Crítica | Boneca de Carne

estrelas 4

Boneca de Carne é daqueles filmes que ao longo do tempo se tornaram ainda mais interessantes do que foram à época de seu lançamento. Esta obra de Elia Kazan, já laureado por fitas como Uma Rua Chamada Pecado (1951), Sindicato de Ladrões (1954) e Vidas Amargas (1955), recebeu um vendaval ataques por parte de frentes religiosas – dentre elas a Legião da Decência – e uma enorme curiosidade por parte do público, o masculino em especial, atraído pelo sugestivo pôster com a atriz Carroll Baker deitada em um berço e chupando o dedo.

Com roteiro escrito por Tennessee Williams, baseado em sua peça 27 Carros de Algodão, Boneca de Carne marcou o início da carreira de Eli Wallach no cinema e foi a porta de entrada de Carroll Baker para o estrelato – até então, a atriz havia realizado apenas dois longas, Fácil de Amar (1953) e Assim Caminha a Humanidade (1956) –, além de ser um dos primeiros filmes de distribuição massiva a trabalhar a sexualidade mais abertamente.

A história nos traz o casal Archie Lee (Karl Malden, em uma interpretação consideravelmente exagerada) e Baby Doll (Carroll Baker, escalada pessoalmente por Elia Kazan devido ao seu trabalho no Actors Studio, embora não fosse bem vista por Tennessee Williams, que havia sugerido Marilyn Monroe para o papel), dois indivíduos com idade, educação, origem social e pensamentos sobre a vida completamente distintos e que estavam a algumas horas de firmarem em definitivo o seu acordo de casamento.

O texto de Williams traz nuances da personagem feminina igualmente sedutora criada por Vladimir Nabokov no ano anterior, mas não se fixa apenas nesse tipo de relação. O filme aborda elementos de (não-)convivência íntima, expõe características de dramas morais misturados com comédia de humor negro, realismo teatral (explicando: realista na técnica e teatral na configuração/direção dos personagens) e pano de fundo histórico, com a reprodução do tratamento dado pelos brancos aos negros nas grandes plantações de algodão do sul dos Estados Unidos – lembremos que o tema do racismo e preconceito já havia filmado por Kazan em 1947, A Luz é Para Todos e em 1949, O Que a Carne Herda.

A junção de todos esses ingredientes resultou em um filme que se mantém em alta durante toda a projeção, com poucos momentos em que o público se sente incomodado por um diálogo, um exagero na interpretação, uma sequência ou bloco narrativo pouco explorados. Tennessee Williams, que sempre gostou de contextos bem trabalhados para seus personagens, dá total atenção para o tópico da hombridade/virilidade dos dois homens em conflito e fecha o triângulo com uma mulher que deseja algo diferente de cada um deles.

Alternando cenários vazios com outros absurdamente bagunçados, usando a música sempre como antecipação e em seguida reafirmação de um ponto alto do texto e ironias a respeito do trabalho e relações sociais, o filme é muito mais do que um longo flerte do tipo blue balls. Mesmo que o sexo (ou melhor, a ausência dele) esteja em pauta e todo o jogo cênico mais pareça uma longa preliminar, ele não está lá em sua forma bruta e barata, está apenas como destaque para um ambiente que tem muitos outros problemas em andamento e que ganham espaço ao longo da fita.

Já na reta final, temos um cenário que nos faz lembrar todo o cinismo de Nelson Rodrigues, quando vemos Archie Lee convidar Silva Vacarro para jantar e não recusar de pronto o fato do siciliano continuar com o trabalho de algodão na fazenda em troca de ser “entretido” pela mulher do proprietário. É o tipo de trama-de-corno que carrega tragédia, humor e amargura em seu bojo, e que ganha bastante na direção de Kazan, especialmente porque o diretor não se recusa a nos surpreender e adicionar substância visual às notas de vingança e escárnio do roteiro.

Corajoso, bem dirigido e bem atuado a maior parte do tempo (além do localizado exagero na construção do personagem de Karl Malden, há momentos – os que deveriam ser mais sérios – que Carroll Baker simplesmente não funciona), Boneca de Carne é uma grata surpresa cinematográfica e que ocupa um lugar todo especial, seja ou não pela temática libidinosa, na filmografia de Elia Kazan.

Boneca de Carne (Baby Doll) – EUA, 1956
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Tennessee Williams
Elenco: Karl Malden, Carroll Baker, Eli Wallach, Mildred Dunnock, Lonny Chapman, Eades Hogue, Noah Williamson
Duração: 114 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.