Crítica | Bravura Indômita (2010)

estrelas 4,5

Vou começar com um esclarecimento: apesar de, em um primeiro momento, Bravura Indômita, de 2010, parecer uma refilmagem do original homônimo de 1969, a grande verdade é que não é. Os celebrados irmãos Coen (Joel e Ethan) escreveram o roteiro e dirigiram não um remake propriamente dito e sim uma segunda adaptação do livro de mesmo nome, escrito por Charles Portis, em 1968. Diferente de, por exemplo, Deixe-me Entrar, em que o diretor foi claro que faria um remake do filme sueco e não uma nova adaptação do livro, os irmãos Coen deixaram claro que voltariam à fonte para fazer um filme verdadeiramente deles.

E foi mesmo o que fizeram. O novo Bravura Indômita é mesmo uma fita com a marca dos Coen, ainda que uma das mais lineares que eles já criaram. Dentro do conceito de dar mais realismo aos westerns, algo muito comum hoje em dia e cuja tendência talvez tenha sido mais claramente estabelecida por Clint Eastwood com seu sensacional Os Imperdoáveis, de 1992, os Coen retiram a grandiosidade, a caricatura e o maniqueísmo do filme de 1969 e trazem tudo de “volta à Terra”. Agora, os heróis continuam heróis, mas tem terríveis falhas que não são necessariamente consertadas ao longo do filme. O assassinato é banalizado e tratado com todo o grafismo que é característica dos irmãos (afinal, eles moeram uma pessoa em um triturador de madeira…). Nesse novo filme, ninguém acerta em alvos que não vê, ninguém deixa de matar se puder.

Em inspiradíssima escalação de elenco, Jeff Bridges foi chamado para calçar os sapatos do quase insubstituível John Wayne no original. Wayne, na verdade, nunca poderia figurar nessa versão de Bravura Indômita, pois sua persona maior do que a vida não combina com o tratamento dado pelos irmãos Coen. Assim, The Duke foi substituído por The Dude, que consegue fazer outro memorável agente federal Rooster Cogburn, bêbado, barrigudo e cansado.

O mesmo aconteceu com Matt Damon, no papel do Texas Ranger Le Boeuf, que antes foi de Glen Campbell. Mas, nesse caso em particular, acho que Damon, inspirado em seu papel sobrenatural em Além da Vida, “canalizou” Campbell, pois ele conseguiu ficar igual – aparência e trejeitos – ao primeiro ator. Impressionante.

Mas quem consegue roubar a cena completamente é Hailee Steinfeld, a atriz mirim então estreante em longas de 14 anos, no papel de Mattie Ross. Seu papel é tão marcante e ela o faz tão bem, que consegue até mesmo apagar Jeff Bridges e Matt Damon quando estão juntos em cena.

Enquanto que é possível dizer que o filme de 1969 tem suas lentes focadas na presença marcante de John Wayne e seu Rooster Cogburn, no filme dos irmãos Coen isso não acontece. Quando Mattie Ross está em cena, só vemos a menina. Não posso afirmar que o mérito todo está nas mãos da atriz pois o papel – mesmo no primeiro filme – é mesmo muito forte e interessante, uma brilhante criação de Portis. Além disso, os Coen fizeram um filme menor em escopo, mais intimista, em que ela chama mais atenção ainda.

A relação entre Cogburn e Mattie tem destaque na película, até mesmo com uma das grandes mexidas dos diretores na estrutura da história: em determinado momento, eles desmantelam o trio principal, permitindo mais tempo de tela para a dupla principal e, no final das contas, conseguindo até uma solução melhor para o filme e o famoso encontro de Mattie com o assassino de seu pai, Tom Chaney (Josh Brolin no que se pode chamar de uma ponta de luxo).

Sobre a história em si, ela já é conhecida: o pai de Mattie Ross é assassinado e ela contrata Rooster Cogburn, um experiente agente federal, para caçar o assassino. O problema é que a garota é mandona e quer ir junto na caçada. Além disso, La Boeuf, o Texas Ranger, também quer achar Tom Chaney por outras razões, mas Mattie não o quer junto, pois La Boeuf pretende capturar e levar Chaney a julgamento no Texas, por um crime diferente.

Não poderia acabar esses comentários sem falar do final mas, fiquem tranquilos, sem spoilers, prometo. Perto da resolução do filme, Matty está em uma enrascada, como todos podem deduzir. No filme original, substancialmente a mesma coisa acontece, mas o diretor Henry Hathaway conseguiu encaixar melhor o evento do que os Coen, que parecem forçar a cena. Acaba ficando um tanto quanto aleatória, mas, quase que retirando um ás da manga, os irmãos compensam o problema ao incluírem um epílogo, tal qual o livro, contando os acontecimentos posteriores. A atmosfera fica pesada e as peças acabam se encaixando perfeitamente, incluindo uma espécie de relação amorosa distante entre o velho Cogburn e a pequena Mattie, algo que nem de longe está no primeiro filme, mas que é trazida à tona aqui.

Quem espera do novo Bravura Indômita o mesmo espírito tranquilo e aventureiro do primeiro, terá uma surpresa. Os Coen trabalham com o western barra pesada, triste, sujo, sem heróis. Não é um filme de todo sem humor, mas ele está debaixo de algumas camadas de pesar. É uma outra obra mas, da mesma maneira que o primeiro, um grande filme sob qualquer ótica.

Bravura Indômita (True Grit, EUA – 2010)
Direção: Joel Coen, Ethan Coen
Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen (baseado em romance de Charles Portis)
Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Dakin Matthews, Jarlath Conroy, Paul Rae, Domhnall Gleeson, Elizabeth Marvel
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.