUA, maio de 1991
Roteiro: Jeff Smith
Arte: Jeff Smith
Publicação original: Independente (Cartoon Books), 1991
Editoria original do encadernado: Graphix, maio de 1995 (encadernado colorido em 2005)
No Brasil: HQM Editoria, março de 2015
144 páginas (encadernado da HQM)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.