Crítica | Boneco de Neve

Independente do quão curta sua filmografia seja, Tomas Alfredson já é não é mais um nome qualquer. O alegórico e atmosférico Deixa Ela Entrar tratou de botar o nome do cineasta norueguês no mapa como alguém a ser observado atentamente. Não demorou muito para o surgimento de sua primeira produção em inglês, o classudo e rígido O Espião Que Sabia Demais (que rendeu a tão ansiada primeira indicação ao Oscar para Gary Oldman), tirando Alfredson do posto de alguém em potencial para a certeza de que estávamos diante de uma revelação das mais talentosas.

Portanto, não há como ser, no mínimo, assustador a pedra no sapato que Boneco de Neve se tornou. Não exatamente por culpa de Alfredson, que constantemente expôs o quão bagunçada e interferida pelo estúdio foi sua participação como responsável por mais uma adaptação do celebrado autor Jo Nesbø, também norueguês. De acordo com o diretor, a pressão do estúdio foi tanta que partes do roteiro nunca chegaram a ser filmadas, prova do quanto a obra estava sob domínio de seus produtores. Sendo que estamos falando de algo produzido por ninguém menos que Martin Scorsese e editado por sua fiel escudeira, Thelma Schoonmaker. Se a culpa fora tanto de Alfredson, aqui um contador de histórias com mão frouxa, ou do estúdio e suas imposições, isso pouco importa, uma vez que os problemas de Boneco de Neve estão lá, perfeitamente visíveis para quem quiser encará-los.

Perseguido por problemas de alcoolismo (e havia como começar de forma tão óbvia?), Harry Hole (Michael Fassbender) é um detetive conhecido pelas soluções de seus casos no passado, e que passa a investigar uma série de desaparecimentos de mulheres ao lado de Katrine (Rebecca Ferguson), cuja peculiaridade são bonecos de neve que estão sempre nos locais onde as vítimas são encontradas. O primeiro pecado latente são os plots secundários inseridos dentro do ponto de partida aos quais o roteiro de Hossein Amini (de Drive e do script indicado ao Oscar de Asas do Amor) e Matthew Michael Carnahan (de Guerra Mundial Z) não consegue dar conta. As subtramas se revelam desalinhadas da estrutura principal, investindo em distrações narrativas que desperdiçam nomes de peso como Val Kilmer e J.K. Simmons em papéis prolixos para o tamanho de suas presenças.

Os diretamente envolvidos na história principal também não escapam do tratamento burocrático deste roteiro, que dá pouquíssimo material para Fergunson ou Charlotte Gainsbourg justificarem sua escalação aqui. Há um estereotipamento gritante em cada rosto que passeia pela tela e seus posicionamentos neste tabuleiro criminal são tão desleixados que não é surpresa alguma adivinharmos o principal responsável pelos crimes muito antes do final.

Além disso, elementos clichês do gênero que poderiam se tornar armas narrativas poderosas nas mãos de alguém como Alfredson surpreendem pelo desleixo imagético e destrambelhado com que são postos em tela. Acreditando piamente que a sugestão do suspense basta por si só, as imagens filmadas pelo diretor são aceleradas a ponto de atrapalhar completamente nossa imersão e nos fazer estranhar logo de início a pressa com que os conflitos são postos à mesa, sem qualquer preparação maior. Pelo contrário, momentos são jogados ao vento e deixados de lado para serem retomados ao bel prazer da necessidade (o prólogo), flashbacks se fazem presentes nos momentos menos orgânicos e apenas para assumirem sua função auto-explicativa, e tudo isto somado a uma inexplicável e picotada edição de Thelma Schoonmaker, acentuando o trabalho caótico de Boneco de Neve. É como se nenhum nome envolvido aqui fizesse sentido dentro do que lhes é dado a fazer.

Fassbender ainda consegue ser funcional dentro deste formato básico de detetive problematizado e de expressão constantemente dura sem fazer muito esforço, mas qualquer outro mérito que Boneco de Neve poderia ter além disso é soterrado por uma avalanche (sem trocadilhos) de decisões equivocadas e envolvimentos desleixados entre os responsáveis. Baita bola fora.

Boneco de Neve (The Snowman) – Reino Unido, 2017
Direção: Tomas Alfredson
Roteiro: Hossein Amini e Matthew Michael Carnahan, baseado em livro de Jo Nesbø
Elenco: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, J.K. Simmons, Val Kilmer, Chloë Sevigny, James D’Arcy, Toby Jones
Duração: 119 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.