Crítica | Boyhood: Da Infância à Juventude

estrelas 5,0

Filmado ao longo do período que vai de 2002 a 2013, Boyhood, é uma experiência audiovisual de Richard Linklater. Com uma proposta similar ao que vimos em Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite, o diretor acompanha o passar desses onze anos sob o ponto de vista de um garoto. Assistimos a progressão da história junto do envelhecimento do menino e o que facilmente poderia se tornar uma obra enfadonha consegue nos manter presos do início ao fim.

A tarefa de Linklater, contudo, não é fácil e seu filme é recheado de elementos que permitem não somente nossa imersão, como garantem uma notável fluidez ao longa-metragem.

A primeira delas, sem dúvidas, é a utilização da cultura pop e detalhes de cada ano para nos situar temporalmente. Richard dispensa as óbvias cartelas como “um ano depois” ou simplesmente enunciando o ano em que estamos. A transição é realizada de forma discreta e muitas vezes somente percebemos a diferença minutos após a transição realmente ocorrer. São pequenos pontos que nos entregam essas elipses, tais como o penteado do garoto Mason (Ellar Coltrane) ou de sua família, seus gostos pessoais – no início, por exemplo, ele assiste Dragon Ball Z, enquanto que alguns anos depois comenta sobre o Episódio III de Star Wars.

Não poderia deixar também de comentar a emblemática trilha sonora que tão bem ilustra a época na qual nos situamos. Dos sucessos iniciais de Britney Spears, como Oops!…I Did it Again, até Deep Blue de Arcade Fire, cada canção representa perfeitamente seu tempo. Além disso, é claro, preenchem o espaço sonoro com uma inesquecível musicalidade, com estilos de todos os gostos que praticamente nos obrigam a buscar a trilha sonora com o término da projeção.

Boyhood, porém, é muito mais que o avanço das épocas ou do crescimento de um menino. É um filme que consegue provocar uma súbita identificação com qualquer espectador. Linklater escolhe precisamente os momentos ao longo desses onze anos, selecionando pontos específicos pelos quais todos, ou a maioria de nós, passamos. Os desenhos antes de ir para a escola, brigas com a irmã, o novo padrasto, a primeira conversa sobre sexo, o primeiro beijo, e mais dezenas de situações que certamente nos deixaram com uma nítida sensação de saudosismo. O que vemos na tela é uma representação de nosso próprio passado, nossa história e isso traz uma magia nova à obra: mais do que nunca, cada um a verá de forma diferente e a idade que temos é um elemento definidor para a percepção desta experiência.

É claro que a imersão tão bem construída é fruto do trabalho de direção em conjunto com os quatro personagens principais: Mason, sua irmã Samantha (Lorelei Linklater) e seus pais, interpretados por Ethan Hawke e Patricia Arquette. Vemos neles uma notável evolução de personagens, trazendo um nítido amadurecimento e passagens por diferentes fases. Patricia, que atualmente chama nossa atenção pelo seu trabalho em Boardwalk Empire é a personificação da figura materna – a mãe solteira que batalha para sustentar seus filhos. Hawke, por sua vez, nos traz o homem que pensa diferente, o revolucionário, que dirige um velho carro e prega contra seu governo. Vemos neles mudanças tão claras quanto as músicas que marcam a passagem dos anos.

A precisão de Linklater ao dirigir as crianças é ainda mais impressionante e consegue nos passar a evidente impressão de estarmos diante de uma família de fato. Mesmo com Ethan tendo marcado suas três obras mais famosas, é impossível não o enxergarmos como o pai daquelas crianças – o mesmo, obviamente, vale para Arquette, totalmente imersa em seu papel.

Fechando essa infalível composição, dando o sopro da vida à ela, temos o trabalho fotográfico de Lee Daniel e Shane F. Kelly. O que vemos não são construções mirabolantes, mas uma simplicidade de nos mergulhar dentro da tela. Enquadramentos simplesmente hipnotizantes que nos forçam a contemplar cada plano, nos fazendo refletir sobre seu propósito pensado. Para encerrar com chave de ouro, as imagens finais ainda nos remetem ao princípio do longa, formando uma narrativa cíclica que tem seu fim com um emblemático diálogo metalinguístico.

Uma verdadeira experiência cinematográfica, Boyhood: Da Infância à Juventude é um filme que precisa ser assistido no cinema. Tocante, divertido, dramático e imersivo, trata-se de uma narrativa que não terá problemas em nos prender, evocando nossas mais diversas memórias da juventude. Com precisão cirúrgica Richard Linklater nos traz o que certamente se configura como um dos melhores filmes do ano.

Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood – EUA, 2014)
Direção:
 Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater
Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Elijah Smith, Lorelei Linklater, Steven Chester Prince, Jamie Howard
Duração: 165 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.