Crítica | Borg vs McEnroe

Martin Scorsese, em 1980, ao contar a história do boxeador Jake LaMotta de modo bastante heterodoxo, atingiu uma profundidade no estudo de seu personagem nunca antes vista na união entre o cinema e o esporte. Touro Indomável é lembrado até hoje como um de seus melhores filmes e, mais do que isso, se tornou o grande decalque para todos os filmes sobre o boxe que viriam a ser filmados nas décadas seguintes. O tênis, contudo, é um esporte que nunca recebeu a devida atenção da sétima arte até muito pouco tempo. Dada a história tão rica desse esporte, seria muito fácil cair no engodo de realizar um filme piegas sobre superação, como muitos já foram feitos. A história traumática da grande tenista sérvia Monica Seles renderia grandes dramalhões de apelo fácil. A biografia do também multi-campeão sérvio Novak Djokovic, muito marcada pelas chagas da guerra, poderia seguir os mesmos rumos. Isso para citar apenas duas histórias dentre tantas que ficaram guardadas nas memórias do esporte.

É uma grata surpresa notar que Borg vs McEnroe, do dinamarquês Janus Metz, passa longe de tudo isso. Não menos interessante é observar que o cineasta escandinavo foge completamente do comodismo de retratar figuras muito mais frescas na memória do público comum, como Roger Federer, Rafael Nadal e o já citado Novak Djokovic. Metz escolhe uma rivalidade bem anterior à desses três. O sueco Björn Borg (Sverrir Gudnason) e o norte-americano John McEnroe (Shia Labeouf) protagonizaram, se não a maior rivalidade da história do tênis em termos de números, ao menos a mais destacada em relação ao antagonismo de suas personalidades. Borg era frio. Jamais se enervava na quadra nem demonstrava sentimentos. Parecia mentalmente indestrutível e ganhou o apelido de “Iceborg”. Já McEnroe berrava e xingava durante as partidas (seu famoso bordão “Are you serious?” é reproduzido com alguma competência por LaBeouf). Reclamava do juiz, da plateia, do vento, de tudo. Até seus estilos como tenistas eram opostos. Enquanto o sueco preferia o jogo de fundo de quadra (que acabou predominando no tênis após Borg – o que demonstra a correção do filósofo Gilles Deleuze ao apontá-lo como “gênio criador”), o canhoto estadunidense era agressivo como nenhum outro, avançando à rede como um exímio voleador.

Essa dicotomia é o ponto de partida do filme e aquilo que ele refutará em uma ótima construção de personagens (bons o suficiente para jamais soarem clichês ou fáceis de decifrar). Borg vs McEnroe troca as lentes com que a história se acostumou a olhá-los e se aprofunda em suas personalidades, mesmo que se valendo de um recorte de suas carreiras – o torneio de Wimbledon de 1980. É exagerada e sem qualquer propósito a declaração do diretor de que seu filme evoca o tom de Touro Indomável. Não, não evoca. Mas o ótimo roteiro escrito por Ronnie Sandahl, somado às convincentes interpretações de Sverrir Gudnason e Shia LaBeouf, descasca os estereótipos públicos dos dois jogadores para revelar suas enormes semelhanças. É interessante notar que os próprios personagens as reconhecem um no outro. O filme foca um pouco mais no desenvolvimento de Borg (a mim isso não incomoda), mas utiliza tanto inserts como cenas inteiras para examinar a infância de ambos. Entendemos que eles são jogadores e homens bastante parecidos. Suas escolhas é que os colocaram em lados opostos.

A direção de Metz se destaca na cena da famosa final de Wimbledon – um dos grandes duelos da história do tênis, travado ao longo de cinco sets e com direito a um tie-break de 20 minutos. O diretor acerta no dinamismo de sua decupagem, alternando entre planos que fazem o espectador sentir-se ora assistindo realisticamente a uma partida de tênis, ora assistindo a um filme. Ele praticamente insere o público na linguagem do esporte, exibindo com fidelidade os golpes dos jogadores, suas subidas à rede, seus smashes, lobs e muitas “passadas” levadas de lado a lado. Metz se preocupa inclusive em ser fiel aos movimentos e às reações de seus jogadores nos momentos mais cruciais da partida. Isso não o impede de transmitir seu domínio também da linguagem do cinema. Vemos isso quando ele enquadra McEnroe em primeiro plano, agitado, trocando de tênis, e Borg em segundo plano, sentado calmamente mas com a dúvida em seu olhar. Ainda que a atuação de Shia Labeouf acentue um pouco demais a mímica de seu personagem, a qualidade da direção acaba conseguindo minimizar o problema.

O filme de Metz trata do esporte sem a obrigação de transcender o tema para torná-lo maior (ou pretensamente maior). O diretor dinamarquês, a partir de uma citação de outra grande lenda do tênis – Andre Agassi, aposta que a força de seu filme está na própria história que conta, sem inserir nenhum subtexto para engrandecê-la. Borg vs McEnroe é produto inequívoco da paixão do diretor pelo tênis. Janus Metz compreende que Björn Borg e John McEnroe, para muito além das dezenas de títulos que ganharam, são duas figuras interessantes o suficiente para motivarem um grande filme. E é exatamente isso que o dinamarquês faz. Com louvor.

Borg vs McEnroe (Borg McEnroe) – Suécia, 2017
Direção: Janus Metz
Roteiro: Ronnie Sandahl
Elenco: Björn Granath, Claes Ljungmark, Colin Stinton, David Bamber, Demetri Goritsas, Ian Blackman, Jackson Gann, Jane Perry, Jason Forbes, Julia Marko-Nord, Leo Borg, Marcus Mossberg, Mats Blomgren, Robert Emms, Roy McCrerey, Scott Arthur, Shia LaBeouf, Stellan Skarsgård, Sverrir Gudnason, Tom Datnow, Tuva Novotny
Duração: 108 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.