Crítica | Bonitinha, Mas Ordinária (1963)

estrelas 3

Desde a primeira versão do dramaturgo Nelson Rodrigues para o cinema, com Meu Destino é Pecar, de 1952, os setores criativos da nossa indústria cultura manteve-se atenta ao potencial do autor para a realização cinematográfica: textos que pedem desempenhos dramáticos fortes, tempo e espaço que permitem a criação de imagens perturbadoras e situações e personagens que surpreendem por suas ações.

Mesmo com essas possibilidades, nem sempre o nosso cinema conseguiu captar bem o potencial fornecido por estes textos de partida. Em boa parte das produções os cineastas e roteiristas ficaram na confortável seara da caricatura e estragaram o excelente material literário fornecido pelo maior dramaturgo da nossa história “recente”.

Em Bonitinha, Mas Ordinária, o roteiro de Jorge Dória e Jece Valadão mantém a estrutura da peça e segue à risca todo o texto: Maria Cecília (Lia Rossi) é a filha do “magnata” Heitor (Ambrósio Fregolente). Certo dia a moça é estuprada por homens negros mal-intencionados e o seu pai, preocupada com a imagem da garota e da família, solicita ao genro Peixoto (André Villon) alguém que esteja disponível para casar com a sua filha violada.

Após uma breve investigação Peixoto seleciona Edgar (Jece Valadão), um rapaz de origem humilde que interessado em ascender na escala social, provavelmente aceitaria o convite. Logo de cara o rapaz se sente ofendido, mas adiante topa o desafio, mesmo sentindo-se corrupto. Será o seu sentimento afetuoso por Ritinha (Odete Lara) que lhe permitirá enxergar além das possibilidades e contornar o seu destino.

Desta forma, ao longo dos 101 minutos, esta versão de Bonitinha, Mas Ordinária dirigida por J. P. Carvalho pode ser considerada a mais higiênica de todas. A estética cinemanovista está presente, diferente do olhar cru e marginal da versão de Braz Chediak ou da violência explícita da adaptação de Moacyr Góes. Apesar de ser a primeira versão, concentrada em uma época inferior no que tange ao desenvolvimento tecnológico do nosso cinema, as imagens veiculadas pelo filme são bem convincentes e fotografadas.

A montagem ficou por conta de Rafael Justo Valverde, profissional que soube aproveitar bem as imagens captadas pela direção de J. O. Carvalho e pela fotografia de Amleto Daissé, bem como a eficiente composição musical de Carlos Lyra. As cenas são cruas e fortes, mesmo sem a “explicitude” das versões posteriores. Ao apostar por caminhar no terreno do simbólico, o filme ganha maior impacto. O não explícito não significa que está no terreno do não-dito, ao contrário, está latente e disposto a incomodar o espectador mais sensível.

As críticas de Nelson Rodrigues ao meio social supostamente evoluído foi bem aproveitada pelos roteiristas. Curioso para nós é perceber que mesmo depois de tanto tempo, os temas parecem cada vez mais atuais e verossímeis. Como apontou o dramaturgo na peça, “toda família tem um momento em que começa a apodrecer”. E de acordo com as versões de Bonitinha, Mas Ordinária, isso está bem mais que latente, afinal, como reforça o autor, “pode ser a família mais decente, mais digna, e lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco, tudo ao mesmo tempo”.

Polêmico e ácido em suas colocações ambíguas e, algumas vezes, contraditórias, Nelson Rodrigues nunca se conteve em suas abordagens. Talvez por isso ainda interesse ao cinema, haja vista as possibilidades de contemplação dos seus temas em nosso fluxo contínuo de produção na contemporaneidade.

Bonitinha, mas ordinária – Brasil, 1963.
Direção: J. P. Carvalho.
Roteiro: Jorge Dória e Jece Valadão.
Elenco: Jece Valadão, Odete Lara, Lia Rossi, Ambrósio Fregolente, Miguel Ângelo, Max Augusto, Milton Carneiro, Ida Gomes, Roberto Batalin, Marlene Blanco.
Duração: 101 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.