Crítica | Boneco do Mal

Boneco do Mal

estrelas 3

Quando as notícias e primeiras imagens sobre o Boneco do Mal, suspense protagonizado por Lauren Cohan, uma das personagens-destaque da série The Walking Dead, um misto de surpresa e curiosidade me tomou. Sabemos que esse tipo de produção inunda o campo das produções de filmes B, mas trazer outra incursão de um boneco maléfico apresentava-se como uma proposta corajosa.

No filme temos a história da jovem estadunidense Greta (Lauren Cohan). Ela aceita um emprego como babá num remoto local da Inglaterra, pois foge de um relacionamento abusivo. Chegando ao local, uma enorme e isolada mansão que mais parece um sofisticado castelo medieval, a moça descobre que o garoto Brahms, criança de 8 anos foco da sua contratação, é um boneco que todos tratam como uma criança de verdade. Inicialmente leva na piada, mas depois que os pais do boneco viajam, as “brincadeiras” começam.

A protagonista inicialmente considera tudo uma grande piada. Assim, ignora todas as ordens sobre o boneco, como não receber visitas, trocar a roupa antes de dormir, mas de repente alguns eventos inexplicáveis começam a acontecer. É nessa hora que a personagem se dá conta: está com a sanidade comprometida ou existe um boneco que esconde as suas roupas, observa-a tomando banho?

Malcolm (Rupert Evans) é o único contato humano da moça depois que os pais do pequeno boneco viajam. Aos poucos ele revela algumas histórias sobre o passado do boneco. Dessa forma, Greta descobre que  os patrões não superarem a perda do filho, que morreu há 20 anos em um incêndio. O seu corpo, entretanto, nunca foi encontrado. Há até relatos de que o garoto não era boa coisa quando vivo, autor de algumas pequenas atrocidades.

Esse é o mote do filme, uma trama morna em que tudo demora demais para acontecer. Todavia, as imagens oferecidas pela câmera através de enquadramentos eficientes dão conta de nos fazer aguardar algo “quente’ acontecer. Na seara da concepção visual, o filme é um delírio: o design de produção é cuidadoso, os planos gerais que dão conta de contemplar toda a mansão no quadro consegue captar a beleza do local, bem como a câmera que ziguezagueia os espaços internos, apresentando-nos o gosto erudito dos moradores da casa sinistra por uma decoração sofisticada e fabulosa.

A iluminação, juntamente com a direção de arte e a fotografia consegue unir-se para dar credibilidade ao filme que até certo ponto, encontra-se letárgico, com poucas emoções e mais perguntas do que respostas para o espectador. Chega um dado momento que a maioria das pessoas esperam o boneco falar, empunhar uma faca e estripar o parco elenco, dando cabo das suas pendências psicóticas.

No entanto, nada acontece como o esperado. O boneco não vai falar, mas agir de maneira sinistra, através de suas próprias atitudes ao ganhar o sopro de vida, ou sendo manipulado por alguém que circunda o ambiente da babá que a certa altura do filme já está dando crises de histeria. Assim é o Boneco do Mal: um filme indeciso que graças ao roteiro de Stacey Menear, oferta ao público uma baita reviravolta nos minutos finais.

O problema é que a reviravolta é pouco aproveitada, funciona parcamente como momentos de tensão e horror. Diante do exposto, algo que funcionou muito melhor em filmes como Sexta Feira 13 e O Massacre da Serra Elétrica, ganha uma versão requentada em Boneco do Mal, mais um dos filmes que chegam para provar que o campo das produções do gênero precisa se reinventar. Se brinquedos assassinos não assustam mais, o que dizer de bonecos opacos e comportados. Descobrir porque a peça de louça age assim é um dos desafios do espectador, assim como engolir a história do desfecho final.

Faltou mais ritmo e uma montagem elíptica. Tudo demora de acontecer ou se alonga demais. Haja paciência. Os dois momentos de maior impacto são pesadelos da protagonista, num filme que será esquecido logo,  tamanha a letargia e falta de expressividade do roteiro. No que diz respeito aos brinquedos malditos, Chuck ainda é o melhor, sarcástico e divertido, assume o seu estilo narrativo e diz para que veio. Brahms, o “boneco do mal” está mais para uma representação da insanidade de algumas mentes humanas. Assista e entenderá.

Boneco do Mal (The Boy) – EUA, 2016.
Direção: William Brent Bell.
Roteiro: Stacey Menear.
Elenco:  Lauren Cohan, James Russel, Rupert Evans, Jim Norton, Diana Hardcastle, Jett Kline, Ben Robson, Lily Pater, Matthew Walker.
Duração: 97 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.