Crítica | Bonitinha, Mas Ordinária (1981)

estrelas 2,5

Nelson Rodrigues foi um dos dramaturgos mais absorvidos pela indústria cinematográfica brasileira. Bonitinha, Mas Ordinária, tragédia carioca escrita nos anos 1950, por exemplo, é um dos textos mais adaptados. Ganhou uma versão em 1963, esta em questão, de 1981, além uma versão contemporânea, lançada em 2008, todas ligadas aos princípios básicos do texto teatral: o desfacelamento da família, o jogo de aparências da sociedade e os valores morais estilhaçados com o desenvolvimento cada vez mais amplo do espaço urbano.

Dirigido por Braz Chediak, responsável por adaptar outros textos trágicos da nossa tradição modernista, tais como Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja, de Plínio Marcos, Bonitinha, mas ordinária segue à risca o texto ponto de partida. De origem humilde, Edgar (José Wilker) é um escriturário, homem assalariado que vive precariamente. Certo dia, Peixoto (Milton Moraes) lhe procura para informar que ele teria sido escolhido a dedo por seu chefe, Dr. Werneck (Carlos Kroeber), tendo em mira executar uma missão: casar com Maria Cecília (Lucélia Santos), a sua filha, vítima de uma curra realizada por cinco homens negros. Diante da perda da virgindade da moça, o patriarca da família preocupa-se com a opinião das pessoas e com o destino da jovem, alegando que apenas o casamento pode ordená-la.

Mesmo reticente Edgard aceita a proposta, afinal, o dinheiro oferecido era tentador. Os motivos que deixam o rapaz com pé atrás são simplórios diante do panorama de situações que demonstra o desfacelamento dos valores morais que a sociedade constantemente pretende discutir: ao receber o dinheiro, o rapaz se sente corrompido, além da sua queda pela professora Ritinha (Vera Fischer), mulher que ocupa outro eixo da sua vida, mas que lhe surpreende com uma revelação arrasadora: visando salvar a família de um problema financeiro, ela tornou-se prostituta no turno oposto.

Mergulhado na dualidade, Edgard entra em conflito: indeciso entre continuar na vida de riqueza e corrupção ou viver com privação ao lado da mulher que ama. No entanto, como afirma um personagem em certo trecho, “nascer pobre é destino, mas casar-se com um pobre é burrice”. Edgar aceita o dinheiro, sente na pele as mazelas da vida corrupta, entretanto, diferente do que geralmente acontece nas obras de Nelson Rodrigues, há espaço para a redenção ao final, com o amor prevalecendo sobre o dinheiro, mesmo que na trilha caminhada pelo escriturário, alguns rastros de sangue demarquem a trajetória.

Com roteiro assinado por quatro profissionais, inclusive Doc Comparato, uma das referências no que tange aos manuais de roteiro, o filme segue de forma fidedigna o texto rodrigueano, como se isso fosse algo bom, mas não é. Ao não ousar e capitalizar em torno de atuações que se assemelham ao desenvolvimento dramático em um palco de teatro, o filme tornou-se uma caricatura do “fazer cinema”. Infelizmente, durante boa parte da história do nosso cinema, a falta de habilidade na transposição de suporte acometeu obras que prometiam bons filmes, sendo Bonitinha, Mas Ordinária um destes exemplares.

Mesmo que pareça coisa ultrapassada, o tabu da virgindade ainda rende muitas boas histórias. No passado o tema representava algo ritualístico e imaculado, mas com o advento da modernidade, os valores anteriormente exaltados são alvo de paródia em produções literárias e cinematográficas. Braz Chediak, ciente do tema polêmico em mãos, acerta em alguns momentos, como a cena da festa, espaço em que as pessoas assumem as suas infidelidades, além da cena da curra, crua e suja, mas no geral entregou um filme muito caricato e irregular.

Lançado em janeiro de 1981, Bonitinha, Mas Ordinária, completou 35 anos em 2016. É um filme que envelheceu e que funciona bem se analisado numa perspectiva diacrônica. A obra ponto de partida, oriunda do arsenal trágico de Nelson Rodrigues, um dos maiores dramaturgos da nossa história cultural, continua atual e cheia de potência, mas infelizmente nunca foi adaptada de forma eficiente. Talvez num futuro próximo, afinal, espera-se que “Nelson” continue influenciando a geração atual de cineastas.

Bonitinha, Mas Ordinária Brasil, 1981
Direção: Braz Chediak
Roteiro: Giovan Pereira, Sindoval Aguiar, Doc Comparato e Jorge Laclette
Elenco: José Wilker, Lucélia Santos, Vera Fischer, Xuxa Lopes, Milton Moraes, Carlos Kroeber, Claudia Ohana, Sonia Oiticica
Duração: 105 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.