Crítica | Bonifácio – O Fundador do Brasil

Se a culpa é minha, diz o cínico adágio de um cínico povo, eu a ponho em quem eu quiser. Partindo de uma visão metodicamente cética, a resposta à famigerada pergunta “o que é ser brasileiro?” é auto evidente, passível de ser verificada por pura empiria: ser brasileiro é cultivar a ingratidão, germinar a inveja e olhar o mundo com as lentes do ressentimento. Do vizinho ao juiz de futebol, do pai ao chefe, do amigo à namorada, da escola à faculdade, o brasileiro é exemplar em mostrar a dificuldade que é conviver com alguém melhor do que você.

Quem disser o contrário ou vê o Brasil como terra da Bunda e da Bola –  que guardam em si a sementinha de Caim – ou é marqueteiro isento, do tipo que gosta de brincar com a inócua categoria do otimismo. Mesmo não sendo exclusividade de terras tupiniquins, é difícil enxergar nação que se queira desenvolvida se debatendo na lama de tal mediocridade ressentida.

Felizmente, vira e mexe alguma iniciativa individual nos puxa do lamaçal cultural e indica um sol brilhante que parece valer algum esforço.

Maior crowdfunding para um filme já feito no país (foram 2.800 investidores individuais, sem contar patrocínios de empresas privadas), Bonifácio – O Fundador do Brasil quebrou o recorde que pertencia ao premiado O Jardim das Aflições – e dele provavelmente herdará a dificuldade de distribuição em face à censura de festivais já sem vergonha de si mesmos. Só por tal razão o documentário já chama – ou deveria chamar – mais atenção do que um, digamos, Marighella, do pueril Wagner Moura, que levará singelos R$ 10 milhões da Lei Rouanet para retratar a vida do autor do extraordinariamente democrático e pacífico Minimanual do Guerrilheiro Urbano, objeto de fetiche de muito professor de ciências humanas – e eu sinto muito pelos jovens negros que terão sua representatividade roubada, para variar, e colocada neste terrorista a ser interpretado por Seu Jorge, residente em Los Angeles, não nos esqueçamos, para efeito de ironia.

Um contraste desse tipo retrata a temática cultural que o diretor Mauro Ventura evoca para si. Bonifácio não é apenas um resgate com ares míticos de um ícone grandioso, erudito e multifacetado, central na construção de uma identidade brasileira que foi abortada há muito tempo. É um símbolo de como a cultura é o principal instrumento para trabalhar a imaginação moral de uma nação ou para destruí-la. Nosso país é didático na última opção: a de ser, para sempre, o país do futuro. Lula, o Filho do Brasil desenha bem o cenário com um protagonista que sofre mais, nas próprias palavras, do que Jesus Cristo.

O trabalho de resgatar a figura de José Bonifácio de Andrada e Silva é o trabalho de resgatar a grandiosa origem da pátria que repousa em uma grandiosa figura – e você não precisa querer a volta da monarquia, nem ser religioso ou sequer conservador para compreender a sua própria origem. É uma mera questão de respeito e veneração por uma imagem humana de envergadura inspiradora.

Grandeza, aliás, junto com esperança, são os temas que ditam o tom do documentário. Da arquitetura imperial às miradas ao sol e ao horizonte simbolizando o Brasil de hoje – um Brasil bem diferente do sonhado por Bonifácio – Ventura e sua equipe buscam o tempo inteiro infundir sentimentos de orgulho e amor pelo conhecimento. Centrando as ações na “Teoria das Camadas da Personalidade” de Olavo de Carvalho e no fio condutor do historiador Rafael Nogueira, o documentário percorre os primeiros passos do estadista ainda em Santos, sua cidade natal, até seus últimos dias na recatada casa em Paquetá.

Há muita história para contar, mas logo se percebe ser uma tarefa impossível esgotar a figura de Bonifácio em uma única obra – o que suscita a desconfiança pela falta de maior trato com o Patriarca da Independência em peças de teatro, teledramaturgia e afins. Ventura retrata os estudos jurídicos e filosóficos de Bonifácio, passeando por seu pioneirismo em ecologia, seu interesse em geologia, mineralogia e química, sua visão sobre a Revolução Francesa in loco (!) e sua volta ao Brasil para, enfim, escrever a história que se confunde com a nossa.

Mais do que encadear os fatos didaticamente, a película faz questão de tratar, em paralelo e com a mesma importância, da personalidade gradualmente formada de um homem com sede de sabedoria e paciência virtuosa para se preparar para uma velhice admirável. Foi só em 1819, já com 56 anos, que Bonifácio chegou ao Brasil e começou sua fascinante relação com Dom Pedro I. Entre a declaração da independência e sua volta para tutelar Dom Pedro II, um exílio forçado por um Dom Pedro I impetuoso e amargurado ainda vem para atrapalhar seu caminho. O filme deixa claro que Bonifácio chamou repetidas vezes a amante do imperador, Domitila de Castro, de rameira, o que resultou em seu próprio exílio e na nomeação, por tolice irada, de Domitila ao título de Marquesa de Santos – cidade onde Bonifácio, então desafeto, nascera, não Domitila.

Entre o detalhamento histórico e os traços pessoais da jornada do nosso fundador, sucessivas frustrações – abortos históricos, na terminologia usada na obra – são ressaltados. A opção por trazer a figura de Bonifácio serve ao propósito de escancarar o culto à pobreza opulente e arrogante de um povo que matou seus heróis pelo esquecimento. Um ensino de filosofia e história que se institucionaliza como instrumento de luta desde 1964 ainda é capaz de assassinar qualquer indício que se relacione com uma civilização cristã, europeia, livresca e virtuosa. Bonifácio é a figura do homem que acha seu lugar individual e cumpre com a missão de afastar sua vida da mesquinhez para dedicá-la a algum valor superior – em outras palavras, é o completo e perfeito oposto do que se valoriza hoje, onde é melhor achar nosso lugar na coletividade, alimentar a pequenez das ideologias identitárias e rir da cara de qualquer valor superior, principalmente se tal valor for a coragem.

Heróis são abortados quando uma cultura valoriza a comédia total de seus alicerces. Qualquer um já ouviu – e repetiu – que nossa bandeira é feita do verde das matas, do azul do céu, do amarelo das riquezas e do branco da paz. Piadas repetidas a esmo pelos mesmos que preferem ressaltar as coxinhas de frango de Dom João VI ao seu heroísmo em ser o único rei que conseguiu enganar Napoleão e salvar o Reino de Portugal. É muito O Quinto dos Infernos para pouco orgulho nacional – e não confunda tal orgulho com ufanismo chucro, militar e cheio de saliva.

O filme não passa incólume em sua forma e ritmo, todavia. A nuca de Bonifácio nunca foi tantas vezes vista. É compreensível desvendá-lo aos poucos, traçando um paralelo imagético com a progressão de sua jornada. Ao seu desvelamento final, porém, falta um impacto mais sutil e imperativo, ainda que a aposta na chave reconciliadora – do Brasil presente com seu passado, em prol do futuro – seja poética e moralmente apreciável.

Para quem viu A Última Cruzada, do excelente Brasil Paralelo, uma certa uniformidade de tom também não passará despercebida. O documentário de Ventura não toca, obviamente, tão a fundo nas figuras de Dom Pedro I e da Imperatriz Leopoldina, o que acaba influenciando na ausência de acentuação dramática de determinados pontos da história.

Nada diminui, em síntese, o eixo principal do trabalho: dar ao espectador a sensação de pertencimento a algo maior, mais antigo e mais sábio do que si mesmo. Uma espécie de amálgama brasileiro dos Founding Fathers americanos, como diz Rafael Nogueira, José Bonifácio é um herói que ainda faz uma nação respirar ao colocá-la em perspectiva: nem sempre o Brasil foi o Brasil da Nova República fisiológica, populista e demagógica, herdeira do varguismo.

Mas entre melodramas de JK, Sete Mulheres insossas e uma centena de filmes sobre a ditadura militar – que também virou fetiche de quem quer logo se vitimizar para virar o novo carrasco – é bem possível que Bonifácio passe despercebido. Nele não há frustrações psicológicas, sexuais, raciais ou identitárias. Quando alguma produção vai um pouquinho por outro caminho, deixando de elogiar alguns discursos bonitinhos, críticos histéricos dão logo o seu piti pelo Twitter e cancelam a Netflix. Só um país que não valoriza o heroísmo consegue dar contínuos exemplos de tolice vertiginosa.

Bonifácio – O Fundador do Brasil – Brasil, 2018
Direção: Mauro Ventura
Roteiro: Fernando Ferreira Jr.
Elenco: Paulo Lopes
Duração: 83 minutos

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.