Crítica | Bonitinha, Mas Ordinária (2008)

estrelas 2

As aparências enganam e esta afirmação é um dos lugares mais comuns do nosso repertório de expressões cotidianas. Prova disso é o que se diz por ai sobre Bonitinha, mas ordinária. O que parte da geração atual que ainda não teve acesso aos textos e adaptações cinematográficas baseadas na obra de Nelson Rodrigues podem pensar, tendo o título como referência? Provavelmente outro lugar comum de um discurso viciado que insiste em dizer que o cinema brasileiro só tem palavrões e pornografia.

Aos que pensam desta forma, sinto dizer que estão enganados. Longe de ser um apelo ao lado pornográfico do ser humano, o texto é uma poderosa reflexão sobre um sistema de valores éticos em profunda crise, bem como o desfacelamento da família. Apesar de ter sido escrita nos anos 1960, a peça continua bem contemporânea e ganhou a sua terceira versão cinematográfica em 2008, sob a direção de Moacyr Góes.

Para quem está familiarizado, em termos estruturais, não há mudanças. Edgard (João Miguel) encontra-se diante de uma missão séria. Ele é apaixonado por Rita (Leandra Leal), uma professora vizinha, mas recebe a incumbência de casar-se com Maria Cecília (Letícia Colin), a filha do seu patrão, menina aparentemente inocente que foi estuprada e precisa casar para ocultar a sua desonra. Além dos privilégios na empresa, Edgard ainda recebe um cheque milionário que pode trazer instabilidade para toda a sua vida. Sem saber o que fazer diante da sedutora proposta, o office-boy é colocado constantemente em dúvida, tendo como referência Peixoto (Leon Góes), homem responsável por agenciar a garota, filha do Dr. Werneck (Gracindo Jr.).

As atualizações são pertinentes: o tabu da virgindade, por não funcionar mais como nos anos 1960-1970, está apenas como pano de fundo para um roteiro sobre famílias corrompidas pelo dinheiro. A curra com os negros acontece numa favela, palco das questões sobre violência do Brasil que a mídia constantemente expõe. As batidas do funk, estilo musical ideal para a proposta de abuso sexual e violência física e simbólica, soam como potência para dar ritmo à narrativa, no entanto, tudo isso não consegue ser suficiente diante do roteiro cheio de falhas e da direção pouco eficiente. A produção é um exemplo das propostas reflexivas de Marc Ferro no interessante artigo O filme: uma contra-análise da sociedade?, mas como apontado, críticas sociais para revelar os nossos tempos não são suficientes se o filme não funciona bem.

Bonitinha, mas ordinária fica devendo muito ao texto ponto de partida. O falso moralismo da sociedade e a capacidade do dinheiro para comprar a tudo e a todos são abordagens presentes, mas falta naturalidade por parte dos diálogos. Tudo soa muito teatral, jogado de qualquer jeito na tela. Leandra Leal consegue segurar com dignidade quase todas as suas cenas. A sua presença magnética dá ritmo ao que poderia ser um fiasco. Os demais atores não são ruins, mas entoam as principais frases da peça de maneira mecânica e aparentemente deslocada.

João Miguel faz o possível, mas também não está em seu melhor momento. Letícia Colin, exageradamente doce em 70% da narrativa, avança ao passo que a sua verdadeira história é revelada, mostrando-se convincente em seu processo evolutivo, mesmo que tenha carregado demais durante quase todo o filme. Leon Góes, o mais familiarizado com o material fornecido por Nelson Rodrigues, haja vista a sua participação em outras adaptações e na série A Vida Como Ela É, entrega o melhor desempenho do filme. A sua versão para Peixoto é equilibrada e extremamente eficiente.

Nelson Rodrigues era um dramaturgo genial. Conseguiu radiografar a podridão da sociedade através de peças e contos cheios de reviravoltas. As suas histórias eram sempre acompanhadas de doses generosas de humor e ironia refinada, mesmo quando tratava de assuntos densos, dignos de sessões psicanalíticas. Bonitinha, mas ordinária foi um destes casos.

Assim como as tentativas anteriores, todas fazem total esforço, mas não conseguem captar o clima proposto pelo “anjo pornográfico”. A impressão que se tem é que poucos cineastas e roteiristas conseguem adaptar o texto rodrigueano sem cair na caricatura ou optar por trajetos de fácil identificação do público.

Concebida por Moacyr Góes, a versão anos 2000 enfrentou uma série de problemas de produção, inclusive um processo judicial. O cineasta, responsável por filmes tão distintos, tais como Maria – Mãe do Filho de Deus, Irmãos de Fé, Abracadabra e outros filmes da Xuxa, alegou que nesta produção iria entregar pela primeira vez um filme que fosse a “sua cara”.

Se a proposta era essa, preferimos ver o profissional de máscara, pois no que diz respeito aos processos de adaptação, Moacyr Góes parece perder a mão frequentemente. Basta lembrar que foi ele o responsável pela versão cinematográfica contemporânea de Dom Casmurro, de Machado de Assis, um romance com imenso potencial cinematográfico, mas que sob a tutela do cineasta, desperdiçou-se em meio às imagens caricaturais e aos apelos novelísticos da proposta de adaptação. No caso de Nelson Rodrigues e sua peça Bonitinha, mas ordinária, aguardemos, afinal, nunca se sabe, talvez tenhamos a quarta adaptação, não é mesmo, caro leitor?

Bonitinha, mas ordinária – Brasil, 2008.
Direção: Moacyr Góes.
Roteiro: Moacyr Góes.
Elenco: João Miguel, Letícia Collin, Leandra Leal, Gracinho Jr., Maria do Carmo Soares, Giselle Lima, Leon Góes, Ligia Cortez.
Duração: 90 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.